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Les Ateliers de Rennes – Wrap-Up

Por Cristina Sanchez Kozyreva

Desde a sua criação em 2008, Les Ateliers de Rennes, uma bienal que leva a arte contemporânea à Bretanha, tem como objetivo criar impacto internacional, abordando temas e experimentações relevantes para a contemporaneidade. A sexta edição (a decorrer entre 29 de setembro e 2 de dezembro) intitula-se À Cris Ouverts, traduzida pelos organizadores como “de gritos abertos”, criando assim a possibilidade de rompermos com qualquer coisa da qual nos possamos libertar. Esta bienal consegue açambarcar assuntos de séria importância, acrescentando ao mesmo tempo nuances menos sombrias.

A seriedade advém de obras como o notável filme de um canal de John Akomfrah, Mnemosyne (2010), cujo título é uma referência à deusa mítica grega da memória e mãe das musas. A película de quarenta e cinco minutos, apresentada na Halle de la Courrouze, mistura as imagens do artista, retratando uma personagem solitária envolta numa paisagem natural nevada, com gravações da BBC de imigrantes do pós-guerra em solo inglês. O resultado é uma viagem hipnótica entre o documentário e a ficção. Ajudado por retratos fugazes e emotivos, o espetador é transportado para muitas cenas diferentes. De um vagaroso comboio em viagem, que se mistura com o olhar do cineasta, concentrado nas crianças que regressam da escola e riem. Até ao foco nos trabalhadores da fábrica e nas suas residências. Posteriormente, o espetador transforma-se numa testemunha invisível da figura misteriosa e solitária na terra congelada – são estas as únicas imagens que não pertencem aos arquivos da BBC. A mudança de ritmo transporta em si melancolia e tristeza, completa com a perceção daquilo que foi um dia o receber imperfeito dos migrantes a uma terra prometida. Que, no nosso mundo atual, deu lugar a algo ainda menos complacente.

Outro vídeo notável, apesar de muito diferente no tema e estilo, é Who Wants My Horse? (2018) de Julie Béna. O filme traz-nos uma série feminista de esboços humorísticos que se debruça sobre a sexualidade, o prazer ou as memórias dolorosas, com uma leveza sedutora. Cru, mas não provocador, o trabalho coloca o olhar feminino no centro do discurso e identidade. Nele, as mulheres são donas do seu desejo, independentemente da sua forma crua, divertida ou romântica. Numa cena, Béna representa-se a si mesma, contando episódios biográficos da sua vida sexual e romântica, entre a auto-depreciação e a compaixão. Eis uma das frases: “O sexo não foi incrível, mas o momento foi lindo”. Há também uma cena inspirada na estética do peep-show, onde se faz referências a estrelas porno do nicho BDSM como Madison Young. E também há outra com a DJ Jamika Ajalon, que Béna conheceu durante a fase de criação da bienal, permitindo-lhe improvisar à frente das câmaras.

As instituições locais têm um lugar central no espetáculo, como o Musée des Beaux-Arts, decisivo para a produção de Punk (2018) de Sonia Boyce. O seu vídeo de cinco canais inclui um projeto colaborativo com os alunos da Academia Europeia de Arte na Bretanha. Gravado dentro do museu, durante um evento noturno aberto ao público, revela as respostas performativas dos alunos às obras de arte do museu. Os acontecimentos resultantes, filmados e compilados por Boyce, proporcionam interpretações sobre aquilo que a performance pode representar para a arte. Vemos um aluno a tocar um tema na guitarra em loop. Um artista rasteja no chão sob uma enorme folha de papel. Todo o cenário despoleta algo sobre o que significa interagir com as obras exibidas em paredes à moda antiga. Ao criar situações cómicas e desconfortáveis num espaço solene, o filme de Boyce desmistifica por completo a experiência do museu.

Além dos muitos e excelentes vídeos em exibição nos diferentes locais da bienal, também abundam as impressionantes pinturas figurativas de Kudzanai-Violet Hwami, nascida no Zimbabué. Os seus temas: corpos negros pintados com base em colagens digitais das suas fotos de família ou na forma de autorretratos retorcidos. A sua execução é ousada e repleta de cor. Por exemplo, The Egg (2016) representa a artista como um fauno, que se olha a si mesma num espelho de mão cor-de-rosa. Parece fazer uma afirmação irreverente e atrevida sobre o género e as escolhas pessoais íntimas. A declaração da Bienal descreve-a como um ato celebrativo da cultura LGBTQI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgéneros, Queers e Intersexuais) e parece festiva, de fato. Os seus trabalhos são apresentados no FRAC e no Halle de la Courrouze. Pessoal e forte, a sua abordagem sintetiza grande parte da bienal, onde a dúvida e a confusão não estão tão presentes quanto o melhoramento e a afirmação pessoais. Positiva e pessoal, apesar de não se afastar dos temas atuais, contribui para uma exposição de grande porte, que pode colocar a Bretanha no circuito de arte internacional.

Para mais informações http://www.lesateliersderennes.fr/

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