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Poster – muito melhor do que o Instagram

De 29 de Setembro a 29 de outubro decorre a 3ª edição do Poster Mostra que, mais uma vez, assenta arraiais em Marvila. Antes disso, a Umbigo foi cumprir um desejo e uma promessa que se arrasta desde a 1ª edição: acompanhar um dos workshops Mini Poster realizados com crianças e jovens de instituições socais e perceber, ao vivo e a cores, como a arte transforma desconfiança em sorrisos.

 Segundo Bruno Pereira, responsável pelo Poster, é precisamente aí que se notam as grandes diferenças nos miúdos de workshop para workshop: em vez do sobrolho levantado, há um sorriso que vai sendo cada vez maior, acompanhado por curiosidade e excitação. Estas iniciativas estendem-se para além do âmbito do Poster e são realizadas ao longo de todo o ano pelo Departamento, o “amplificador de cultura” responsável por este e outros eventos artísticos de acesso livre. 90% dos projetos desenvolvidos aqui são partilhados com crianças institucionalizadas. A Obra do Ardina, por exemplo, tem estado sempre presente ao longo destes 4 anos e criaram-se laços fortes de amizade. Para saber que isto é verdade, basta reparar na cara de Bruno Pereira quando olha para um dos miúdos que sempre viveu nesta instituição e diz que tem quase uma relação de pai e filho com ele. “O poder da arte e da comunicação desperta em ti muita coisa boa e essas coisas boas são como sementes e flores, têm que ser semeadas para crescer. E no fundo o caminho é esse. Não quer dizer que vão ser ilustradores ou fotógrafos, mas pelo menos ganham ferramentas como seres humanos, como expressão própria do ser. Quanto mais tu libertares coisas cá para fora, mais vazio ficas por dentro, mais livre. Mas, ao mesmo tempo, mais semeias cá fora. Arte é libertação, é compreensão”, diz Bruno.

No âmbito do Poster, o 1º workshop foi realizado pelo ilustrador David Rosado e o 2º pela street artista Kruella D’Enfer. Pela natureza do trabalho de cada um, ambas as oficinas se focaram nas técnicas do desenho e da pintura. Este ano, a ideia era explorar uma técnica nova que permitisse ter mais do que uma peça final. Ou seja, sendo fiel ao conceito do que é um poster, obter algo que pudesse ser facilmente reproduzido em série. Este foi o desafio lançado à Stolen Books, do designer Luís Alegre, e a Lord Mantraste, ilustrador, designer gráfico e um dos convidados da edição deste ano do Poster. “Nós imaginámos que seria interessante fazer o workshop com a tecnologia da Risografia. É uma tecnologia de serigrafia, ou seja, de reprodução de imagens em série, mas que está entre a serigrafia propriamente dita e o off-set. Com a virtude de ser menos complicada, com menos aparato do que a serigrafia, e sem a industrialização do off-set tradicional.”, explica Luís Alegre.

E como funciona a Risografia? É utilizada uma espécie de fotocopiadora que digitaliza a imagem original (um desenho, uma fotografia, colagens, etc.) e permite imprimi-la com uma cor só ou com uma sobreposição de várias cores – tal como acontece com os quadros de serigrafia, a cada impressão pode ser acrescentada uma nova camada de cor.

Neste caso, a imagem original era um autorretrato de cada participante, construído através do recorte de cartolinas pretas. “Achámos que eles podiam pensar um bocadinho sobre a autorrepresentaçãoo. Não se lhes exige que sejam realistas, mas que peguem em alguns traços fundamentais da sua fisionomia e os destaquem. Usámos uma técnica de corte e colagem de cartolinas pretas para criar uma uniformização gráfica. Seria diferente pedir a cada um para desenhar a lápis. Assim anulamos aqueles que não desenham tão bem, frente aos que desenham melhor”, diz Luís Alegre. Provavelmente as crianças não estavam cientes deste processo, mas o mais importante é que fizeram uso dele para produzir trabalhos que surpreenderam toda a gente pela plasticidade e criatividade – ao ponto de Luís Alegre e Bruno Pereira, entusiasmados com o resultado final, pensarem em fazer uma pequena edição de livros com estes trabalhos.

