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Ágora Club. Fórum do Futuro.

Como Georges Didi-Huberman compreendeu, o presente contém, em si, parte do passado e estabelece uma relação com o futuro. Reconhecer esse cruzamento e aplicá-lo analiticamente possibilita uma maior clarividência em relação à atualidade, nos mais diversos níveis. Ora, é mediante a perspectiva de resgatar casos, obras, objetos anteriores através de novas interpretações, inserindo-os no agora, que se demonstra como nada se relaciona apenas com o contexto onde nasce e tudo pode reemergir num outro momento. Trata-se, no fundo, de rejeitar a ideia de um tempo diacrónico e, assim, melhor habitar o presente.

Nesse sentido, em 2018, o Fórum do Futuro remete para a Antiguidade Grega, refletindo a sua ainda recorrente e forte manifestação na cultura contemporânea. Este é, precisamente, o ponto de partida proposto para profundamente se incidir sobre o hoje. E porque os cânones da antiga Grécia ainda se revelam dominantes e determinantes do mundo Ocidental, mantendo-se enquanto modelos imperecíveis, podem ser encarados enquanto mitos (lendas, narrativas) que ressurgem, em tempos históricos distintos, principalmente na ética e na estética. Paralelamente, há uma aproximação entre a arte e a ciência, áreas enraizadas na esfera cultural, em permanente relação, desenvolvimento e progresso, encontrando-se, ainda, ecos de tais reminiscências nas esferas social, política e económica.

Assim, e sendo o Fórum do Futuro um ciclo de pensamento, reflexão e discussão de temas de importância e relevância atuais, o painel de intervenções e participações nas várias sessões (conferências, vídeos e performances) foi projetado para se apresentar amplo e diversificado, abrangendo as mais diversas áreas de ação, investigação, artes e, até, do quotidiano. De acordo com isso, no programa deste ano, contam-se 52 convidados provenientes de múltiplas áreas e contextos, somando naturalidades de 17 países. Constitui-se, deste modo, um grupo heterogéneo que, até certo ponto, representa o tão plural universo contemporâneo. Dos moderadores podem referir-se alguns nomes nacionais tais como Eduarda Neves, Delfim Sardo, Nuno Crespo ou Ricardo Nicolau, que detêm um lugar importante na cena cultural portuguesa.

Ao longo do cronograma, de uma intensa semana, destacam-se personalidades absolutamente relevantes tanto da arte, caso de Christian Boltanski (1944, França) e Martin Crimp (1956, Reino Unido), da filosofia e da sociologia, exemplo de Maurizio Lazzarato (1955, Itália), ou, mais recentes mas já marcantes na nossa atualidade, Astra Taylor (1979, Canadá) e Nadya Tolokonnikova (1989, Rússia) da banda punk ativista Pussy Riot. Foi com esta última que se constituiu o terceiro ato da sessão de abertura, no palco principal do Teatro Municipal do Porto, no passado domingo. A porta-voz do grupo russo de mulheres protestantes referiu várias ações de ativismo e procurou justificar porque defende a aplicação de uma filosofia prática como resposta às atuais circunstâncias sociopolíticas e culturais. Apelou à transformação, ao dinamismo e, acima de tudo, à ação enquanto reação, compreendendo-a como a mais eficaz forma de lutar pela mudança no mundo.

Numa colaboração entre a Câmara Municipal do Porto, o Teatro Rivoli, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, o Cinema Trindade e a Mala Voadora, instala-se Ágora Club. Apesar de transposta para o séc. XXI e compreendida sob uma lógica contemporânea, Ágora simboliza ainda o mesmo que em Atenas ou, mais tarde, precisamente enquanto Fórum, em Roma. Ou seja, a ação e a palavra (praxis e lexis). Por conseguinte, este projeto na cidade do Porto recria um espaço público de encontro, discussão, partilha e de “negociação de identidades, ideias, práticas e linguagens”, como se refere no texto que o divulga. Esta é a quinta edição do Fórum do Futuro e decorre de até 10 de novembro.

 

Constança Babo (Porto, 1992) é licenciada em Fotografia pela Escola Superior Artística do Porto e Mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Conta já com um relevante número de textos críticos, maioritariamente publicados na revista online ArteCapital, desde 2015 até ao presente, com alguns textos de folhas de sala relativas a exposições em galerias, assim como com a produção de press releases. A par do trabalho de escrita, dedica-se, igualmente, ao trabalho fotográfico de exposições e eventos de arte. 

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