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Matt Mullican, na galeria Cristina Guerra Contemporary Art

Matt Mullican regressa à galeria Cristina Guerra Contemporary Art após cinco anos, com a exposição WHAT DO THEY FEEL?, tema explorado através da cor, do ser humano, da vida e da morte.

 

Matt, o que pretende transmitir na série Language and Sign, 2018? A sugestão de paisagens orgânicas com elementos da natureza representados em microescala (como a ampliação da pele e da membrana respiratória, entre outros) confrontadas com a expressão de uma escala maior, como uma planta à escala urbana ou um esquema. Porquê este binómio?

Nesta exposição estão oito pinturas de fundo verde com a representação de diferentes partes do corpo, através da abstração da anatomia. O canto superior esquerdo corresponde a uma figura anatómica, o direito a uma planta de cidade. Este confronto de escalas está relacionado com o conceito de interface e como nós compreendemos o mundo. São pinturas abstratas e figurativas ao mesmo tempo, são um sistema. Temos pulmões e sangue. O ar alimenta o sangue e eu descrevo esse processo. É como num aeroporto, quando se sai de um voo e se passa a conduzir um carro – esta transição é um sistema também.

 

O díptico amarelo Untitled, 2018 apresenta-nos um espaço arquitetónico interior, com a presença de dois quadrados que poderiam ser interpretados como dois mundos exteriores contidos num espaço privado: um ligado à natureza (o verde) e o outro a símbolos e linguagem (o preto e branco). Porquê o diálogo destas três realidades?

Eu tenho cinco mundos no meu trabalho: A cor verde representa o mundo como o vivenciamos; o mundo emoldurado é representado pelo amarelo; a linguagem pelas cores preto e branco, o subjetivo pelo vermelho e o mundo alterado através da cultura pela cor azul. Ao ser amarelo, aquele espaço interior é um palco para que uma ação aconteça. Não é um espaço interior para ser habitado. É como entrar numa pintura, numa realidade virtual. Conceptualmente, eu entrei na pintura e quis três janelas e uma saída, para complementar o espaço.

 

A série Untitled (Dead Man) 1-4, 2018 é uma abstração de fotografias da Guerra Civil Americana (1861 – 65), de fundo amarelo. O que pretende transmitir hoje, com o recurso a esta guerra do séc. XIX? Porquê relacionado com a cor amarela?

Dead Man provém da série Doll and Dead Man, 1974 e consiste numa abstração de imagens de homens mortos, fotografias de Mathew Brady, célebre fotógrafo do séc. XIX que retratou a Guerra Civil Americana. Eu precisava de fotografias de pessoas mortas. Estas obras são fotográficas, foram digitalizadas e tornadas mais abstratas. A técnica utilizada é o frottage (fricção), a primeira forma conhecida de reprodução. O limite entre a representação do homem morto e a natureza desaparece, transformado a obra num padrão uniforme, mas ainda fotográfico. É a morte em oposição a Body and Head, 2018, onde encontramos dois corpos vivos.

 

A cor amarela remete-nos para a série Untitled Yellow Monster 27, 2018. Aqui, impressões de fotografia sobre tela apresentam-nos pessoas comuns em sofrimento. Porque abandonou o uso de símbolos nesta série e recorreu a fotografias? Com que propósito?

Porque os homens representados são reais, nós compreendemos. Os sinais não são reais, mas estão lá, friccionados, como numa interface. As fotografias são representadas através de símbolos. A série completa Yellow Monster está relacionada com a relação das minhas ideias e como estas se traduzem na realidade cultural contemporânea.  O símbolo é subjetivo e está em primeiro plano. O Homem que chora, mundano, parece real. Depois temos os fantasmas. Recorri à Internet para obter estas fotografias. Não são reais, mas expressam a ideia de que a alma existe e que é independente do corpo. Se falo em figurativo, o fantasma pode ser a representação do que está contido no nosso corpo.

