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Can de portões escancarados

Por estes dias são poucos os segredos que a música ainda tem para descobrir no seu passado. Os Can já foram um desses segredos, a quem era bastante difícil aceder na era pré-banda larga. Hoje em dia, depois de louvados por deuses do Indie moderno como James Murphy dos LCD Soundsystem ou Geoff Barrow dos Portishead, os Can são uma banda quase tão citada como Brian Eno, sobre quem exerceram influência direta, ou os Velvet Underground que sofreram influências de música avant-garde idênticas.

Essas influências foram a prole natural do grande mestre Karlhein Stockhausen, nomeadamente Terry Riley e Steve Reich, também eles adeptos do minimalismo ainda que de formas diferentes. Foram sobretudo essas duas figuras que, como conta Irmin Schmidt, serviram de mote para, no regresso de Nova Iorque para a Alemanha, o teclista fundasse a banda. All gates open: The story of Can é essencialmente a história da sua banda, contada pela perspetiva pessoal do fundador e compositor Schmidt e pela pena de Rob Young, antigo editor da Wire. Ao contrário dos discos da banda, que mesmo nas bandas sonoras quase pornográficas encontravam na exploração e devaneio justificação para uma duração mais longa que o normal, na biografia da banda, a duração parece excessiva. Isto acontece sobretudo porque parte dos relatos são derivados dos testemunhos dos músicos que foram influenciados pelos Can. E é uma pena que uma banda que sempre fez o seu próprio caminho se coloque na situação de procurar validação pelos seguidores, mas essa é uma prática cada vez mais corrente na tentativa de capitalizar os fãs mais novos das bandas das gerações seguintes.

Depois, há também a questão de o livro ser um escravo do cerebralismo, apresentando uma perspetiva frequentemente demasiado racional dos acontecimentos. Por mais que os Can tenham as raízes no Avant-garde, foram encarados como uma banda de rock que influenciou várias gerações de músicos rock depois deles. E tanto como da música, o rock vive das suas histórias. Considerando que o vocalista original da banda, Malcolm Mooney sofreu um esgotamento e foi aconselhado pelo médico a afastar-se da música caótica da sua banda, há pelo menos uma história que merece ser explorada. Tão interessante como isso é também a entrada na banda do japonês Damo Suzuki, que mal sabia música e basicamente se recusava a escrever as letras, preferindo improvisá-las. Por entre tudo isso, ficamos a conhecer as nóias tanto dos membros da banda como as do reino protecionista da própria música de Stockhausen pelo meio de vislumbres da Alemanha Nazi. Do mesmo modo que a música dos Can não é estruturada de forma ortodoxa, All gates open também o não é, mas fica aquém de nos tocar tanto como os discos da banda. E nem sequer estamos a falar de Tago Mago. No fim, isso acaba por desapontar mais do que qualquer outra coisa do livro.

Hugo Filipe Lopes escreve, umas vezes à paisana, outras sai do armário. Há dias em que é copy, noutros é autor e em alguns consegue ser ambas. Gosta mais de escrever sobre as coisas que adora ou então sobre assuntos dos quais nada sabe. Se não lhe pedirem para escrever, escreve na mesma no bloco preto que leva para todo o lado. Escreve porque não sabe desenhar e porque é sai mais barato do que fazer filmes ou tirar fotografias e também porque é mais fácil. Mas às vezes é a coisa mais difícil do mundo.

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