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Música para degolações e decapitações

Os HHY & The Macumbas não têm um nome fácil de dizer e menos ainda de decorar. Nem em português, nem em inglês. É um nome esquisito e a música não é menos. Ainda bem, porque de música civilizada, de colarinho branco, para servir de banda sonora a emborcar uns copos, estamos nós fartos. Aliás, se havia algo que emprestava à música aquele sentimento de pertencer às ruas e estar sempre onde a ação acontecia, era o ser raçudo. E raça não falta às malhas dos HHY & the Macumbas. Música a sério não tem medo de sujar as mãos, de se manifestar ideologicamente, de experimentar e, acima tudo, de se libertar de amarras de géneros. E por mais abanões que bandas como os Godspeed You Black Emperor ou John Zorn tenham dado à música instrumental balofa, a barraca abana mas não cai. Mas pelo menos lembrou-nos que música também é miscigenação, algo que muitos puristas apelidam de bastardização.

E se não fosse o perigo de ser mal interpretado, diria que os HHY & The Macumbas são uns bastardos do caraças, porque felizmente se estão nas tintas para o que pertence a um género e o que pertence a outro. Logo para começar, libertaram-se completamente dos preconceitos de estilo e dizer que praticam fusão de géneros é uma forte subvalorização, pois uma orgia esotérica seria o termo mais correto. Com os HHY & The Macumbas é caso para dizer que as fronteiras são mesmo uma invenção do homem porque eles vão a todo o lado. E todo o lado é tanto dar uns bafos no dub jamaicano, como beber uma energy drink com eletrónica experimental ou sacar uns acordes de hipnotismo rock em ácido. Em sentido figurado, obviamente, pelo menos tanto quanto se sabe.

Para quem a ideia de música é aquela cena que a maioria das bandas faz hoje em dia, com uns acordes bem aprumados sobre uma secção rítmica domesticada para bater o pezinho, esqueçam, porque esta malta é do género de arrastar o ouvinte sem dó nem piedade por terras muito pouco exploradas sem o mínimo aviso. Se por ventura fossem de se acompanhar, fala-se por aí de Sun Ra, mas a verdade é que Sun Ra é basicamente a referência charneira para OVNIS como este e de que todos se socorrem quando não têm mais nenhuma à mão. Provavelmente os The Thing estariam mais próximos dos HHY & The Macumbas, mas definitivamente, mais do que musical, esta é uma banda cinematográfica e literária nas suas influências. E pensada para os palcos, nos quais o líder Jonathan Uliel Saldanha lidera uma formação variável que tanto pode ser um quinteto como um deceto. Esse mesmo Jonathan que é parte do coletivo musical SOOPA que já colaborou tanto com o José Cid como com Adolfo Luxúria Canibal e da editora Silo Rumor, onde os HHY & The Macumbas editaram o primeiro longa duração: Throat Permition Cut, título que revela muito do que se pode esperar do disco.

Ainda durante o mês de setembro, sairá o novo Beheaded Totem – com um nome que nada fica a dever ao anterior – desta vez pela House of Mythology, editora responsável por cenas tão ou mais maradas como os Ulver e os Zu. Fritaria é que é preciso.

Hugo Filipe Lopes escreve, umas vezes à paisana, outras sai do armário. Há dias em que é copy, noutros é autor e em alguns consegue ser ambas. Gosta mais de escrever sobre as coisas que adora ou então sobre assuntos dos quais nada sabe. Se não lhe pedirem para escrever, escreve na mesma no bloco preto que leva para todo o lado. Escreve porque não sabe desenhar e porque é sai mais barato do que fazer filmes ou tirar fotografias e também porque é mais fácil. Mas às vezes é a coisa mais difícil do mundo.

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