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Musée d’Art Moderne, Département des Aigles, por Marcel Broodthaers

A propósito do quinquagésimo aniversário da sua inauguração

 

Em 1963, o programa revolucionário do movimento situacionista é apresentado, sobre tela, pela mão do seu mais ilustre militante: “Dépassement de l’art”, “Réalisation de la philosophie”, “Tous contre le spectacle”, “Abolition du travail aliéné”, “Non a tous les spécialistes du pouvoir/Les conseils ouvriers partout”. Guy Debord sintetiza uma proposta politicamente comprometida, decerto arreigada na afirmação da herança marxista, na crítica ao sistema capitalista, na luta contra uma sociedade que entende condenada ao espetacular. Interessa aqui, muito particularmente, a primeira diretiva.

Importa observar que a ideia de superação da arte assenta na rejeição do paradigma da institucionalização. Por conseguinte, na rejeição do princípio da musealização. Guy Debord acredita que a arte está apartada da vida quando ao serviço da instituição. De acordo com o autor, a superação da arte implica a superação do abismo entre a arte e a vida. É preciso que a arte se confunda com a vida. É preciso, para tanto, que o artista se rebele contra a especialização. Afinal, o que se contesta é justamente a figura do especialista, que surge como um produto da divisão do trabalho, esse tão importante mecanismo do sistema capitalista.

Guy Debord integra a Internacional Situacionista e está naturalmente associado ao pensamento que baseia o Maio de 68. É também neste contexto, imbuído do mesmo espírito crítico, que se manifesta Marcel Broodthaers. Em 1964, prescinde da carreira literária e vota a luta à prática artística: o até então poeta opera, a partir desse momento, na qualidade de artista.

Entre 1968 e 1972, instala e reinstala, sempre em território europeu, o seu Musée d’Art Moderne, Département des Aigles. É o próprio quem esclarece: “This Museum is a fictitious museum. It plays the role of, on the one hand, a political parody of art shows and, on the other hand, an artistic parody of political events”. De sublinhar, a propósito, a singularidade do ano da inauguração, profundamente marcado pela agitação política, pela contestação estudantil, pela ação revolucionária. Eis que o museu é então instalado na sua própria casa, reivindicando, logo à partida, a superação do abismo entre a arte e a vida. É o questionamento da pretensa categorização burguesa, da inerente separação ideológica entre o público e o privado. Tal intervenção consta como um caso paradigmático da subversão do dispositivo institucional e, mais concretamente, do sistema museológico – do departamento, da secção, da coleção ou do inventário – e do equipamento museográfico – do plinto, da vitrina, da tabela ou do catálogo. Além disso, como um caso paradigmático da crítica ao aparelho capitalista, na sua demanda pela separação espetacular. Pois que o artista assume, em simultâneo, o papel de diretor, de curador, de designer, de agente publicitário e até de assistente de exposição. De facto, a epidemia da especialização deriva dessa sede de separação que estrutura a sociedade descrita por Guy Debord: “A separação é o alfa e o ómega do espetáculo.”.

A 27 de setembro de 1968, abre ao público a Section XIXe siècle, na sua casa, em Bruxelas, num ato performativo que define, desde logo, o tom crítico da intervenção. Marcel Broodthaers desafia a autoridade institucional pela apropriação de uma imensa parafernália habitualmente associada ao contexto museal, como seja: a caixa utilizada para o transporte de toda e qualquer obra de arte, sempre com uma inscrição caraterística, informando sobre o seu conteúdo ou alertando sobre o seu manuseamento; o veículo adaptado ao transporte deste tipo de mercadoria, estacionado no exterior da residência, na data da inauguração – e também, mais tarde, na data do encerramento – da dita secção; uma importante seleção da pintura francesa desse século, sendo cada obra de arte apresentada por intermédio de uma sua reprodução no formato de um postal, fixa na parede com a fita adesiva mais comum; ou ainda um projetor, revelando outra pintura e alguma caricatura do mesmo período. Ora, o evento de inauguração introduz a discussão sobre o conceito de museu, na lógica do que, entretanto, se designaria por “crítica institucional”. Tal discussão surge parcialmente documentada no filme Une discussion inaugurale, do mesmo ano, com a assinatura do artista.