Primeiro o sentimento do Homem a chorar, depois o fantasma. O homem a chorar está relacionado com o sentimento, o fantasma com uma aberração ou com a alma: é um significado independente do corpo. Quem sou eu na minha vida? – eis a questão d a relação do corpo com o ser, com quem somos e o que aparentamos quando as pessoas olham para nós.

 

No início da década de 70, começou a desenvolver a sua prática artística com recurso à hipnose, criando Glen, personagem sem sexo, idade ou raça, relacionado com a psyché da situação, para além da vivência física. Apesar disso, introduziu-lhe sentimentos e ações do ser humano, como podemos observar em That Person Lives. A humanização deste ser subjectivo é uma necessidade?

Glen provém da hipnose, é um ser abstrato, que não tem sexo, não tem idade e não tem raça. É o sujeito que eu vejo quando olho para ti ou para as outras pessoas. Glen é subjetivo: é a suspensão do meio físico. É uma característica do meu trabalho, do meu universo, a minha própria linguagem e o meu símbolo. A razão que me levou a criar símbolos relaciona-se com o facto que quando te deparas com um, não existem palavras, não tens necessidade de o verbalizar. É pictórico, não é fónico. Eu não estou de acordo com a ideia que todos os objetos podem ser traduzidos em palavras. Não considero que pensemos através de palavras nem em imagens. Assumo que pensamos através de sentimentos e emoções, de forma rapidamente e expedita. Eu acho que a linguagem está intimamente relacionada com o corpo. Glen é um avatar. É alguém passível de ocupação e que partilha os teus sentimentos. Nós processamos tão rapidamente e fazemo-lo mesmo antes de nos apercebermos que o fizemos. Glen existe.

 

What my Eyes can See é a única obra apresentada nesta exposição que contém em si todas as cores e categorias da sua obra. Será esta uma forma de valorizar Glen, essa presença subjectiva, e torná-la inquestionável, uma vez que contém em si toda a simbologia e significados que podemos interpretar no seu trabalho?

Quando olhamos para What my Eyes can See vemos pedras sobre uma estrutura de cama. É um ser humano de forma abstrata. Tem as cores e as categorias do meu trabalho. Poderia ter uma infinidade de cores, mas não o fiz. É a abstração do sistema. É tudo o que os meus olhos veem, que é abstrato. O que o meu cérebro vê é muito inferior. Essa relação é algo que me interessa bastante. A diferença entre o que os meus olhos veem e o que eu realmente vejo é imensa. É a peça mais recente da exposição, foi produzida aqui. É uma figura e um parceiro ao mesmo tempo. É como Glen. Estou a confundir o sistema, o meu trabalho é sempre questionável.

 

As esculturas Sleeping Child and Body and Head sugerem uma relação direta com o ser humano, como todos entendemos, ou como todos aprendemos a entender. Remete-nos para a infância, para o corpo físico e para a consciência. O que pretende com estas esculturas num contexto singular e o como estas valorizam a exposição, com a sua participação?

Body and Head é uma forma de projetar a vida numa figura. Eu queria torná-la realista, para não haver diferentes interpretações. É minimal e consciente, especialmente em Sleeping Child. Sentes que vês uma figura e estás ciente do que está a acontecer. A peça Body and Head está viva. Quando me refiro a cabeça, refiro-me a consciência. É a figura mais reduzida que eu consigo apresentar.

 

A exposição WHAT DO THEY FEEL? de Matt Mullican está patente na galeria Cristina Guerra Contemporary Art até 3 de novembro de 2018.

Vive e trabalha em Lisboa. Mestre em Arquitetura pela FA-UL em 2010, desenvolveu a sua prática profissional na Suíça entre 2011 e 2016. Em 2017 inicia a Pós-Graduação em Curadoria de Arte na FSCH-UNL, integrando o coletivo de curadores da exposição final ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE) e comissariado a exposição do projeto de arte comunitária UM MONUMENTO PARA O LOUSAL. Atualmente desenvolve projetos nos domínios da arquitetura e da curadoria.

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