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Quando somos 2 somos três. Sara Bichão/Manon Harrois.

A dois gera-se um terceiro elemento, a linguagem. Linguagem essa apenas possível a dois. Como um terceiro corpo gerado intencionalmente a dois que unifica os dois primeiros. Falemos de três como uma unidade.

Portanto, quando somos 2 somos três.

É este o título da exposição conjunta de Sara Bichão e Manon Harrois que inaugurou a 11 de Outubro na Fundação Portuguesa das Comunicações.

Em uníssono, as duas artistas geram uma linguagem comum fruto de um magnetismo intenso entre ambas. Apesar do trabalho individual bastante distinto, partilham uma sensibilidade e um fascínio pelo trabalho e pelo processo de trabalho uma da outra, que as faz operar, seja individualmente, seja em conjunto, em função de uma correspondência entre as duas. Uma correspondência de um interior para outro baseada numa forte relação de confiança.

Como se de um membro do corpo se tratasse, o trabalho de Sara Bichão é uma extensão dela própria. Segundo a artista, a sua única disciplina enquanto se estende a outra plataforma que não a do seu corpo, é a de que essa extensão de si se mexa bem. Assim, essa plataforma deverá comportar no seu interior um organismo vivo que respira necessariamente do mesmo modo que ela. O protagonismo está nos órgãos que dão vida a esse organismo. Os órgãos são a matéria que a fascina.

Sara Bichão opera sobre objetos que encontra e lhe suscitam interesse ou que lhe são oferecidos por pessoas próximas e transforma-os conferindo-lhes uma identidade, uma narrativa. Um trabalho livre de discursos, onde ficção e realidade se fundem e artista e objetos criados, coabitam na mesma história. Uma brincadeira natural motivada por uma alegria de fazer fruto de uma excitação interior, quase infantil mas em tudo consciente e de um enorme rigor e seriedade. Ao fazer, determinados bloqueios ou impulsos interiores são exorcizados e portanto compreendidos e consequentemente ultrapassados. O que antes era pesado torna-se leve através de um processo lúdico.

Assim, poder-se-á afirmar que os objetos de Sara Bichão surgem como catalisadores de um interior para uma realidade exterior e que pelo seu pendor emocional, são fundamentais nas relações que a artista estabelece com os outros e com o mundo que a rodeia. Daí o seu sentido plural, social e até político.

Sara Bichão desenvolve um trabalho visceral, movido por um instinto quase primitivo. Por sua vez, Manon Harrois interessa-se por questões arquitectónicas, estando o seu trabalho intimamente relacionado com o espaço e com a sua relação com a obra e com o observador, com o modo como o observador se movimenta no espaço quando confrontado com cada peça. Desenvolve um trabalho de escultura, performativo associado a um nomadismo, onde estão implícitas noções de tempo, repetição e contexto.

O movimento, que caracteriza o trabalho da artista, encontra raízes na dança “contact improvisation” levada a cabo no início dos anos 70 pelo coreógrafo americano Steve Paxton. Este tipo de dança improvisada explora a relação de um corpo em contacto com outro corpo, a partilha do peso, o toque e a consciência do movimento. Um balanço físico que cria uma harmonia entre corpos e espaço e que encontra bases nas artes marciais.

Manon Harrois interessa-se por esse balanço entre dois corpos que origina uma dança, uma longa história improvisada que remete para o método surrealista cadavre-exquis que subvertia o discurso literário convencional. É assim que a artista interpreta uma colaboração, como um desafio de lidar constantemente com novas direções induzidas por uma segunda pessoa, com uma nova capacidade de viver em conjunto e de definição pessoal e individual perante o confronto ou a fusão com o outro.

Em Quando somos 2 somos três, estão reunidas peças de autoria individual e colectiva das duas artistas sendo que todas remetem para a correspondência entre ambas. A individualidade tem ressonâncias na sua colaboração.

A troca de objetos, materiais e opiniões tornou-se uma constante necessária nas duas práticas artísticas, algo que se tem vindo a desenvolver ao longo de já cerca de 4 anos de partilha. Sara Bichão refere a grandeza da responsabilidade ao trabalhar ou usar qualquer elemento que lhe é oferecido por Manon Harrois. Por sua vez, Manon Harrois enfatiza a importância de uma partilha constante durante o processo de trabalho, quer individual, quer em conjunto, ainda que muitas vezes essa partilha seja feita à distância.

Está presente no trabalho de ambas uma ideia de perenidade dos materiais, na sua grande maioria orgânicos, destrutíveis (um dente, um barrote de madeira, um osso ou mesmo areia), através de uma ação de cuidar e consequentemente de preservar. O látex, utilizado por Manon Harrois permite copiar e manter formas que mais tarde ou mais cedo irão desaparecer, perpetuando a sua memória. Sara Bichão utiliza a cera como uma espécie de material mediador e protetor entre o objeto e o público.

O modo como as peças estão dispostas no espaço da galeria confere-lhe uma topografia que conduz o movimento do público e motiva uma coreografia específica do olhar. Há obras colocadas no chão, nas paredes e outras penduradas no tecto. Estabelecem-se relações mais ou menos diretas entre elas e com as pessoas. É impresso um ritmo, quase musical no modo como as peças são distribuídas, apresentando-se como pistas umas para as outras e mapeando o espaço através do diálogo que estabelecem.

Os títulos das obras, que muitas vezes têm tempos diferentes dos da sua produção, são, na sua grande maioria, resultado de conversas entre as duas artistas e conferem uma identidade e um contexto a cada peça. Assim, cada obra surge como uma personagem que interage com as outras descrevendo uma narrativa, contando uma história.

A influência mútua presente em ambos os trabalhos fruto de uma proximidade muito forte confere um sentido íntimo à relação entre as duas e as peças. A relação direta entre elas e os materiais, a história dos materiais e a história das obras é a essência desta exposição conjunta. Quando somos 2 somos três, de Sara Bichão e Manon Harrois, poderá ser vista até 17 de Novembro na Fundação Portuguesa das Comunicações.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquitecta, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o Mestrado Integrado em Arquitectura na FA-UL em 2011, frequentou a TUe na Holanda e efectuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com os ateliers suíços Bureau A (Leopold Banchini e Daniel Zamarbide) e Bureau (Daniel Zamarbide) onde desenvolveu uma prática entre a Arte e a Arquitectura, entre Portugal e a Suíça. Actualmente dedica-se exclusivamente a projectos de sua autoria ou em co-autoria com outros arquitectos e artistas. Recentemente iniciou a sua prática curatorial, após concluir a Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UL.

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