A 27 de setembro de 1969, coloca à janela da Section XIXe siècle o anúncio da sua venda e segue para Antuérpia, onde apresenta, durante aproximadamente uma semana, a Section XVIIe siècle. Marcel Broodthaers opera ainda dentro do mesmo registo, mas agora num espaço vocacionado para a atividade expositiva. É utilizado um autocarro para o transporte do público do evento de encerramento para o evento de inauguração.

Em 1970, na Städtische Kunsthalle Düsseldorf, concebe uma segunda versão da primeira instalação, a que atribui o título de Section XIXe siècle (bis). É no âmbito desta nova versão que promove o confronto entre a pintura reproduzida e a pintura original, pedida de empréstimo ao Kunstmuseum Düsseldorf, e que exibe, pela primeira vez, o dito filme. Contudo, a intervenção dura apenas dois dias. Isto significa que o museu, uma instituição que se define como de caráter permanente, é então imaginado no limite da efemeridade.

Interessa recuar um pouco.

No verão de 1969, o artista delimita a área do seu museu na areia da praia de Le Coq, acrescentando um aviso ao público: é proibido tocar essa tão importante construção. Pois que o ato performativo visa uma correspondência subversiva entre a inevitável submersão do museu ficcionado e a iminente liquidação da real instituição. Marcel Broodthaers evoca, em simultâneo, a suposta autoridade e a extrema fragilidade da estrutura institucional. Com efeito, lembra que a criação artística existe sempre em relação à linha imaginária que circunscreve o território institucional. Eis a Section Documentaire.

Em 1971, aquando da Art Cologne, propõe uma Section Financière, aproveitando a capa do catálogo para a derradeira paródia ao mercado da arte: “Musée d’Art Moderne à vendre pour cause de faillite”. Porém, não aparece um único interessado. Daí o lingote. Acontece que, para fazer face à falência, o artista necessita da receita decorrente da venda desta edição limitada, sendo que o preço de cada barra de ouro corresponde ao dobro do seu valor de mercado. Por esta altura, apresenta também a Section Cinéma. É então que exibe o filme Le musée et la discussion, aprofundando a discussão iniciada no âmbito da Section XIXe siècle.

Em 1972, está de regresso à Städtische Kunsthalle Düsseldorf, agora com a Section des Figures. De facto, a águia impõe a sua presença como nunca antes. É evidente que o display enciclopédico acentua o efeito cumulativo. Importa notar, aliás, que a referida secção remete deliberadamente para o mais tradicional cabinet. Por outro lado, muito deve a Marcel Duchamp e a René Magritte, mais não seja porque, junto a cada item, o artista acrescenta: “Ceci n’est pas un objet d’art”.

É por ocasião da Documenta 5, em Kassel, que encerra definitivamente o seu museu, instalando então a Section Publicité – perto da Boîte-en-valise, de Marcel Duchamp, ou do Maus Museum, de Claes Oldenburg – e a Section d’Art Moderne. Na primeira, explora a representação simbólica da águia, promovendo um curioso encontro entre o trabalho artístico e o trabalho publicitário, ainda em articulação com a Section des Figures. Na segunda, interdita uma pequena área do espaço expositivo, declarando-a propriedade privada. De novo, a típica distinção entre o público e o privado. A dada altura, o artista desiste do arranjo inicial, sendo que o Musée d’Art Moderne, Département des Aigles, Section d’Art Moderne passa a Musée d’Art Ancien, Département des Aigles, Galerie du XXe siècle e, no chão, aquela mensagem é substituída por outra: “Écrire Peindre Copier Figurer Parler Former Rêver Échanger Faire Informer Pouvoir”. De novo, a vocação especializante do dispositivo institucional.

Marcel Broodthaers toma a águia como um símbolo do poder institucional. De resto, não há por que negar a referência mitológica, heráldica e propagandística. Ora, em todo o caso, abre caminho ao questionamento da estrutura institucional entendida como uma realidade separada. Musée d’Art Moderne, Département des Aigles parodia uma já longa tradição, essa que nos apresenta o território institucional como um lugar apartado, sempre digno de deferência. É a luta contra o discurso que nos coloca do lado de fora. É a luta contra o discurso que nos isenta de responsabilidade.

Carolina Machado (Lisboa, 1993). Licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (2011-2015). Pós-graduada em Curadoria de Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2016-2017). Mestranda em Estética e Estudos Artísticos – Arte e Culturas Políticas pela mesma instituição (2017-2019). Estagiária da Coleção da Caixa Geral de Depósitos na Fundação Caixa Geral de Depósitos – Culturgest (2017-2018).

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