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COSMO/POLÍTICA #2. Entre a abstração e o realismo, uma hipótese de encontro

Ao proferir a conferência Conflito e Unidade na Arte, Mário Dionísio abria uma cesura na expressão artística vigente dos anos 50. Se até então se julga que a arte, segundo o pensamento comunista e neorrealista, devia abster-se de configurações abstratas e burguesas e que devia subjugar-se a uma linha ideológica que a obrigava a retratar a vida tal como é, propor uma nova visão que aliasse a linguagem abstrata a uma visão política de retrato da sociedade constituía uma pequena revolução. Até então, abstração e realismo eram tidos como elementos mutuamente exclusivos. Anulavam-se.

Negociar a divergência é tarefa árdua. Construir segundo diversos pontos de vista parece muitas vezes inconcebível. Transpor a intransigência partidária e aparelhística e os cismas culturais muitas vezes acoplados requer persistência e paciência – tempo, num tempo sem tempo.

Tal como estabelecido por Isabelle Stengers e Bruno Latour, entende-se aqui cosmopolítica como a dialética necessária para abrir divergências e criar modos de ação capazes de atender a uma pluralidade de opiniões, de sensibilidades, de pessoas, nacionalidades, espécies. Entende-se por cosmopolítica, justamente, a capacidade de construir através dos dissensos. Deste modo, o que Mário Dionísio formulou foi um entendimento cosmopolítico na arte, tão bem retratado na obra À mesa à luz do petróleo (1948). Não há antagonismo: realismo e abstracionismo convivem harmoniosamente. A utilidade narrativa, pedagógica, política, da arte não se vê comprometida com a linguagem e expressão adotadas. Pequenas mudanças, pequenas revoluções, pequenos compromissos.

Instalada no Museu do Neo-Realismo, a exposição COSMO/POLÍTICA #2: Conflito e Unidade vai precisamente ao encontro destes temas que há várias décadas vêm inquietando artistas, historiadores, curadores e, inclusive, diretores de instituições museológicas. Neste contexto, as curadoras Sandra Vieira Jürgens e Paula Loura Batista convidaram os artistas João Ferro Martins, Mafalda Santos e Susana Gaudêncio “a dar sequência a este debate partilhado no tempo e a refletir e problematizar os modos de representação da realidade, a função social da arte, a atualidade da noção de ‘arte útil’ e o acolhimento da arte na sociedade, ou os contínuos encontros e desencontros entre o público e a arte contemporânea”. E pese embora a exposição se esgote fisicamente numa única sala, o certo é que a complexidade e fertilidade dos temas e das obras produzidas ressoam intemporais e assaltam o pensamento bem para lá do respetivo fim.

Susana Gaudêncio subverte os dogmas suprematistas e compõe uma constelação dialética de cartazes, tal como dispostos por Malevitch. As geometrias e as abstrações do suprematismo russo dão lugar a imagens concretas de minerais, figuras e outros elementos reconhecíveis. Contudo, o célebre quadrado preto, ao canto, continua lá.

Por seu lado, Mafalda Santos concebe uma instalação que serve de elemento articulador expositivo e sinaliza a ansiedade e aflição da mudança a haver, barrada por muros e obstáculos vários. Folhas e resmas sucedem-se empilhadas, conformando um muro. Não se sabe se são publicações, fichas, formulários a preencher, procedimentos, ou, então, livros e manuais ideológicos a seguir. As revoluções desejadas – interrompidas pela asfixia burocrática e pelas boas práticas.

É, todavia, João Ferro Martins que estabelece o diálogo mais próximo com o precursor desta mostra, Mário Dionísio, ao conceber uma instalação-ambiente que se expressa a vários níveis e se expõe em frente a Dionísio. Parte mobiliário, parte composição sonora e escultura, Ferro Martins dilui as fronteiras entre a utilidade, ou o uso, e a obra de arte. Ficamos na dúvida de a obra constituir móvel para acondicionamento de copos, se projeto sonoro – ou escultura – pleno de autonomia estética.

