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O triunfo da arte é lembrar, mesmo apagando

Imbéciles, je vous pardonne; mais ressouvenez-vous que sans les sens il n’y a point de mémoire,

et que sans la mémoire il n’y a point d’esprit.

Aventure de la Mémoire (1773), Voltaire

 

O primeiro passo para o esquecimento são os pequenos gestos de apagamento. O segundo passo, é fazê-lo de novo. O terceiro é a repetição dos anteriores. Compulsivamente, inadvertidamente.

Esquecer o que não se deseja; o que não se gosta. Esquecer aquela memória persistente, humilhante, que causa ferida.

Esquecer apagando a imagem física é mais fácil que esquecer a imagem gravada nos recônditos cantos da mente. Uma esgota-se no objeto, a outra em infindáveis contextos e variáveis que dificilmente se obliteram.

O exercício que AnaMary Bilbao conduz em O último brilho da estrela que morre é um magnífico ensaio sobre o esquecimento. Uma peça apenas é um paradoxal desvelar de uma necessidade tão humana como esquecer. E esta afirmação diz-se com toda a propriedade das palavras empregues. É mais importante para o ser humano esquecer do que lembrar.

Ou assim parece ser, porque o contrário também é imprescindível e daí a ambiguidade da memória.

A modernidade acerca-se do tragicómico conto de Voltaire, A Aventura da Memória, em que cada ação, tomada pelo indivíduo moderno, é um atentado a Mnemósine, à memória, ao passador. A cada dia acordamos com um ontem apagado, para nos entregarmos aos impulsos da sensação e do espírito básico.

Na exposição que apresenta na galeria Uma Lulik__, Bilbao mostra uma série de imagens que à primeira vista parecem manchas de gravura – nuvens ou ondas turvas em tramas finas a preto e branco. Mas um olhar mais atento revela que as manchas escuras é um resto de memória fotográfica, nas quais discernimos algumas texturas e objetos. O escuro é a informação subtraída avidamente à imagem, ao negativo da fotografia. Só o céu da paisagem, correspondente ao branco da imagem de AnaMary Bilbau, fica intacto.

E o olhar investiga. Indaga. A curiosidade reveste-se de uma capacidade forense para discernir. Em conversa com a artista, percebe-se que a geografias retratadas e posteriormente obliteradas não são inocentes. A terra é muitas vezes o rosto do que se quer esquecer. Apagar o registo da crueldade é uma dupla crueldade.

“Os negativos foram arranjados em Joanesburgo, de campos de minas que se preparavam para a extração do ouro. E o terreno em Joanesburgo tem um comportamento estranho: a terra vai absorvendo a informação e vai fazendo desaparecer todos os vestígios que existem dessa extração do ouro. Parece que a história do lugar foi apagada pela erosão do terreno e, depois, pelas construções que surgiram por cima”, explica a artista.

E a fotografia, como último brilho de uma verdade que morre, é aqui trabalhada até ao seu eclipsar.

Noutro sentido, mas igualmente recorrendo a esta noção de displacement – deslocamento –, de conteúdos, signos e significados, que vêm não só das noções de geografia (física e humana), mas também de toda a exegese da fotografia enquanto medium e veículo imagético (como o autor do texto expositivo, Bruno Marchand, refere), Bilbao mostra uma pequena série que enunciam uma escala mais restrita do que a da paisagem territorial. Em nove reduzidos registos, a artista trabalha sobre álbuns de casas em processo de despejo em Portugal. A tensão da imagem final, entre rasuras múltiplas, é, no fundo, a vibração de uma tensão política, familiar e emocional anterior, se não mesmo concomitante. A compaixão, aqui, só pode ser imaginada. Porque não há rostos, não há corpos, e as formas que sobram do apagamento são escassas e impercetíveis.

Em suma, o que importa aqui reter é justamente a importância da memória – uma noção que de tão óbvia e truísta, esquecemos. E tal como as personagens do conto de Voltaire, confrontados com a magia das artes e das musas, só nos resta relembrar, perante a obra de AnaMary Bilbao, os problemas do esquecimento, do apagamento e da obscuração dos cérebros – seja por vontade própria, seja por vontade coletiva, seja voluntária ou involuntariamente – mas também da sua necessidade, sob pena de nos consumirmos num vórtice de pretéritos angustiantes.

Até 26 de janeiro, na galeria Uma Lulik__, em Lisboa.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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