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Homens de recursos vs. Recursos Humanos

Yoshiharu Tsukamoto, cofundador do Atelier Bow Wow com Momoyo Kajima, foi convidado para encerrar o ciclo de Conferências da Distância Crítica de 2018, organizado pela Trienal de Arquitetura de Lisboa e pelo CCB (Centro Cultural de Belém).

Homens de Recursos face a Recursos Humanos, recorrendo à arquitetura enquanto meio, foi a temática principal proposta por Yoshiharu Tsukamoto para esta palestra.

Para lá das teorias intituladas Pet Architecture (Arquitetura de Estimação) e Micro-Urban Space (Espaço Micro-Urbano)  desenvolvidas como resposta às exigências impostas pelos subúrbios de Tóquio, o Atelier Bow Wow sugere também uma abordagem etnográfica à arquitetura A Teoria da Prática Espacial de Henry Lefebvre enquanto tipologia de abordagem segundo a perspetiva do uso do espaço em oposição a uma composição formal e o legado do Metabolism Group e suas megaestruturas inspiradas no crescimento biológico orgânico, foram teorias que permitiram o desenvolvimento da behaviorology enquanto conceito que reflete a trilogia composta pelo ser humano, pela natureza e pelo comportamento da construção.

Conversámos com Yoshiharu Tsukamoto para melhor entender os conceitos e abordagens arquitetónicas do Atelier Bow Wow.

 

Joana Jordão – Como pode explicar a adoção do conceito da Behaviorology, primeiramente numa microescala (ou escala de construção) e posteriormente numa dimensão urbana, até mesmo social?
Yoshiharu Tsukamoto – Através da behaviorology tentamos captar comportamentos naturais, humanos e construtivos, sintetizando-os enquanto entidade física. Isto significa que a arquitetura, enquanto entidade física, está já a tornar-se um epicentro de redes com diferentes atores:  luz, calor e vento para a construção e o comportamento dos usuários com base numa determinada cultura ou hábito (também entendidos como atores). Esta ideia de arquitetura como epicentro de uma rede permite uma perspetiva que ultrapassa as categorias baseadas na noção de escala, como por exemplo o design de mobiliário, de habitação urbana e de paisagismo. Estas categorias são dadas pela indústria. A indústria estabelece categorias. Ao recorrermos à perspetiva da rede que se situa para lá das escalas, até mesmo objetos de pequena dimensão podem cobrir o mundo inteiro.
A behaviorology adota este entendimento do sistema sem escalas.

JJ – Na interação urbano-rural,  existe um interesse em entender como a urbanidade encontra o espaço rural?

YT – Na interação urbano-rural, estamos interessados em compreender de que forma a urbanidade se encontra com a paisagem rural. Se pesquisarmos a genealogia deste tipo de proposta voltamos atrás no tempo até às Villas Palladianas, provenientes da necessidade de um aristocrata oriundo de Istambul, que pretendia iniciar uma nova produção agrícola em Vêneto. O aristocrata, prestes a viver no campo pela primeira vez, necessitava de uma imagem que lhe fosse associada, num edifício que colocasse em diálogo os programas de habitação e escritório. Andrea Palladio foi o arquiteto convidado a projetar uma habitação que tinha como premissa as proporções do templo grego, recorrendo à linguagem da colunata com o objetivo de que um pequeno edifício parecesse maior. Após este projeto, Palladio foi convidado a projetar a igreja de San Giorgio Maggiore em Veneza. Este intercâmbio global urbano já manifestou a capacidade de produzir a tipologia de habitação urbana no campo. Neste caso, o programa de intercâmbio urbano-rural pretende convidar as pessoas da cidade a virem para o campo, proporcionando melhores condições de vida para a população local. A genealogia tem uma conexão direta com o passado.

JJ – Numa era em que a globalização governa a sociedade podemos entender a arquitetura vernacular como uma possível resposta à individualização, na medida em que existe uma menor distinção entre construção e ocupação?

YT – Atualmente, a arquitetura não é apenas questionada pelos arquitetos mas também pelo sistema institucional. Espaços pouco convencionais tornaram-se um novo alvo para os arquitetos, o que é muito interessante por se tratar de algo bastante crítico, para lá do espaço institucional. É muito importante ter a capacidade de aceitar críticas. Creio que chegou o momento de o fazer. São muitos os coletivos recém-formados que iniciam a sua prática. através da criação de pequenos edifícios isolados, com a colaboração dos destinatários, projetando edifícios com técnicas de construção simples, de formas e planos discretos que produzem uma espécie de beleza. Esta abordagem vernacular à arquitetura contemporânea está associada a pequenas construções que possibilitam a  ocupação do espaço de formas distintas.

JJ – E o conceito de Escala Temporal?

YT – É bastante simples. Tendo a behaviorology como base de estudo, acreditamos na sobreposição de vários ciclos: um dia, uma semana, um ano. Estes ciclos sobrepõem-se em diferentes escalas de tempo e isto permite a ligação entre o comportamento humano e a natureza.

JJ – Quais são as diferenças fundamentais entre as abordagens contemporâneas arquitetónicas no ocidente e no oriente?

YT – A principal diferença é referente à longa história da construção em pedra e em madeira. Se introduzimos a perspetiva de rede quando refletimos sobre o material de construção, então, por detrás da construção de madeira, existe toda a gestão florestal. A capacidade de criar uma floresta em boas condições, depende da compreensão das condições climáticas associadas à condição do solo. No arquipélago do Japão, o solo era resultado de terramotos e atividades vulcânicas, associadas à atmosfera húmida do mar. O elemento água e a sua potencial energia, simplesmente acionada pela gravidade, permite a produção de energia ao mesmo tempo em que purifica a água, ao descer do topo da montanha. Tudo está associado à natureza do lugar: a construção em madeira não significa apenas construção. Significa também tradição, meio ambiente, sociedade e, particularmente, a mentalidade das pessoas que cresceram nesse contexto. A construção em pedra tem também o seu próprio sistema, totalmente distinto do da madeira. É a principal diferença, a meu ver. Aprecio muito a abordagem arquitetónica portuguesa.

Vive e trabalha em Lisboa. Mestre em Arquitetura pela FA-UL em 2010, desenvolveu a sua prática profissional na Suíça entre 2011 e 2016. Em 2017 inicia a Pós-Graduação em Curadoria de Arte na FSCH-UNL, integrando o coletivo de curadores da exposição final ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE) e comissariado a exposição do projeto de arte comunitária UM MONUMENTO PARA O LOUSAL. Atualmente desenvolve projetos nos domínios da arquitetura e da curadoria.

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