Dito isto, não é em vão que na inauguração de COSMO/POLÍTICA #2 o museu tenha dado lugar a sala de concerto de música improvisada. Sem pauta nem ensaio prévio, a música improvisada acontece de forma subjetiva, no ato da performance, numa sincronia e melodia a várias mãos e ouvidos que vão acontecendo. Radicalmente livre, desprovido de qualquer norte ideológico, o improviso estabelece as suas próprias regras numa relação contínua entre os que o promovem e os que assistem. As dimensões críticas deste projeto são, portanto, múltiplas e não dizem respeito apenas arte propriamente dita; também o Museu do Neo-realismo, enquanto espaço institucional e formal, e em nada neutro do ponto de vista político e ideológico, é obrigado a rever-se estrutural e internamente ao acolher tal informalidade e imprevisibilidade que advém de uma prática artística/musical que não está submetida a cânones ou ideologias. O legado e património do museu é exposto, então, a esta visão crítica da arte e sujeita-se a uma revisão quase ontológica e antológica da sua missão e história.

 

Sobre Arte Útil

Parece mais ou menos consensual que a arte inserida num contexto político é tendencialmente de esquerda, com nuances revolucionárias que procuram combater a letargia burguesa da sociedade e estruturas capitalistas e neoliberais. Na conferência proposta pelo programa paralelo de COSMO/POLÍTICA #2, proferida por Jesús Carrillo, e intitulada ¿de qué sirve todo esto?, o autor confirma-o de modo mais ou menos explícito, mais ou menos claro.

A arte ativista e a arte com fundamento social e político propõem uma participação pública e servem de agitadores, ao mesmo tempo que estabelecem uma linha crítica relativamente ao que contestam. Ao contrário do que se julga, não são tendência recentes, e, como Carrillo exemplificou, desde a década de 60 que se encontram práticas deste tipo. O que acontece é que alguns museus vieram a propor uma série de práticas expositivas críticas que acabaram por promover e dar visibilidade a esta nova forma de fazer arte. Fala-se dos museus que integram a chamada L’Internationale, uma rede maioritariamente europeia na qual se destacam o Van Abbemuseum, o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía ou o MACBA, em Barcelona.

Em ¿de qué sirve todo esto? sucedem-se exemplos como Tania Bruguera, práticas artísticas associadas aos movimentos Occupy, a associações de moradores, que lutam contra a dita gentrificação de bairros madrilenos, a movimentos antirracistas, etc. – ou seja, referem-se os casos associados a uma arte útil. Este modo de fazer arte, orientada para o usuário e a usuaridade (qualidade do que é passível de ser usado – do inglês usership), não deixa de ser revolucionária, mesmo quando deixa de ser novidade. A verve revolucionária associada a projetos artísticos com fundamento social e político reserva sempre uma componente contestatária, de resistência, luta, e requer participação e engajamento por parte de grupos e massas, artistas e público.

Os detratores deste modo de fazer, deste saber fazer que muitas vezes recusa o compromisso estético (burguês) e até mesmo a autoria, rejeitam esta arte ao serviço de ideologias e, como tal, carente autonomia – a aspiração máxima da arte. Na sua tese Artificial Hells, Claire Bishop analisa precisamente as contradições destas práticas e sugere antes uma arte que não comprometa o sentimento estético acudindo ao sentimento ético, questionando as práticas da participação e os problemas que suscitam.

De facto, é possível que este compromisso seja sempre válido, mas a arte política nunca foi sobre o resultado final.

Tudo o que acarrete um ideário revolucionário não tem que atender a uma composição final. As palavras de Ursula K. Le Guin soam aqui como lacónica ao referir que na revolução o que importa não é o fim, mas o meio. Nas suas palavras, “[a Revolução], se for vista como tendo um fim, nunca começará verdadeiramente”.

O processo de construção de um projeto, de uma obra, resultante de um esforço comum, é mais importante do que a expressão estética consequente. Interessa o compromisso, a sinceridade da performance diária, as trocas e partilhas, o sentido de comunhão e comunidade numa época fragmentária. Refazer laços através de uma causa conjunta requer política, sim, mas também requer arte. Da mesma forma que operar através dos dissensos e dos pequenos desvios constitui igualmente uma arte.

COSMO/POLÍTICA #2, até 11 de novembro, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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