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Room with a view

A Galeria Jeanne Bucher Jaeger, apresenta até final de dezembro, em Lisboa, Room with a View, uma exposição de obras do artista Jorge Nesbitt.

As obras expostas na galeria compreendem trabalhos realizados em linogravura sobre papel, a maior parte a preto e branco, e são testemunho do interesse literário que Jorge Nesbitt tem vindo a manifestar, ao longo da sua carreira, pela obra de Gertrude Stein. Da escritora sabe-se que experimentou um compromisso com o cubismo, e no trabalho do artista é visível essa proximidade formal com o movimento e com a obra de Picasso.

As referências a Picasso, na obra de Nesbitt, são numerosas e não cessam de nos lembrar a relação de opostos que se estabelece no plano do quadro. Desenhos de elementos florais surgem posicionados lado a lado, com formas de crânios humanos e de primatas, estes colocados de modo despiciente, uns sobre os outros, como peças de loiça, ou a espreitar, na penumbra, por detrás de aprazíveis jarras de flores vibrantes – alheias à ausência do ser, ao vazio que lembra a máscara de Man Ray, presente na obra A Highly Evolved Descedant of the Helmet.

Os crânios desvendam assim o mais profundo e obscuro receio de “desagregação” e “dissolução” do corpo. Desencadeiam sentimentos de ausência e dor, tal como as “solidões de Picasso”, referidas por Jean Cassou.

Picasso, pela sua natureza espiritual e transformadora, não concebia a ideia de demorar muito tempo na mesma solução criativa. O artista insatisfeito acentuava assim o caráter efémero das obras. Cassou chamava-lhe continuum de destruição e transformação, e Krauss “metamorfose surrealizante”.

Nesbitt oferece-nos, por isso, uma variação de naturezas mortas que jogam com a tensão entre contrários. Vida e thanatos coabitam lado a lado.

Hal Foster, por sua vez, entende o confronto entre os opostos como característica do surrealismo, e descreve o desmembramento e desconexão das partes do corpo como mistura de “prazer, exaltação e medo”.

As obras do artista evidenciam por isso a tentativa em reaver o objeto irremediavelmente perdido, sendo a única condição para o capturar a permanente substituição e repetição do mesmo. Assim, para resgatar o objeto, é preciso “fazer, desfazer, e refazer” a sua imagem.

Nas obras de Nesbitt deixam-se entrever, inefavelmente, os primórdios do cubismo, principiado outrora por Cézanne. Estabelece-se por isso uma interpretação da natureza e não uma cópia da mesma reforçada por contrastes a branco e negro que ressaltam à vista do observador. Opostas ao uso de gradação e modelação, encontram-se manchas de tinta opaca, que modulam a forma numa necessidade sintetizadora. A pintura, segundo Dennis oscila entre a invenção e a imitação. Por vezes o pintor copia, estabelecendo uma tradução direta com as formas da natureza, outras vezes o pintor imagina, ou sente, e por isso, transfigura.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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