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Menina, um conto de Konstantin Arnold

Lisboa, 15.02.2018

Maria Terreira tem as mãos macias e um nariz que se assemelha a uma rampa de esqui rumo ao amor. Maria Terreira fala pouco inglês e reside num edifício pesado de gesso novo, que parece velho ao lado da animada rua principal. O chão do seu apartamento está coberto com frios azulejos, e sobre o papel de parede amarelo penduram-se quadros baratos cuja aleatoriedade oferece um pouco de criatividade à sua vida de relógio suíço – mostrando que existe algo mais. Quando as amigas aparecem às sextas-feiras, é provável que todas acabem a pôr batom na casa de banho de Maria Terreira e a fumar na sua sala de estar porque, após a segunda garrafa de Moscatel, ela já teve quanto baste da sua vida ordeira. Maria Terreira não consegue desfazer-se de objetos que lhe foram dados antes da virada do milénio. As suas divisões preenchem-se com móveis pesados de vidas passadas, tornando o seu pequeno apartamento ainda mais pequeno, evitando que Maria consiga fugir casualmente de tudo para começar noutro lugar novo, sem a pesada construção e os azulejos frios sobrecarregando os seus pensamentos. A escuridão e a decoração ditam as regras, por vezes assustando-a, quais experiências que nada alteram. Que não levam a lugar algum e não têm qualquer finalidade plausível. Através das quais não nos tornamos nem maduros nem mais fortes, e apenas revelam a sua fatalidade imaginária no final, fazendo-nos sentir significantes. Maria Terreira gosta de deixar espaço para o acaso, pois ama tudo o que sente estar para além da sua área de responsabilidade. Tudo o que fuja ao seu controlo. Homens, estações do ano e a última blusa que lhe serve na perfeição.

No inverno, chove através dos telhados de Lisboa, e podemos seguir a nossa própria respiração da cama até à eternidade. Precisamos de nos agasalhar mais dentro do que fora, e tentar escrever sem perder a ponta dos dedos até que a maldita frieza cesse – que não é frio realmente, mas mostra-se mais frio através dos azulejos frios, do gesso jovem, das paredes amarelas e das pinturas baratas. Então é finalmente verão! E fica tão quente que Maria Terreira apenas pode sair do apartamento à tarde para ir de um lugar para o outro sem transpirar. No seu caminho, Maria Terreira anda sempre no lado sombrio de uma vida repleta de sol, e à noite, no seu apartamento sem ventilador, abre mão de tudo, enquanto rodopia do seu estômago húmido para as costas ainda secas. Como Maria Terreira passa a maior parte do tempo ao ar livre, a maioria dos apartamentos portugueses assemelham-se entre si nos seus interiores modestos e distinguem nos seus vãos exteriores. Maria Terreira senta-se habitualmente em pequenas praças que são demasiado exíguas para os turistas, e afunda-se nas trivialidades menosprezadas das suas próprias impressões. Quando Maria Terreira passa por uma casa vazia, e olha para a sua fachada enrugada até à última varanda, questiona o que terá sido feito, dito e pensado em cada apartamento. E como essas três palavras diferem nas suas verdades entre si. Maria Terreira adora caminhar pela rua nos momentos que precedem os fechos das lojas, podendo então fitar os rostos inundados de liberdade dos lojistas que perseguem uma normalidade, a qual parece tão tediosa e interminável, que a assusta. Maria Terreira sente o mesmo medo quando pensa no Porto e nos estudos de direito financiados pelo pai, ou nas experiências que não alteram coisa alguma. Para se distrair, começa a contar todos os restaurantes pelos quais passa – mas não os estabelecimentos de kebabs, pois Maria Terreira acha que os estabelecimentos de kebab são estúpidos. Desde que se mudou para Lisboa, os amigos que moram na sua cidade natal dizem que Maria Terreira já não é mais a mesma. Considera esse pensamento uma idiotice, porque a velha Maria Terreira era mais jovem e já não quer viver num mundo onde as expetativas colocadas pelo moscatel não existem. Isso sobe a contagem para três verdadeiros amigos e 87 restaurantes – descontando os estabelecimentos de kebabs. E coloca-a numa experiência cuja fatalidade só se revela no final: eu.

