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Mapa Mundi, performance de Luísa Cunha no Atelier-Museu Júlio Pomar

Após Rui Chafes, Julião Sarmento e Pedro Cabrita Reis, o trabalho de Luísa Cunha é agora apresentado em diálogo com o de Júlio Pomar através da exposição O Material Não Aguenta, com curadoria de Sara Antónia Matos. A exposição dá seguimento ao programa de exposições anuais do Atelier-Museu Júlio Pomar que procura dar a conhecer outras leituras da obra de Júlio Pomar através do seu cruzamento com a obra de outros artistas.

Ainda em vida, Júlio Pomar encontrou no trabalho de Luísa Cunha uma ironia perante a realidade semelhante à sua. É esta ironia que aproxima a obra de ambos os artistas e que dá corpo à exposição.

O título poderá ser relacionado com o sentido da matéria presente em muitas das obras de Luísa Cunha, na maioria das vezes reforçado através de frases chave que lhes dão nome, e remete para a altura em que a artista leccionava na Ar.Co e se via confrontada com as longas histórias que os alunos encontravam nos trabalhos que apresentavam cujo material não as suportava. Segundo a artista, a isto se chama desbastar as ideias já que a linguagem visual é uma linguagem visual e não uma linguagem literária, romanesca. Assim dizia-lhes, “o material não aguenta!”.

Para a exposição, Luísa Cunha concebeu quatro peças, entre elas uma performance inédita, Mapa Mundi, que teve lugar no dia 28 de novembro de 2018 no espaço do Atelier-Museu. Ninguém, para além da artista e de um amigo próximo, sabia do seu conteúdo. Houve apenas um ensaio à porta fechada, onde nem a curadora esteve presente.

No dia da sua apresentação, ao entrar no interior do Atelier-Museu, o público foi surpreendido pelos delicados papéis de seda organizados por cor sobre o soalho em madeira. Calma e metodicamente Luísa Cunha começou a dispô-los segundo uma determinada ordem através de movimentos repetidos de baixar, apanhar, levantar, baixar, pousar e levantar, imprimindo um ritmo ao espaço que pontuava o silêncio dos espectadores.

Os tons azuis, castanhos e branco iam progressivamente construindo um desenho no pavimento, não perceptível imediatamente pelos que se encontravam no piso térreo. Alguns papéis foram pousados direitos colorindo a superfície plana e outros amachucados conferindo uma topografia ao espaço do Atelier-Museu.

Baixar, apanhar, levantar, baixar, pousar e levantar, foram mais de trezentas e quarenta vezes que Luísa Cunha repetiu este movimento. Os gestos mecânicos, lentos e metódicos eram imbuídos de um sofrimento físico apenas visível através do suor que a determinada altura começou a pingar o material delicado. Um jogo de coordenação e autodomínio, levado a um estado meditativo, de modo a que o esforço não fosse demonstrado, já que a ideia de fadiga não era parte integrante da peça.

Progressivamente o desenho do mapa mundo começou a ser reconhecível, convidando parte do público a subir ao primeiro andar de modo a conseguir apreendê-lo na totalidade espreitando através do mezanino. Os continentes representados por manchas em tons castanhos apresentaram-se rodeados pelos vários oceanos em tons de azul. A Antárctica delimitava a planificação do mundo na sua base, a branco.

Passada quase uma hora, com o corpo e a mente invadidos por um enorme cansaço, sôfrega mas serenamente, a artista terminou o desenho do mapa do mundo no chão do Atelier-Museu Júlio Pomar. Concluído, percorreu-o na totalidade, de país em país, de continente em continente, atravessando a Austrália, a Indonésia/Papua Nova Guiné, a Tailândia/Índia, a China, a Rússia e o Médio Oriente rumo à Europa, saltando para o continente Africano de onde regressou à Europa e seguiu para a Escandinávia e para a Gronelândia até chegar ao continente Americano. Do Canadá, Estados Unidos, México, América Latina, regressou à América do Norte e novamente à Europa.

Por fim, deteve-se por um período mais longo no seu país de origem e casa, em Portugal, de onde, começou a apanhar país a país o mundo, carregando-o todo nos braços, como se fosse seu. Depois de experienciado, largou todos os papéis no chão, devolvendo o mundo a quem o quisesse igualmente experienciar.

Por breves instantes foi possível ver o pavimento do Atelier-Museu Júlio Pomar coberto de cor, predominando o contraste entre os tons intensos de castanho e azul. Os papéis de seda que pela sua cor, segundo as palavras da mesma, fascinaram Luísa Cunha motivando o seu uso na peça concebida especificamente para aquele lugar, preencheram o espaço do Atelier-Museu do pintor das cores vibrantes, Júlio Pomar.

A performance surge como uma reação a um contexto político, instigando uma reflexão acerca da questão das fronteiras e da divisão do mundo a que assistimos nos dias de hoje.

Esta temática não é novidade na obra de Luísa Cunha que há uns anos atrás concebeu uma performance para o espaço da Arte Ilimitada, também em Lisboa, na qual construiu uma fronteira com fita cola de pintor, condicionando e limitando forçadamente o espaço de movimento dos espectadores.

Mapa Mundi, sendo uma obra que não resulta em objecto algum, é marcada pela forte relação entre o corpo e o espaço, tema recorrente na obra da artista, destacando-se o movimento do corpo no espaço, o espaço terrestre, o esforço do corpo e o contraste entre a intensidade dos gestos e a leveza e fragilidade do papel de seda que é distribuído no espaço através desses mesmos gestos.

Em conversa com um amigo próximo, único conhecedor da performance antes do seu acontecimento, Luísa Cunha afirmou, perante a desacreditação na capacidade de aguentar a performance até ao fim, “se for preciso, eu morro em palco”. Felizmente que o corpo, que é como quem diz o material, aguentou.

Sara Antónia Matos confidenciou que Mapa Mundi impulsionou a implementação de uma ideia antiga de convidar anualmente um ou dois artistas a conceber uma performance inédita, irrepetível, a partir da obra de Júlio Pomar para o espaço do Atelier-Museu.

Da performance, irrepetível, restam alguns registos fotográficos. Já a exposição O Material não aguenta poderá ser vista até 13 de janeiro no Atelier-Museu Júlio Pomar.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquitecta, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o Mestrado Integrado em Arquitectura na FA-UL em 2011, frequentou a TUe na Holanda e efectuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com os ateliers suíços Bureau A (Leopold Banchini e Daniel Zamarbide) e Bureau (Daniel Zamarbide) onde desenvolveu uma prática entre a Arte e a Arquitectura, entre Portugal e a Suíça. Actualmente dedica-se exclusivamente a projectos de sua autoria ou em co-autoria com outros arquitectos e artistas. Recentemente iniciou a sua prática curatorial, após concluir a Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UL.

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