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Diálogo #2: Museu da Farmácia X Bárbara Bulhão

Existe alguma substância química que me permita deixar de ser humano?

Tenho tudo. Abençoado por existir a uma classe média pequeno-burguesa, viajo quando posso, compro quando quero. Por defeito, sou ilimitado. De amanhã, um inibidor da recaptação da serotonina e noradrenalina. Se necessário, loflazepato de etilo. À noite, antes de deitar, uma pequena benzodiazepina. No dia seguinte, repito. Uma e outra vez, durante meses, anos, décadas. Servem para me sentir humano, dizem, para ficar atento, capaz de produzir; tiram-me de um certo torpor, de um estado de indiferença perante tudo: a vida, a existência, o corpo – o insuportável corpo! Servem para criar empatias, dizem, estimular o contacto social – que horror! –, reduzir a ansiedade e, por arrasto, alguma timidez.

Antes mais não era que uma molécula em desintegração. Exposta a agentes, reagentes e solventes, derivo do estado líquido para o gasoso. Gás vaporoso à mercê da inalação, a viajar por entre fluxos aéreos gerados inadvertidamente. Leve como ar, ligeiramente mais pesado que o hélio.

Agora estou bem. Estável. Os humores estão regularizados e só choro de vez em quando. Quando a rotina estiver bem oleada e automatizada, posso deixar a medicação. Desmame. Sentirei falta e já não sei se existo sem comprimidos.

Usamos medicamentos para nos tirarem da apatia febril e incapacitante da doença. Medicamentos para as dores, para a flatulência, para a depressão… Medicamentos para a disfunção erétil, para a gravidez, para dormir… Tudo um grande fardo, um insuportável cansaço.

É muito humana, a fé que depositamos na ciência e no conhecimento. Querem-se comprimidos para tudo. Um comprimido para a guerra e para a esperança. Dois para a solidão e a depressão. Cinco comprimidos para o IRS, outros tantos para o IVA. Uma caixa para o refugiado, todo o meu amor e generosidade: os Estados não existem e a Terra é só uma – Gaia.

Não quero morrer. Só quero sair da categoria dos humanos, deixá-los definitivamente. Recuso a comunidade possível, a coexistência pacífica. Quero ser um outro, mas não certamente humano.

 

A coleção do Museu da Farmácia é a cronologia da luta do conhecimento científico contra o obscurantismo. Menos que um museu de ciência completo, mas certamente mais que um museu de farmácia, esta é uma instituição que reúne um número considerável de artefactos que documentam e atestam a longa e penosa jornada da ciência e da procura pela cura. Neste contexto, o espólio em causa conta mais do que as meras conquistas. O que está antes – a doença, o sofrimento, a dor – é igualmente registado e exposto nas vitrines: instrumentos para a sangria, tortuosos dispositivos de castidade, venenos, taças para sacrifícios, etc. Ou seja, durante séculos e milénios, a ciência andou paralelamente ao misticismo e este é um espaço que acaba por relatar as separações entre ciência (medicina) e misticismo (alquimia) e, depois, entre a farmácia e a botica.

O percurso pelas galerias do museu é um alumiar paulatino do conhecimento: da primeira grande civilização egípcia, à atualidade, recusando um eurocentrismo e abraçando todos os contributos e visões paralelas noutros continentes, o Museu da Farmácia é, todavia, o produto pleno do Iluminismo – do que tem de arquivístico, documental, pedagógico e também de humano. Nele, não apenas se congregam as histórias e estórias de parte da ciência, como as histórias e estórias imanentes aos objetos e aos seus proprietários originais. Refira-se de passagem que este espólio é feito substancialmente de doações (complementadas posteriormente com uma forte política de aquisições) e de indivíduos que consideraram por bem contribuir com parte das suas memórias para a construção deste museu.

É neste vasto espólio, cuja escala extravasa as geografias e cronologias nacionais, que Bárbara Bulhão trabalhou e confrontou a sua prática e olhar sobre as substâncias químicas corantes que usa com o progresso histórico físico-químico que as levou até ela. As obras Methylene Blue, Água Temperamental e Cura [2018] que desenvolveu fazem uso de fármacos como se de pigmentos se tratassem. Encontrar a cor certa implica tempo, persistência, descoberta e uma mistura calibrada de solventes, agentes e reagentes, em tudo condizente com a físico-química; encontrar a cor certa implica um certo ritual que, na arte, tanto pode ir da ciência ao misticismo, como o contrário. A poética da arte tem uma técnica, científica, se quisermos, mas não necessariamente reducionista. E a obra desta artista recorda isso.

O projeto que desenvolveu para este Diálogo #2, Perpetva Vivas (Tenhas uma vida longa), é um encontro com uma cor que está muito presente no seu trabalho, o azul, e uma busca pelos primórdios da medicina e das práticas de curar, a colher de prata. A escolha do azul retoma à psicologia da cor e à ação calmante que induz no espetador; a colher de prata, por seu lado, resgata de uma sucessão imensa de objetos e de artefactos uma pequena, mas útil, colher do século IV usada pelos romanos para essa prática da cura, com uma inscrição que a artista escolheu para título deste seu projeto. Na verdade, é curioso notar como um objeto do quotidiano teve uma presença tão regular na medicina e da recuperação física: para a aplicação de unguentos, para a ingestão de xaropes, a preparação de misturas, para as cirurgias mais arcaicas, etc. E ao dobrar a colher, Bárbara Bulhão confere-lhe um movimento, uma ação, num objeto que é vida e procura dar vida. Segundo a artista, a segunda imagem da colher (dobrada) sinaliza “o movimento da respiração”, de “reanimação”, e este projeto mais não é do que um animismo ou a atribuição a um objeto do quotidiano, utilitário, uma qualidade viva, espiritual.

Contudo – e muito mais poderia ser mencionado –, o projeto revela uma dimensão histórica e social mais obscura, se não mesmo anedótica. No século XIX, a alta sociedade burguesa tinha por hábito fazer uso corrente de colheres de prata para a alimentação, de tal forma que acabou por desenvolver uma condição assustadora designada por argiria, derivada do envenenamento por prata. A pele perdia os tons rosados, quentes, para se tingir de azul-cinza. O termo sangue azul não era uma mera expressão social e tinha efetivamente uma justificação científica.

 

Tenho vivido uma vida longa, demasiado longa, graças à medicina. Tenho 120 anos e outros tantos pela frente. Estou cansado. São os “blues” da meia-idade, dizem os médicos, uma colher de xarope e tudo passa. Novas substâncias a invadirem o meu corpo. Já não tenho sangue nas veias, tenho soros químicos. 120 anos, mas quero deixar de ser humano.

(A Umbigo agradece a Bárbara Bulhão, João Neto, Paula Basso e Karine Ramos a disponibilidade e dedicação ao projeto.)

 

Errata: A Umbigo publica excecionalmente a versão digital do projeto Diálogo #2 para colmatar o erro de designação do Museu da Farmácia. Na versão impressa, já em banca, esta instituição surge com o nome Museu da Farmácia e da Saúde, o que corresponde a um erro que adveio de uma confusão com a tradução inglesa do museu. Para que conste, sem margem para dúvidas, o nome do museu é tão somente Museu da Farmácia.

A Umbigo e o autor José Pardal Pina pedem desculpas à direção e administração do museu, à artista e aos nossos leitores pelo erro, esperando que consigam ler e apreciar o projeto e o artigo para lá desta falha.

Texto editado e corrigido.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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