Maria Terreira encontrou-me há quatro dias num baile de máscaras. Os portugueses adoram máscaras e bailes, já que, por um preço de admissão de 30 euros, podem renascer das cinzas como uma fénix. Claro, não é assim que encontramos o amor da nossa vida, já que todos têm uma máscara e algo a provar – como na vida real. Lá, na vida real, onde nada impressiona tanto como a beleza, e onde, aos 27 anos, as minhas bolas ainda têm a última palavra sobre o verdadeiro valor de alguém. Lá, onde todos nunca ambicionaram nada a não ser serem amados – mas onde hoje esperam que ainda demore algum tempo até aparece alguém, já que o vazio da nossa existência pode, sob certas condições, ser preenchido com algum tipo de sentido. Tudo pode esperar! Seja com for, portugueses atrasam-se sempre, por culpa do trânsito e do tempo. Afinal, têm boas desculpas que nós não temos na Alemanha. É melhor chegar tarde, com estilo e serenidade do que mesmo em cima da hora e sarapintado de suor. Para o baile de máscaras isso não importava; valia tudo e eu vestia um polo preto. Ao vesti-lo, sinto-me como um ardiloso pugilista da inteligência, um pobre autor de poemas com um abastado património. Mas, na verdade, pareço-mo apenas com um jogador de futebol quando visto o polo preto. Como alguém que não precisa sequer de pensar, já que o pulôver faz isso por mim. De alguma forma é também um disfarce. A sério! Já alguma vez folheou a seção de negócios da Frankfurter Allgemeine num polo preto? Alguma vez cruzou as pernas ao máximo, bebeu vinho tinto de copos grandes, comeu azeitonas e discutiu sobre o valor da moeda com queijo na boca e enfiado num polo preto? Maria Terreira diz que nunca se pode pensar em demasia, mas por favor não o façamos num polo preto! Pelo menos não sem nos rirmos de nós mesmos. Porque quando o equilíbrio e os seus opostos se perdem, as coisas podem tornar-se rapidamente inebriantes em demasia. Perde-se a diversão da aventura, começa-se a escrever sobre gaivotas e árvores, e vivencia-se nada que valha a pena transpor para palavras.

Mas estamos a transmitir em direto do quarto de Maria Terreira, que alberga uma cama grande e amadurecida, capaz de ser montada de três lados. Apesar de todos os móveis, passamos a primeira noite num sofá dobrável desdobrado. Tão apertado que éramos unos, tão apertado que um pedaço de pano (como um polo preto) parecia um relacionamento de longa distância através de uma fraca conexão no Skype com direito a delay. As cuecas eram como uma prisão e as meias como sacos estrangulados, nos quais nada se enraíza. Desse dia em diante, planeámos passar todos os dias juntos, sem deixar que o assunto afundasse em singularidade. Após deduzir dois dias consecutivos de orgulhosa espera, restam apenas mais 20 dias a Maria Terreira e a mim até ela regressar à sua vida antiga. De volta para a sua família, os seus medos e os seus cavalos. Maria Terreira adora cavalos, e eu amo raparigas que adoram cavalos. Antes de ir para a cama depois de uma longa noite, Maria Terreira gosta de comer, de preferência uma bifana, uma simples sanduíche feita de carne e alma portuguesa, que de bom grado partilho antes de me deitar ao seu lado. Maria Terreira ama as madrugadas e eu amo as suas longas manhãs. Ela adora que eu seja alto, e eu que ela seja pequena. Ela sabe as respostas para as minhas perguntas, e apreciamos o lado mau um do outro, e não apenas o bom. A cada dia que passa, sentimos que não somos quem nós julgamos ser. Mas desfrutamo-lo ainda assim, pois os dias finitos oferecem a magia e o encerramento necessários para que não tenhamos de procurá-los. Temos de cumprir o caminho por nós mesmos, tal como fizeram os grandes nomes da história. Pois esta é uma história de locais e das suas ligações. Fragmentos simples que de repente se unem e ampliam o horizonte ao encolherem-se. Tornando-se menos, fazendo com que escolhamos com maior precaução, à medida quem mais vamos vendo deles.