Era vê-los sorrir, aos miúdos, quando o seu autorretrato saía da máquina com a cor escolhida ou quando era sobreposto ao autorretrato de outra criança, criando assim uma terceira “pessoa” que não existia – os olhos de um preenchiam o vazio deixado noutro, os cabelos do outro davam uma cabeleira farta aquele que se tinha retratado com cabelo curto. Saíram de lá com 10 posters para colar na parede do quarto, guardar ou dar aos amigos.

Todos estes trabalhos estarão expostos na 3ª edição do Poster juntamente com os dos “crescidos”. Este ano, Bruno Pereira diz que ficou especialmente surpreendido pela quantidade e qualidade do que foi submetido à Open Call. Havia gente de todo o mundo – romenos, brasileiros, alemães, portugueses – e com todo o tipo de formação, incluindo artistas que já expõem em galerias. Normalmente, são escolhidos 5 trabalhos, mas este ano a fartura era tanta que passaram a ser 10. Mesmo assim, Bruno diz que foi difícil escolher. Aplicou o critério de mostrar a maior diversidade possível de técnicas e estilos para tornar a exposição mais interessante. Pela primeira vez, vão expor também todos os trabalhos que foram submetidos. Serão 100 posters para “mostrar todo o talento que não está nas paredes, mas que vai estar no chão do atelier Todos”.

Diversidade é também a palavra de ordem nos convidados deste ano. O objetivo é ter cada vez mais pessoas de áreas cuja linguagem não seja visual, como a escrita ou a música. Este ano, entre outros, vamos poder ver os trabalhos de Nuno Miguel Guedes, jornalista, Paula Cortes, poeta, e dos músicos Dead Combo. O objetivo, independentemente do background de cada artista, é sempre o mesmo. “Quando fazes um poster tens tendência a reclamar, a afirmar qualquer coisa. E isso é fixe, porque é alguma coisa de ti que vem cá para fora. Nos dias de hoje, quando existe tanta informação, este formato tão simples continua vivo há 2 séculos e com um impacto e uma performance incrível. Fazes uma coisa e colas num sítio específico que podes ser tu a escolher, não há uma plataforma pré-definida como nas redes sociais. Ao contrário de um post do Instagram [que desaparece rapidamente no teu feed] se vires um poster na rua podes parar e desfrutar”, finaliza Bruno Pereira.

Durante um mês, nas paredes de Marvila e no espaço cultural Todos, vai poder ver os trabalhos de 20 convidados nacionais e internacionais, dos 10 vencedores da Open Call, das crianças da Associação Sol e da Obra do Ardina no âmbito do workshop Mini Poster e também de todos os participantes da Open Call.

 

Para mais informações sobre as atividades do evento, consultar www.postermostra.com

 

Convidados: Adriano Miranda (fotojornalista) Dead Combo (músicos) C.W.Moss (ilustrador) André Ruivo (ilustrador e realizador) Diogo Aguiar Studio (estúdio de arquitectura) Filippo Fiumani (designer e artista visual) Lord Mantraste (ilustrador e designer gráfico) Nuno Miguel Guedes (jornalista) Paula Cortes (poeta) Olivier Kenneybrew aka Polar (artista visual) Rita Braz (directora artística e fotógrafa) Rukkit (designer gráfico e street artist) Silva Designers (atelier de design) Surma (música) This is Pacífica (atelier de design) Vera Marmelo (fotógrafa) Tomaz Hipólito (arquitecto e performance artist) Valter Vinagre (fotógrafo) Gonçalo Mar (street artist) Alfredo Keil (pintor)

Vencedores da Open Call Poster:  Carolina Baptista, Elsa Rodrigues, Giotto, Lucian Lupu, Marcel Kreuzer, Mário Cameira, Miguel Muralha, Mónica Sousa, Samuel Matzig e Tháshya Barbosa

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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