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Penumbra: sombra texturada, luz colorida, de Rashid Al Khalifa, na Saatchi Gallery

A exposição Penumbra: sombra texturada, luz colorida com curadoria de Eva MacGraw e Tatiana Palinkasev estreou no dia 3 de outubro na Saatchi Gallery, Londres, e apresenta o mais recente trabalho tridimensional do artista do Bahrain Rashid Al Khalifa.

Sobre superfícies de alumínio pintadas, o artista cria pequenas aberturas, mostrando o que está por trás delas, algo por norma oculto. As malhas feitas do mesmo material criam efeitos de luz e sombras que exploram alterações na experiência espacial, dependendo da posição do espetador.

 

Desde o início de 2000, sensivelmente, começou a desafiar as vertentes bidimensionais da pintura, do suporte da pintura. Esta exposição reúne novos trabalhos tridimensionais que resultam de uma aposta na experimentação, a qual provavelmente teve início nas suas telas convexas. De que forma o seu interesse em criar espaço influenciou a técnica e o suporte usados ​​nas suas peças?

Como disse e bem, comecei a usar a partir de 2000 um suporte convexo para pintar. Comecei com um suporte de madeira e fiz várias pinturas nele. Sempre gostei da forma convexa e, a dada altura, queria tentar emular isso com materiais diferentes. Pensei que o alumínio seria uma boa hipótese, já que é flexível e a luz pode ser refletida nele, dando a sensação de movimento.

Obviamente não é possível usar tinta normal no alumínio, mas sim tinta de esmalte cuja aplicação é totalmente distinta do óleo normalmente usado sobre tela. Quando utilizo esse material, o trabalho obedece a algumas orientações específicas, a um determinado processo de execução. Assim, precisamos de aplicar o primer, depois a primeira camada e segunda camadas, a fim de torná-la verdadeiramente resistente perante condições exteriores (clima, etc.). É preciso entendermos essas condições. Além disso, é um material extremamente flexível, pois a superfície de alumínio permite múltiplas possibilidades. Podemos ter diferentes camadas e criar aberturas, pequenos furos com formas distintas, possibilitando uma interação entre as superfícies sobrepostas.

Esta exposição parece estar particularmente relacionada com os aspetos técnicos mais recentes do trabalho que acabou de descrever. Em relação ao título, Penumbra: sombra texturada, luz colorida, o que está por trás da técnica e suporte adotados, do ponto de vista concetual?

A primeira questão suscitada pela preparação desta exibição foi a seguinte: o que devo exibir? Devo expor alguns trabalhos que fiz anteriormente ou devo fazer novos para serem exibidos? Foi aí que a definição do conceito da exposição começou. O nome e a ideia por detrás estão diretamente relacionados com as peças que produzi para esta exposição. Como ponto de partida para saber o que deveria fazer com esses trabalhos, pensei em duas ideias principais: primeiro, refletir o contemporâneo, segundo, o uso da luz e da sombra.

Em muitas partes do mundo, tal como no seu país em Portugal, no meu ou noutros lugares na Europa, a treliça é utilizada para filtrar a luz, à qual nós chamamos mashrabiya. Mashrabiya é a treliça habitualmente colocada sobre as janelas, nalgumas portas, etc., para filtrar o sol e a luz intensa. Contudo, a partir de dentro podemos ver o lado de fora.

Quando estes dispositivos são colocados sobre as janelas e as divisões se tornam mais escuras, sem luz, e o sol brilha na mashrabiya, a luz entra de forma bastante agradável. Linhas de luz muito ténues entram pelas janelas e invadem o espaço interior. E algumas destas linhas têm cor, para que as luzes coloridas adentrem.

A coluna suspensa é exibida de forma bastante cenográfica devido aos efeitos dramáticos de luz e às sombras criada pela forma como a peça é acesa. Esta peça procura algumas referências nas atmosferas criadas pela mashrabiya?

 A coluna é um mobile e tem de ser erguida para ser um mobile. Para a iluminação desta peça, não queria usar luzes normais, queria que fossem projetadas nela a partir de cima, para que pudessem criar sombras no chão ao passar pela malha de metal. Pretendia usar holofotes em vez de luzes planas para criar essas sombras no chão. Capazes de recordar a luz solar que atravessa a mashrabiya em direção às divisões, ao interior das casas.

E em relação às cores que utilizou nesta peça?

