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Revendo os desafios da abstração

Existem várias formas de entender e avaliar a curadoria – um campo que, aliás, tem vindo a alargar-se cada vez mais. Mas é seguro afirmar que algumas das curadorias mais bem-sucedidas são as que investigam e as que propõem novas leituras sobre a arte, a história da arte e os contextos político-sociais das épocas em análise. Aliada ao ensaio, e sem comprometer o rigor científico, a investigação supõe a dilatação das matérias expositivas, promove, muitas vezes, a revisão histórica de determinados temas e, como tal, representa um desafio crítico para o público.

Partindo da coleção da Fundação da Caixa Geral de Depósitos – Culturgest -, Contra a Abstração é uma exposição completa neste sentido. Parte investigação, parte ensaio, esta é uma mostra que questiona, revê e expõe o legado de uma geração que expandiu o conceito de abstração na arte contemporânea, bem para lá de uma ideia hegemónica. Ao longo de cinco núcleos, a exposição, nas palavras da curadora Sandra Vieira Jürgens, “não obstante o título colocar a abstração sob crítica e suspeita, (…) propõe um exercício de debate, de ativação de uma linguagem que oscila continuamente entre momentos de crise e superação, criando um espaço de revisão alargada e análise plural e multidirecional do conceito”. Ou seja, não se pretende fomentar um discurso concordante, mas antes discordante, que exponha os dissensos e as várias perspetivas sugeridas pelos artistas. De outro modo, podemos ver esta posição curatorial, que não oferece um caminho unívoco sobre a matéria, como um exercício democrático, horizontal, de deixar ao critério do espetador, e de acordo com a sua sensibilidade, sublinhar o que de mais relevante há para cada um.

Isso é particularmente evidente logo no primeiro conjunto intitulado Abstração Eclética, cuja abundância de obras revela a pluralidade de vozes e entendimentos de abstração. Não apenas do ponto de vista da representação, mas também dos suportes e técnicas usados. Pintura, assemblage e têxteis (Margarida Reis, Estrutura e Movimento, 1986-87), a abstração dos autores rejeita um entendimento uniforme: uns consideram uma linha concetual e narrativa, outros vagamente figurativa (Bartolomeu Cid dos Santos), outros, ainda, remetendo para as composições geométricas e espaciais da pintura.

O segundo núcleo – Círculo Dialético – concebe um ensaio em torno do diálogo e da capacidade da arte em comunicar as grandes temáticas da humanidade. Ana Jotta (Calvin, 1993) e Gerardo Burmester (Mãe, 1992) evocam, respetivamente a afetividade da infância e da maternidade, em duas obras que se expõem frente a frente.

Todavia, é a Instalação 191093 (Parte 1 e Parte 2) (1993), de Francisco Rocha, que constitui o momento impressionante de toda a exposição e deste núcleo. Ao retirar o espetador do silêncio observador e deambulante, Rocha lança-nos no ruído da contemporaneidade e da modernidade, nos mitos marcantes da história mundial, no desassossego existencial, plástico e barato. Uma Torre de Babel suspensa e invertida, composta de cães de brinquedo a ladrar, faz-se acompanhar por um discreto caderno com frases poéticas e misteriosas de introspeção: “da vida oculta | do abuso excessivo | da voz ausente | da insuficiente memória | dos tantos infernos […] | do ingénuo consolo | dos processos degenerativos”.

E hipnotizados, olhamos, e desconcertados, ansiamos novamente pelo silêncio.

Em Laboratório Moderno, a curadora volta o olhar para o Modernismo e para a abstração como viragem no entendimento da arte. Este recuo, no entanto, é feito mediante a arte contemporânea e na capacidade de esta poder sobreviver práticas do passado. A geometrização e a apropriação de modelos de culturas não-europeias, típico do cosmopolitismo hegemónico e uniformizador europeu, são aqui revistos, destacando-se a obra de Ângela Ferreira que puxa o debate para as questões de identidade e do colonialismo de geografias remotas, recorrendo aos padrões geométricos tradicionais de países africanos e da vexilologia.

Júlia Ventura e Leonel Moura protagonizam outro momento fascinante da exposição, no núcleo Contra-Campo. Numa complementaridade cromática, os artistas sinalizam as narrativas políticas da contemporaneidade: Ventura com a visão feminina, numa obra que se reparte na encenação, na fragilidade, na combatividade e poder femininos; e Moura que concebe uma espécie de biografia metafísica da Europa, recorrendo ao retrato de escritores e filósofos que acabaram por fazer este continente na sua complexidade de línguas, culturas, políticas e identidades. (Seria interessante e curioso ver o que resultaria de um confronto entre esta peça e a de Francisco Rocha anteriormente abordada.) Verde e Vermelho irradiam no espaço duas grandes conquistas em construção: o feminismo e a União Europeia.

Finalmente, Espaços Comuns, que joga o lúdico como elemento condutor do discurso. As peças remetem ora para esculturas ora para instalações ora para coisas suscetíveis de uso. A utilidade da arte é aqui questionada no cruzamento com o design ou a arquitetura, com as obras, por exemplo, de Fernanda Fragateiro e Bruno Pacheco.

É importante frisar que o ciclo de itinerâncias proposto pela Culturgest é um programa que, apesar de ambicioso, é necessário. E se é admissível que a arte não tem que obedecer a linhas ideológicas ou políticas, podendo ser absolutamente desinteressada e neutra, neste ponto de vista, o certo é que a curadoria e a as instituições públicas não precisam de submeter-se a esta visão – para escárnio de muitos – burguesa da arte. A arte, aqui, e a Coleção da Caixa Geral de Depósitos são agora postas à mercê da população e mostradas numa promoção da coesão territorial.

Deste modo, Contra a Abstração é uma inauguração de um ciclo que se assume como auspicioso e um magnífico exercício de curadoria e uma oportunidade única para ver artistas e obras pouco vistos, quer porque são remetidos para a solidão do arquivo e das reservas, quer porque, esgotados na cotação do mercado e sistema da arte, deixaram de ser exibíveis em projetos expositivos nacionais.

Até 27 de outubro, no Centro de Artes e Cultura da Ponte de Sor.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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