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I will conquer you de Sérgio Fernandes

Os tons escuros e quentes, onde o vermelho predomina, esmagam quem vislumbra a pintura I will conquer you de Sérgio Fernandes. Pela sua intensidade, apesar de intimidado, o observador é instigado à descoberta da peça de grandes dimensões que preenche o espaço confinado do Kubikulo na Kubikgallery no Porto. A relação convencional entre pintura e espectador é questionada através da obra site-specific.

Uma forma negra trapezoidal ao centro estende-se praticamente até aos limites da tela rectangular e vibra através do contraste com o pigmento vermelho que preenche a faixa estreita que a circunda. A pintura em tensão desafia a escala do espaço e desperta sentimentos intensos no ser humano. Amedronta, ao mesmo tempo que fascina, e desperta curiosidade motivando um confronto.

A sua força absorvente transcende o observador que é transportado para um estado profundo de meditação, envolvendo-o numa experiência emocional que vai para além do emocionalismo humano dos sentimentos ou da sensualidade. Um processo que comporta uma exaltação que é comunicada pelo sistema emocional. Reação proporcionada pela exatidão das proporções, da técnica e consequente percepção da harmonia do conjunto da peça, uma verdadeira experiência do belo.

Tecnicamente, há um refinamento da pintura que lhe confere uma elegância própria e proporciona uma presença e força específicas. As três telas apresentam-se completamente lisas, sem quaisquer imperfeições, sendo as pinceladas praticamente imperceptíveis. Um trato que procura a perfeição do resultado em prol de uma concentração absoluta por parte do observador, sem distrações proporcionadas por quaisquer irregularidades.

Sérgio Fernandes capta a luz e a cor em uníssono de modo a que ambas se encontrem em perfeita harmonia. Cromatismos intensos são dispostos na superfície da tela através de uma cuidada sobreposição de camadas de várias cores. Nas laterais da peça é visível o registo dessa sobreposição possível através do escorrimento da tinta. Na sua espessura é revelada, sem pudor, a sedimentação de cores que deu origem ao resultado final.

A observação requer tempo. Demoradamente o espaço da tela é revelado. Formas difusas emergem, por camadas, da superfície plana, bidimensional, e uma aura reluz em seu redor. As camadas superiores vão-se tornando transparentes permitindo vislumbrar as formas e cores nas camadas inferiores.

Quem tem acompanhado o trabalho de Sérgio Fernandes conhece a quietude que as suas telas, de tons predominantemente claros, emanam. Relembrando a exposição individual do artista um blue que teve lugar no Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor, haverá que referir a sua dimensão imersiva e contemplativa. Um olhar atento, demorado, sobre uma tomada de consciência das atmosferas quotidianas, da sua luz, dos seus ambientes e das suas cores, marca o trabalho que o artista tem vindo a desenvolver até aqui.

I will conquer you anuncia uma nova dimensão contemplativa das suas pinturas e assinala uma nova fase do seu trabalho. A calma e envolvimento imediatos são substituídos por uma força e poder contagiantes que intimidam. Da contemplação de atmosferas e do meio envolvente há uma passagem para a contemplação do interior e dos sentimentos mais profundos e cobiçados do ser humano, incontroláveis. Os tons escuros e quentes, fazem transparecer esses sentimentos de um modo cru, despido, em bruto.

A cor vermelha poderá ser associada a uma ideia de poder e de riqueza, estando diretamente relacionada com a realeza como símbolo de um determinado estatuto. Estatuto que poderá ser lido no trabalho mais recente de Sérgio Fernandes onde a pintura se apresenta como sinal de poder. Poder não no sentido de posse, domínio ou liderança, mas no sentido de uma intensidade que intimida, enfrenta, desafia e provoca.

I will conquer you é assim uma pintura que se impõe não apenas sobre o espaço que representa e em que se insere mas também sobre o espectador, envolvendo-o e conquistando-o.

I will conquer you inaugurou a 24 de Novembro e poderá ser vista até 19 de Janeiro na Kubikgallery no Porto.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquitecta, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o Mestrado Integrado em Arquitectura na FA-UL em 2011, frequentou a TUe na Holanda e efectuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com os ateliers suíços Bureau A (Leopold Banchini e Daniel Zamarbide) e Bureau (Daniel Zamarbide) onde desenvolveu uma prática entre a Arte e a Arquitectura, entre Portugal e a Suíça. Actualmente dedica-se exclusivamente a projectos de sua autoria ou em co-autoria com outros arquitectos e artistas. Recentemente iniciou a sua prática curatorial, após concluir a Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UL.

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