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Franz West

A História da Arte Contemporânea está ainda a ser escrita. Conseguimos traçar uma linha narrativa até cerca dos anos 70, 80 no máximo, se formos ousados. É quase mais fácil debruçarmo-nos sobre artistas que partilham o nosso quotidiano artístico do que sobre aqueles cujo corpo de obra tem a sua expressão máxima na viragem entre os anos 80 e os 90. É nesta dobra temporal que se situa o pouco conhecido Franz West.

A retrospetiva patente no Centre Pompidou até dia 10 do mês de dezembro, uma colaboração entre o Centre Pompidou e a Tate Modern, estará em Londres entre fevereiro e maio de 2019, com algumas alterações de obras expostas. Quando entramos no hall da galeria 2 somos esperados por 72 bancos de metal tapados de forma displicente e por tapetes orientais, sem percebermos muito bem que, embora ainda não tenhamos mostrado bilhete, já estamos na obra Auditorium (1992), da qual passamos a fazer parte se nos quisermos sentar (e podemos fazê-lo) nos bancos. Esta exposição extravasa o edifício do Centro Pompidou e vai alojar quatro esculturas concebidas como esculturas de exterior, em diversos locais do Marais como a Bibliothèque Historique de la Ville de Paris ou o Musée National Picasso. São esculturas monumentais em resina epoxi ou alumínio, que nos surpreendem pois estão instaladas nos jardins ou nas entradas destas instituições e podem ser vistas a partir da rua.

West utiliza materiais e objetos de uso quotidiano e intervenciona-os, produzindo esculturas, como as coloridas Sisyphos, que evocam a rocha que Sísifo empurrava continuamente monte acima. Mas a sua eclética obra oscila entre o desenho, a escultura, a pintura e a instalação. Podemos ainda ver, no Centre Pompidou, filmes de outros artistas, como Friedl Kubelka ou Graf Zokan que devem a sua abordagem artística mais radical, como o próprio West ao movimento Acionista Vienense que, nos anos 60 e 70 e ainda no rescaldo do pós-guerra, extremaram as artes performativas até à violência, como forma de rebelião contra o sistema artístico instituído. Estes pequenos filmes retratam West ou a utilização de algumas das suas obras, nomeadamente a série Passstücke (Adaptives): espécie de próteses amovíveis, construídas em diversos materiais como o papier maché ou a resina epóxi. São peças montadas de forma a serem usadas por pessoas e dessa forma apropriadas como parte do corpo humano, como se fossem próteses. Ganham assim, uma expressão que difere de pessoa para pessoa em cada momento, sendo adaptável e tornando o espectador em parte da escultura, numa atitude performativa.

O corpo de obra de Franz West é muito variado e contempla também projetos de posters ou mobiliário que podemos apreciar no Centro Pompidou. Os seus posters têm um carácter muito manual e funcionam quase como pinturas, destoando das manchas gráficas digitais que estamos já habituados a ver. West trabalha os posters da mesma forma que as suas outras obras pictóricas: usando colagens e tinta acrílica ou guache.

Ao vermos a retrospetiva de Franz West no Centre Pompidou, sentimos que esta linha narrativa da História da Arte, tal como E. H. Gombrich a escreveu (e que continua a ser uma belíssima história), deixa de fora com demasiada facilidade artistas menos conhecidos ou movimentos marginais a essa Grande História. Mas se, como nota James Elkins[1], não existe uma linha direta, uma única História da Arte, mas sim um emaranhado de histórias da arte onde cada um de nós pode criar as suas próprias ligações, Franz West estará destacado (já está a ser no Centre Pompidou) numa destas histórias, ao lado da Pop Arte e em paralelo com a história da performance.

 

[1] ELKINS, James, Stories of Art. New York and London, Routledge, 2002

 

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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