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A liberdade dança descalça

A liberdade dança descalça. Ou pelo menos de sapatos rasos para não atrapalhar o movimento, o rodopio e a vontade de saltar. Talvez por isso, assim que entramos no espaço da exposição Paradisaea, que comemora os 20 anos do Lux Frágil, somos convidados a deixar os sapatos à porta e a pôr os pés na areia que cobre o chão deste armazém transformado em “clareira na floresta”.

Paradisaea é sobre os 20 anos do Lux, mas não é apenas uma efeméride. Mais do que um número, celebra uma forma de estar na vida – potenciada pela noite – que privilegia a procura de liberdade através da música, da dança e da beleza. Ao longo destas duas décadas, a missão do Lux foi criar espaços físicos e emocionais onde esse estado fosse possível de alcançar. São as instalações, os vídeos, os convites, os flyers, os objetos, as peças de vestuário, as fotos, as festas temáticas e, claro, a música. Fernando Brízio, curador e responsável pelo design da exposição, pensou o conceito de Paradisaea numa analogia com a natureza, realçando que esta busca pela liberdade e pelo belo não é superficial, mas sim primordial.

Paradisaea é o nome de um grupo de aves-do-paraíso que exibem a sua plumagem em danças de sedução na época de acasalamento. Constroem pistas de dança cuidadosamente decoradas no cimo das árvores ou em clareiras na floresta, colocando a beleza no centro da “perpetuação e evolução da espécie”, ou seja, como algo essencial à (nossa) sobrevivência. “O Lux Frágil é como essas clareiras na floresta. “Clareira noturna” onde o dispositivo cénico, catalisador emocional fruto de uma estratégia integrada de design, nos permite, instigados pela música, aceder a um lugar primordial de beleza, liberdade e felicidade — a matéria de trabalho do Lux.”, escreve Fernando Brízio no texto de apresentação da exposição.

Assim que entramos, a imensidão do espaço branco – da areia no chão às paredes – funciona como uma espécie de bolha de silêncio. No fundo, a sensação oposta à de entrar numa discoteca, mas aqui a ideia não é replicar a “nave mãe”, mas talvez mais o espaço interior para onde vamos quando estamos lá dentro. Como escreve Fernando Brízio, “não procuramos recriar as experiências vividas no Lux pois esse sopro transformador só lá poderá acontecer, naquela nave que, impulsionada pela música, nos introduz a um espaço estranho e nos faz sussurrar ground control to major Tom”.

À medida que os nossos olhos se adaptam à luminosidade, o espaço vai ganhando novas dimensões e texturas, e chegamos à conclusão de que os esquimós têm razão: há mais do que um tom de branco. Percebemos, através do quase choque físico, que ao nosso lado estão fileiras de fios meticulosamente colocados, afinados individualmente como se de um instrumento musical se tratasse. Sobre eles, está disposta uma série de material gráfico e fotográfico que mapeia cronologicamente a história do Lux – da remodelação do edifício no Cais da Pedra, passando pela primeira identidade gráfica criada por Ricardo Mealha e Ana Cunha, postais, convites, flyers, fotos do espaço ao longo dos anos e das festas mais memoráveis. Diz Fernando Brízio que existem mais de 20.000 fotos das noites do Lux, ao longo das quais é possível até acompanhar os amores e desamores, casamentos e divórcios, dos frequentadores mais assíduos.

Enquanto percorremos estas filas de memórias, há duas coisas que nos passam pela cabeça: a forma discreta como Manuel Reis aparece neste “álbum”, não como figura central, mas como mais uma peça do puzzle, e pensamos como é uma homenagem bonita ao mestre de marionetas que sempre preferiu os bastidores ao protagonismo. Depois os nomes que vamos lendo e que já não estão entre nós – o próprio Manuel Reis, Ricardo Mealha, Pedro Cláudio, entre outros. Mas esta melancolia tem um sorriso no rosto, porque no fundo ainda estão. Nada em Paradisaea é um exercício de nostalgia. É apenas a revisão da matéria dada de uma disciplina que está viva.

A segunda sala é o arquivo videográfico da exposição. Divididos por dezoito ecrãs suspensos (e algumas paredes) estão os vídeos de registo, documentação e divulgação do Lux, mas também os que foram projetados ao longo dos anos na pista de dança, pintando o espaço interior, criando contextos e inspirações, quebrando barreiras. Fernando Brízio realça a importância desta vertente visual na história do Lux, contando como Rui Calçada Bastos, artista plástico, se dirigiu aos melhores clubes de Berlim nos anos 90 com o portfolio do que tinha feito para o Lux debaixo do braço, e todos eles lhe disseram não ter as condições necessárias para desenvolver o mesmo tipo de trabalho ali. O Lux abriu portas em 1998 e já era pioneiro.

A terceira e última sala de Paradisaea evoca, de alguma forma, a pista de dança do Lux através de uma projeção da performance de Dita Von Teese em 2003 e também da presença de alguns dos objetos que fizeram parte das festas temáticas e das noites regulares: dos cadeirões ao néon d’ O dia pela noite, passando pela cabeça do Gato de Cheshire da Malícia no País das Maravilhas e pelos figurinos criados para o staff do Lux por Filipe Faísca e Dino Alves.

E onde fica a música no meio da Paradisaea? No fundo, está em todo o lado. No silêncio da primeira sala, ela está omnipresente nas imagens dos artistas que passaram pelo Lux e nos corpos em movimento retratados nas festas; há a placa no teto do corredor que produz sons semelhantes à de uma batida de eletrónica; no “rádio” colocado na parede que nos sussurra qualquer coisa. Mas tal como numa clareira na floresta, aqui o som não é invasivo. Tem o volume adequado para ser a banda sonora do acasalamento de uma ave-do-paraíso e da nossa reflexão sobre o que significa isto de enganar a morte mais uns instantes através da celebração da vida, noite após noite, dia após dia.

“Tudo se desfoca em nosso redor para que algo se torne subitamente incrivelmente transparente dentro de nós. (…) São momentos de rara lucidez, flechas de súbita certeza que nos atingem entre a multidão tumultuosa. A dançar olhamos para dentro e para fora ao mesmo tempo, entregamo-nos a um exorcismo primitivo, o de expulsar o peso, o medo, a morte. Sintonizamos, sintonizamo-nos.”

Catarina Portas citada por Fernando Brízio no texto de apresentação de Paradisaea

 

Paradisaea

De 12 de Setembro a 11 de novembro de 2018

Entrada Livre

 

Hub Criativo do Beato

Rua da Manutenção, 122

1900-321 Lisboa

 

Horários:

2a a 5a: 14h-19h

6a: 14h-21h

Sáb: 12h-21h

Dom: 12h-19h

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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