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Summer of 84: Terror ao melhor estilo dos 80s, com referências punk-rock

1984 foi um grande ano para os filmes de terror. Não só marcou o nascimento da saga Pesadelo Em Elm Street como também recebeu um novo capítulo de Sexta-Feira 13 ou o primeiro Gremlins.

E se os anos 80 já há muito que tinham regressado à música, eventualmente também teriam de chegar ao cinema. A cena é que, ao contrário da música que foi buscar tudo o que de mais piroso habitava no esquizofrénico universo dos 80s onde spandex se misturava com sintetizadores, o cinema soube ir buscar as melhores referências e aproveitar o estilo dos derrotados ao invés do Hit Parade.

Tal como em Stranger Things ou It, isso é notório na ganga que, ao invés de ser daquele azul coçado a raiar o branco, é tão escura que é quase negra. Vê-se também quando as referências musicais não são os new romantics ou a new wave mas os D.O.A., a fanzine-tornada-editora Touch’n’Go e a presença dos icons do hardcore Ian Mackaye e Henry Rollins. Isto além dos Bad Religion e dos Ramones, que tomam o lugar das habituais referências dos filmes da época como os Duran Duran ou a Cindy Lauper. Além de tudo isto, Summer of 84 vai beber às fontes cinematográficas certas, desde kids movies como Stand By Me de Stephen King, os Goonies de Steven Spielberg até Fright Night com assumida devoção pelo ambiente e banda sonora do universo John Carpenter.

Apesar, desde lado de Scream, ter havido algumas incursões esporádicas pela retromania 80s nos últimos anos – sobretudo no universo dos filmes slasher – a tendência foi verdadeiramente inaugurada com sucesso pela já referida série Stranger Things, ditando logo à cabeça regras como a presença das bicicletas banco-de-banana, a ganga ou toda a estética ilustrativa dos posters a que Summer of 84 felizmente não se esquiva. Entre Scream e Summer of 84 ainda tivemos alguns casos bem-sucedidos de inspiração em 80, como The Babysitter, Better Watch Out e Turbo Kid, este último dos mesmos realizadores. Contrariamente a Turbo Kid, Summer of 84 foi bastante criticado por falta de criatividade no argumento e incapacidade das personagens despertarem empatia, mas a verdade é que muito dessas críticas derivam da mentalidade politicamente correta dos seus autores. Isto porque, nos dias de hoje provavelmente não encaixa bem ver um bando de adolescentes a aproveitarem qualquer pretexto para mandar bocas sobre ter sexo com as mães uns dos outros, mas o facto é que era assim que as coisas eram e provavelmente ainda são.

Este bando de putos é divertido e cativante e a sua amizade é tão enternecedora quanto as recordações das nossas amizades de infância. Se a história não prima pela originalidade, posicionando-se como herdeira espiritual de “Janela Indiscreta” de Alfred Hitchcock, não sofre apesar disso dos seus clichés nem do automatismo narrativo que daí poderia advir, muito porque o ambiente de Summer of 84 pesa tanto na sua visualização quanto o seu argumento. A questão de saber se o vizinho é culpado ou não, apesar de ser o leitmotif principal, é secundária face a tudo o resto que o filme oferece, desde as referências até à banda sonora, ao ambiente e à viagem nostálgica pela era. Claro que poderíamos acusar Summer of 84 de predar as nossas recordações da juventude, aproveitando-se disso para nos seduzir. Mas a ser verdade, haverá alguma coisa errada nisso?

Hugo Filipe Lopes escreve, umas vezes à paisana, outras sai do armário. Há dias em que é copy, noutros é autor e em alguns consegue ser ambas. Gosta mais de escrever sobre as coisas que adora ou então sobre assuntos dos quais nada sabe. Se não lhe pedirem para escrever, escreve na mesma no bloco preto que leva para todo o lado. Escreve porque não sabe desenhar e porque é sai mais barato do que fazer filmes ou tirar fotografias e também porque é mais fácil. Mas às vezes é a coisa mais difícil do mundo.

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