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Claire de Santa Coloma, Chuva

A escultura materializa o pensamento do artista através do seu trabalho manual. É, pois, uma arte profundamente física, que exige ao seu praticante muito mais do que a conceção e projeção de uma ideia. Chuva, patente na Appleton Associação Cultural, é uma instalação que consiste em pedaços de madeira de azinheira de diferentes formas e tamanhos, penduradas no teto a diferentes alturas e distância umas das outras. Claire de Santa Coloma, artista argentina, empreendeu muito tempo a escolher, esculpir e polir os diferentes pedaços de madeira que compõem esta exposição. Mas nós olhamos para estes objetos e já não encontramos os troncos de azinheira e até imaginamos semelhanças diversas com caras ou sapatos. Poderíamos estar em presença de um mobile gigante, cujas peças polidas e suaves apelam ao toque. Como se Claire, depois de passar muito tempo a esculpir e a polir estas peças, quisesse partilhar connosco esta qualidade, esta energia que as peças têm e para a qual a artista contribuiu com a sua dedicação.

Claire produziu esta obra no decorrer de uma residência artística no Jardim Botânico de Coimbra. Os troncos de madeira utilizados estavam preparados para servirem como lenha, quando Claire os arrancou do seu lúgubre destino. Foi depois elaborado o mapeamento do teto da Appleton para registar os furos já existentes (que serviram outras exposições) e foram penduradas as peças, através de cabos de aço, nesses buracos. Estas peças contêm, pois, o passado expositivo deste espaço da Appleton, ao mesmo tempo que contêm o futuro, pois o teto continuará subtilmente esburacado e Chuva juntar-se-á a essa memória.

Há algo de intangível nesta instalação que é, ao mesmo tempo, tão corpórea. A árvore que, com tanta força está agarrada à terra, aqui decomposta, está suspensa, e toda a estrutura balança levemente ainda que não o pareça. A ocupação do espaço é quase total, mas podemos caminhar no meio das suspensões, o que lhe dá uma leveza e uma qualidade cinética que a distancia da escultura tradicional. Há a forma das peças e o modo como o nosso corpo interage com elas. A forma como nos obrigam a andar cuidadosamente, o modo como balançam quando lhes tocamos ainda que seja ao de leve. Há uma relação que se estabelece entre o corpo do visitante e o corpo da obra, da mesma forma que a artista estabeleceu uma relação física anterior com os troncos de madeira que a levaram para estas formas. Há uma relação quase erótica entre a escultura e o visitante, expressa no desejo de tocar e manusear.

Ao mesmo tempo que toda a estrutura está em movimento, ela reivindica uma qualidade estática, pois parece que todas as peças estão em suspenso no tempo. Como se uma chuva de troncos polidos, estivesse suspensa de cair, congelada, como na trilogia cinematográfica The Matrix. Chuva é uma instalação que tanto está permanentemente em movimento, como está suspensa do movimento natural que seria cair. É no fundo, uma sublimação do tempo e do espaço, onde também nós nos sentimos em suspensão, mas sempre na eminência da queda.

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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