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Tadao Ando

Tadao Ando é uma espécie de homem do renascimento, de talentos múltiplos. Arquiteto, ex-boxeur, no Centre Pompidou, mostra-nos também que é um fotógrafo exímio e um hábil desenhador, e que o seu pensamento sobre a arquitetura e o urbanismo são únicos e quase futuristas, apesar da sua idade, e ainda hoje, o cimento que utiliza nas suas obras, liso e suave ao toque, parece ser um segredo bem guardado.

A retrospetiva patente no Centro Pompidou mostra-nos os seus esquissos, os desenhos técnicos ainda à mão (mesmo que sejam feitos pelo seu gabinete), num tempo antes do AutoCAD, as maquetes das obras emblemáticas e de projetos que ficaram por construir e ainda as suas magníficas fotografias de edifícios por si projectados.

As fotografias que faz das suas próprias obras, a preto e branco, são reveladoras daquilo que é particular e genial na sua arquitetura: o contraste de luz e sombra. Ando trabalhou a luz da mesma forma que um diretor de fotografia encena luzes e sombras para um filme (lembramo-nos de Sven Nykvist, diretor de fotografia de Ingmar Bergman ou do contraste dos filmes de Pedro Costa). A sua arquitetura é, aliás, bastante cenográfica. Tadao Ando joga com o meio envolvente, apropria-se do ambiente, da topografia existente, da mesma forma que um escultor se apropria da pedra e a vai esculpindo na forma que imaginou ou que a pedra lhe sugeriu. Se Tadao Ando nos dissesse que falava com a terra e as plantas para que elas lhe sugiram formas, acreditávamos, tal é a interação perfeita que existe em edifícios como a Colina do Buda, a Benesse Oval House em Naoshima, o Museu de arte de Chichu também em Naoshima ou qualquer um dos seus maravilhosos templos religiosos dedicados a qualquer das religiões existentes. A sua sabedoria é infinita até na forma como utiliza a água na sua Church on Water por exemplo. Para o arquiteto, construir para a comunidade é essencial: conhecer a comunidade a que se destina a obra, para que possa suprir as suas necessidades sejam habitacionais ou espirituais.

A retrospetiva abarca um pouco da sua carreira desde o início nos anos 70 até agora, com projetos ainda em construção como a reconversão do edifício da antiga bolsa de comércio de Paris em museu ou até projetos que foram a concurso e, pasme-se, não ganharam.

Na Galeria 3 podemos ver várias maquetes e fotografias dos edifícios, alguns esboços e perspetivas desenhadas por Ando e desenhos técnicos ainda sobre papel vegetal com várias camadas para imprimir a sensação de tridimensionalidade na arte de projetar pré-AutoCAD. Podemos ver plantas, alçados, cortes e maquetes de variados materiais e com diferentes escalas, algumas delas impressionantes só por si. Também os desenhos, alguns com apontamentos de cor, enriquecem a fruição do visitante. Alguns slideshows bastante convencionais das obras acrescentam pouco ao muito que constitui o restante percurso expositivo.

O corpo de obra de Tadao Ando poderia ser facilmente inserido no campo da Land Art, se não se destinasse a funções específicas de vivência humana, tal é a sua relação perfeita com a envolvente. Anne Cauquelin poderia estar a pensar em Tadao Ando quando escreve: “Uma cosmologia implícita estabelece para nós um sistema de perceção baseado nos quatro elementos e onde atuam entre si os sentidos (…). Porém, depende de um trabalho contínuo: transformamos por adição-extensão ou por subtração.”[1]

 

[1] Cauquelin, Anne, A Invenção da Paisagem. Edições 70, Lisboa, 2008, p.110

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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