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▉▉▉▉, logo existo

Fodo, logo existo.

Não é amor. Não é sexo. Nem sequer cópula. É foda. Simplesmente, verdadeiramente.

A afirmação da existência pela foda é a confirmação do argumento biológico – algo que as culturas ocidentais têm vindo a subtrair à vida, ao quotidiano, à própria existência e, se quisermos ir mais longe, à política. A entrega aos sentidos, aos desejos e vontades hormonais, ao esvaziamento no corpo alheio é a constatação de uma verdade animal que teimamos, por idealismo ou conservadorismos, sonegar à Natureza. Temos mais de dionisíaco do que de apolíneo: a tragédia maior do ser humano.

Uma biografia, um diário escrito, tem fundamento social quando a realidade que encerra é verificável num espetro mais alargado, quando outros nela se reconhecem. Aí, o testemunho individual passa a testemunho coletivo, salvas as particularidades descritas. O livro The Orton Diaries, de Joe Orton, é uma minuciosa descrição de uma relação gay, na qual muitos se identificaram ou identificam. Do mesmo modo, a exposição OH FUCK YEAH, de Colin Ginks, baseada em parte neste documento e na vida do artista, é uma extensão e exploração desse testemunho, uma atualização depois de inúmeras lutas travadas com a política, com os bons-costumes, com a sociedade e com os limites do próprio corpo e da medicina. A entrega aos prazeres do corpo, da foda anónima e da carne amassada com sofreguidão e partilhada por dois, três, nove outros corpos são aqui explorados com total entrega, sem preconceitos nem pudores. Afinal, na foda não moral: há fluidos, simbioses hormonais, há força, músculos retesados, movimentos sincopados até ao orgasmo final. E na foda não há amor, só desejo.

De facto, em OH FUCK YEAH, Ginks não fala de amor. Pelo menos explicitamente. Fala do corpo no seu elemento mais primitivo em termos emocionais, a percorrer o duro e áspero caminho da ansiedade e do tempo. Da carne que envelhece, do medo do vazio e do que está para acontecer, da doença, do instinto de vontade total antes do fim, da plenitude pela foda.

Sim, há uma cultura gay e há fenómenos que só conseguem ser explicados quando o compreendermos. Mas essa cultura comportamental não deve escusar-se a uma crítica por parte dos que a compõem. Aliás, a exposição e o artista sublinham-no ao invocar certas práticas. Cruising: fodas anónimas no meio do mato, por entre arbustos, atrás das parcas ervas altas nas dunas de uma praia pouco vigilada e populosa; pouco se fala e a verbalização é onomatopaica, vocalizações de prazer ou dor, ou as duas coisas ao mesmo tempo; a ação é fortuita, rápida, instantaneamente gratificante, sôfrega – não importa se o outro gosta ou tem prazer; acaba naquela jactância masculina que todos reconhecem, mas aqui talvez apimentada de estimulantes e narcóticos. Ginks rouba à cidade e às periferias a terra inseminada por inumeráveis e inenarráveis cruisings. Servem as árvores do Estádio do Jamor de vigilantes atentos, mas desinteressados, aos encontros que lá se estabeleceram. Não há relações. Há contactos. Bareback: a foda sem preservativo – full contact; inserções a pares ou a múltiplos, sempre sem proteção – a SIDA é coisa do passado e já não é condição de morte e de culpa; livres dos limites da doença castigadora, os corpos dão-se sem quaisquer barreiras, sem o incómodo de uma fina camada de látex a envolver o pénis e a enrolar-se nas cavidades anais.

E o glossário continua: dark rooms, Grinder, bears, twinks, daddys, Drag Queens, etc.

Mas, a meio das páginas desenhadas e escritas pelo artista para esta exposição, editadas em formato de caderno e expostas num canto recôndito da galeria A Montanha, o artista questiona-se, ao mesmo tempo que introduz uma nova palavra no vernáculo LGBT+: “will I cry the ache of the brothers lost when I go on PReP?” PReP é um novo medicamento que interrompe a transmissão do HIV com uma eficácia superlativa. Uma revolução da medicina e um passo em direção, segundo alguns cientistas, à erradicação do vírus. A realidade, contudo, é bem mais angulosa, e as estirpes virais tendem a contornar as armas humanas. Mas que é um feito, isso é inegável.

Todavia, a questão esconde uma sombra por detrás do jargão médico-científico, pois que o PReP é meio caminho ao sexo sem proteção. O preservativo era condição sine qua non do relacionamento gay, da foda, a medida que durante décadas foi aconselhada pela comunidade científica aos homossexuais para se protegerem da SIDA. Tempos houve, na década de 80 e inícios da de 90, que a foda era indissociável do medo de ser infetado. Ainda pouco se sabia sobre a mesma. A foda era o medo e a rememoração dos que pereceram perante a doença, de faces carcomidas, de corpos pejados de pontos negros e violáceos, artistas no seu momento áureo que tinham tanto para nos dar. Com o PReP, perde-se o medo e perde-se a memória daqueles que se esgotaram tão cedo, com mais para viver para além dos quartos escuros, das pistas de dança, dos parques ajardinados, dos encontros clandestinos. Em tempos de SIDA, foder sem preservativo era entregar-se a um desejo de autoaniquilação. Mas foder não é isso?

A instalação que Colin Ginks concebeu faz soar uma série de gemidos guturais, lentos, que, apesar de retirados de filmes pornográficos, pouco têm de prazer e muito têm de agonia. O olhar histórico diz-nos que a ciência nos tira das trevas, mas também nos cega na agonia da irresponsabilidade que esquece. A obra é irreproduzível em fotografia. Os cheiros da curcuma e da terra não são fotografáveis. E os ecos desta banda sonora tão bizarra e confrangedora também não. O corpo tem que estar presente porque aqui está muito mais que um testemunho individual e biografável – está-se perante um questionar de toda uma história de uma comunidade que se ergueu olimpicamente da marginália para o texto global das civilizações, no que isso tem de perda, de assimilação, de fusão e de radical diferenciação.

E não é em vão que The Orton Diaries se exponha sob um plinto. Os velhos dispositivos da glorificação, por vezes, ainda são os mais sinceros. Deste modo, é impossível dissociar esta exposição de um monumento – aos que pereceram pela SIDA, aos que não chegaram a amar, aos que foderam incansavelmente, insaciavelmente, até à morte.

A exposição faz, então, o caminho da biologia à crítica social e cultural, de Dionísio a Apolo, num ciclo inelutável, perpetuamente recursivo, sem fim. Compulsivo como a foda, inevitável como o sentimento e a razão.

Fodo, logo desisto.

(Até 4 de novembro, na galeria A Montanha.)

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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