O mobile tem diferentes segmentos, segmentos separados, e adicionei-os em três camadas distintas. A última camada tem uma espessura dupla, uma dupla camada de malha. As cores são particularmente subtis, em tons pastel. Usei cores frias na parte de fora e uma cor quente no interior, o lilás. O lilás é uma cor forte, então queria usá-la na parte menor da peça. Por ser uma cor forte e usada no centro em pequena quantidade, ilumina-se a partir de dentro, como se houvesse uma luz vinda do interior.

Tentei também usar o amarelo nesta parte menor, mas revelou-se demasiado brilhante. Então tirei o amarelo. Havia amarelo, lilás, verde e azul, mas no final resultou melhor sem o amarelo.

Quando penso na penumbra, penso em algo íntimo, algo dentro de uma esfera particular. Quando cria aberturas nas suas superfícies de alumínio, parece querer revelar algo que está por trás, algo oculto. Conte-nos mais sobre essa ideia de Penumbra e o que se encontra atrás dessas aberturas nas superfícies de alumínio.

A penumbra é o momento do dia em que a escuridão da noite desaparece para dar lugar ao raiar do dia. É o amanhecer. É o ponto mais precoce da manhã quando já não está escuro, mas também ainda não há luz. A este período dá-se o nome de penumbra. Porquê? Porque a luz é subtil, sem ser muito forte. Estes são alguns dos meus pensamentos em relação à luz e sombra.

As peças colocadas na parede têm uma forma convexa. As pequenas peças de metal com diferentes tamanhos colocadas sobre as aberturas na superfície de alumínio dão-lhe uma espécie de aparência tridimensional. O espetador tem de se aproximar dessas peças e ir para a esquerda ou para a direita, a fim de compreendê-las e apreciá-las. As duas maiores peças de parede, com 4,50m por 1,50m, têm uma parte central côncava, que se vira para dentro, ao contrário das superfícies convexas que a rodeiam. Isto permite induzir um movimento no espetador para que ele ou ela possa compreender, ver e apreciar toda a peça, vendo-a exatamente como ela se parece.

Leva em conta estas pinturas de parede em relação às outras peças exibidas?

São pinturas esculturais. Não são pinturas de acordo com o paradigma que todos assumimos à partida, mas têm um efeito mais escultural, tridimensional.

O labirinto é uma grande estrutura que cria uma espécie de urbanismo dentro do espaço da galeria, é um espaço dentro de um espaço. Encontra conexões diretas com aspetos arquitetónicos. Gostaria de nos contar mais sobre essas relações arquitetónicas e atmosferas criadas?

O labirinto tem implícita a mesma ideia de criar uma atmosfera mashrabiya. Queria que as pessoas vivenciassem o sentimento criado pela mashrabiya, não apenas através de um mobile ou através de peças na parede, mas de alguma estrutura com a qual pudessem interagir. Ter um amplo espaço de exposição na Saatchi Gallery deu-me a ideia de criar uma peça de grande porte. Queria algo grande naquela sala. Visualizei esta peça não apenas como algo que diz respeito ao ambiente mashrabiya, mas também como estrutura interativa que recria pequenas ruas estreitas em velhas cidades medievais, nas quais o espetador pode caminhar. As paredes não são sólidas, são feitas de uma malha. Podemos ver o espaço ao lado de onde nos encontramos, mas não nitidamente. Do lado de fora do labirinto, usei apenas uma cor e, nas paredes internas, usei cores diferentes. À entrada, podemos ter a ideia de que algumas das paredes e ruas estreitas têm cores e tons diferentes.

 Já pensou em voltar à pintura bidimensional?

 Sim!

 

Atmosferas de luz colorida e atmosferas de sombras podem ser experienciadas em Penumbra: sombra texturada, luz colorida de Rashid Al Khalifa, na Galeria Saatchi, em Londres, até o dia 19 de novembro.

Rússia e Geórgia serão os próximos destinos destas peças imersivas.

Joana Duarte (Lisboa, 1988), arquitecta, vive e trabalha em Lisboa. Concluiu o Mestrado Integrado em Arquitectura na FA-UL em 2011, frequentou a TUe na Holanda e efectuou o estágio profissional em Xangai, China. Colaborou com os ateliers suíços Bureau A (Leopold Banchini e Daniel Zamarbide) e Bureau (Daniel Zamarbide) onde desenvolveu uma prática entre a Arte e a Arquitectura, entre Portugal e a Suíça. Actualmente dedica-se exclusivamente a projectos de sua autoria ou em co-autoria com outros arquitectos e artistas. Recentemente iniciou a sua prática curatorial, após concluir a Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UL.

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