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Materiais para fazer a cidade, de Pedro Sequeira

Pedro Sequeira estudou joalharia e mineralogia e isso é visível no seu corpo de obra. As suas peças têm algo da minúcia da joalharia ao mesmo tempo que têm algo também da bruteza (em sentido lato) dos minerais, das pedras, da sua textura.

A exposição patente no Espaço Camões da Livraria Sá da Costa no Chiado, tem essa qualidade de mostrar um trabalho híbrido. Tem ainda a qualidade de trazer para o interior matérias do exterior. Porque é em exterior que pensamos, quando pensamos numa cidade. Porque o interior de uma habitação, pode ser em qualquer lugar. É na abertura ao exterior que ele convoca o urbano, o espaço de habitação e de vivência comum. É, no entanto, num espaço que podia ser uma habitação familiar, que se vê Materiais para fazer a cidade. Mas também não é uma exposição comum, nem está montada de forma comum. São obras singulares as de Pedro Sequeira, neste cruzamento de matérias que se torna o cruzamento de materiais, expostos de formas diversas. Assume-se o prego onde está pendurado o desenho, a mola que o segura, ou o bastidor que nos permite a fruição tridimensional da obra que não sabemos se é um desenho ou é uma escultura em Construções precárias (2018). Mas isso não interessa ao artista e afinal estamos num espaço de uma livraria que é uma casa, que é um espaço expositivo, que inclui escritórios.

Oscar Niemeyer disse numa entrevista, sobre uma obra sua que o importante não são as arcadas, mas sim o espaço entre elas. Também as cidades se fazem de vazio. Em Materiais para fazer a cidade, Pedro Sequeira deixa lugar para o vazio, para que seja preenchido com vivências. Há espaço que se cria de uma obra para a outra, seja pequeno ou grande. É um espaço que faz parte dessa obra ou das duas ou das que fizerem sentido. Séries de desenhos em perfeito relacionamento uns com os outros, como Desenhos para o Gonçalo (2018) funcionam como padrões, quase como um painel de azulejos.

Não há um sentido de acabado neste percurso. Há surpresa e há sempre matéria em movimento, um movimento iniciático. Pedaços de madeira sobrepostos como Objeto para o pé (2018), ou troncos a impedir passagens como em Corte (2018), surpreendem-nos. É preciso ver com o olhar atento, porque é um percurso que se descobre nos pormenores. Há obras de dimensões diversas que trabalham a textura como se fosse um têxtil e materiais antigos como a argila. Há ainda um sentido de ecologia e reaproveitamento, tal como acontece numa cidade. A cidade ideal, que pertence ao futuro, é autossustentável, reaproveitada a partir das ruínas de cidades antigas, porque as que construímos, entretanto, são demasiado perecíveis e desconfortáveis para vivermos. Para Sequeira, a cidade é feita destes escombros de materiais que se encontram e são antigos. Pertencem a Hipácia, a Eutrópia, Despina ou Sofrónia. São as cidades invisíveis de Italo Calvino a que Sequeira foi buscar as pedras, os troncos e os cartões para construir essa ideia de cidade que é só sua, mas da qual nos apropriamos à medida que vemos a exposição. “A quantidade de coisas que se podiam ler num bocadinho de madeira liso e vazio abismava Kublai; e Marco Polo já estava a falar dos bosques de ébano, das jangadas de troncos que desciam os rios, dos cais, das mulheres às janelas…”[1]

Assim é esta Materiais para fazer a cidade: num pedaço de madeira, o mundo deixado à nossa imaginação.

 

(Até 24 de novembro, Praça de Luís de Camões 22, piso 4, Lisboa)

 

[1] Calvino, Italo, As Cidades Invisíveis. Editorial Teorema, Lisboa, 10ª edição, 2006, p.136

Com uma carreira em produção de cinema com mais de 10 anos, Bárbara Valentina tem trabalhado como produtora executiva, produzindo e desenvolvendo vários documentários e filmes de ficção para diversas produtoras entre as quais David & Golias, Terratreme e Leopardo Filmes. Atualmente ocupa o cargo de coordenação de pós-produção na Walla Collective e colabora como diretora de produção e responsável pelo desenvolvimento de projectos na David & Golias, entre outros. É igualmente professora na ETIC, no curso de Cinema e Televisão do HND – Higher National Diploma. Começou a escrever artigos para diferentes revistas em 2002. Escreveu para a revista Media XXI e em 2003 começou a sua colaboração com a revista Umbigo. Além desta, escreveu também para a Time Out Lisboa e é crítica de arte na ArteCapital. Em 2010 terminou a pós-graduação em História da Arte.

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