Na manhã da sua partida, Maria Terreira pediu-me para me juntar a ela. Na porta, na estação de comboios, no Porto e no fim da sua vida. Eu também queria querer isso, mas nem cheguei à estação porque o metro passa à frente da casa dela. Maria Terreira foi monossilábica a maior parte do tempo, mas, na sua despedida, disse-me em português que tinha gostado verdadeiramente do tempo comigo (acho eu) e, em inglês, que o meu coração não está cego, mas usa óculos de sol espelhados, que parecem ter estilo, mas estão lá apenas para proteger do eu e do sol. Mas ela não mos conseguiu tirar. Quando a Linha Azul a levou para longe de mim, ficou claro que ela tinha ido embora, tal como desejo com que ela tinha vindo. Senti-me infeliz na minha curta viagem até casa. Quando a porta, que Maria Terreira tinha acabado de abrir, se fechou atrás de mim, não precisei de qualquer um dos meus doze cafés matinas para me sentir vivo. Perguntei-me se desejava ter uma vida dependente de sentimentos demasiado humanos, ou se preferia viver numa liberdade que se sente qual estufa onde idênticos morangos vermelhos brotam. Devo renunciar à minha imaginação em troca da realidade? Com ela, quebrei as regras que tinha especialmente definido para mim mesmo. Com ela, não me interessavam apenas as palavras, mas também as suas raízes. Sem ela, sou escrutinado por pensamentos e emoções que não partilharei com ninguém por causa do meu ego colossal e dos óculos cheios de estilo. Com a Maria Terreira muito menos. Pois sem ela não tenho qualquer hipótese contra as regras que especialmente defini para mim mesmo. Nietzsche ou Sartre disseram que o amor exige que nos entreguemos ao outro para florescer e murchar. Para ficarmos nus e, se isso ainda assim não for suficiente, então é porque simplesmente não fomos atingidos (ele não disse isso!).

Agora, tenho mais saudades da Maria Terreira quando não penso nela. Teria sido uma ótima rapariga se eu não a tivesse comparado com quem eu acreditava que ela fosse. Talvez a melhor que já conheci para lá da minha imaginação fervida a pétala de rosa. Um pastel de nata que na melhor pastelaria da cidade não tem nem metade do sabor daquele que encontramos num café inesperado. Estas coisas às vezes assustam-me, pois Maria Terreira é linda por dentro e por fora. Diferente, com cada uma das suas palavras. A tal, se não houvesse mais ninguém no mundo. Mais do que suficiente, se apenas uma chegasse. Alguém consegue ter tudo isto? É que já tenho um carro partido, um telhado partido e óculos de sol cheios de estilo através dos quais carros partidos e telhados partidos não importam. Tudo é relativo! Tudo tem estilo e é uma questão de reflexão. Enfim, são 11 da noite, então, para Maria Terreira e o seu novo namorado é hora de dormir às segundas-feiras e demasiado cedo para a festa às sextas. Não quero falar muito sobre o novo namorado dela, porque tudo o que diria seria horrível. Mas, na minha imaginação, ele tem a maior pila, o cérebro mais inteligente e conta as piadas mais deliciosas.

Konstantin Arnold (1990) é autor e fotógrafo e escreve peças para jornais (Frankfurter Allgemeine Zeitung) e revistas (Vice, Der Spiegel…) de forma a poder comprar vinho e azeitonas portuguesas. Há mais de uma década que visita Lisboa, para agora finalmente se decidir permanecer aí, depois de anos sem casa a viajar pelo mundo como jornalista. De momento está a trabalhar no novo livro Letters from Lisbon, de onde se retiram as estórias que aqui se publicam. A sua página oficial é www.konstantinarnold.de

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