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Anish Kapoor – a habitabilidade da escultura em Serralves

Na exposição Obras, Pensamentos, Experiências, presente no Museu de Serralves, anatomizamos o universo plástico de Anish Kapoor em diferentes escalas. A obra deste artista nascido na Índia, em 1954, e residente em Londres, tem sido mostrada por todo o mundo em universos interiores e exteriores, dialogando com cidades e museus. No Porto, entre o purismo do espaço de Álvaro Siza e as flexuosidades do Parque de Serralves, é apresentada a sua primeira grande exposição em Portugal, com curadoria de Suzanne Cotter, ex-diretora desta instituição, na ambição de anualmente se dar destaque a um artista em todo o esplendor neste complexo, considerado desde 2012 Monumento Nacional.

A perceção dos encontros de Kapoor com diferentes territórios, arquiteturas, tempos e materialidades é sentida numa sala com 56 maquetas de projetos que foi realizando ao longo de 40 anos. Uma reunião de peças que nos fazem viajar até experiencias singulares que já vivemos em cidades como Londres, Nova Iorque ou Chicago e nos remetem para a complexidade dos seus estudos e mutações. Mergulhamos num laboratório de conceitos e peles que os desvendam, aguçando a vontade de não ficar pelo espreitar a obra, mas querer entrar, sentir, habitar.

No trabalho deste artista a convocação do corpo é simbólica, visceral e também sedutora. Criteriosamente, o autor escolheu cinco pontos específicos para apresentar obras de grande escala, num percurso tempo-espaço desafiador, onde o espectador se sente convidado a envolver-se fisicamente com a obra.

Whiteout é a escultura que nos atrai no interior do museu. Um espaço de circulação que se torna também num espaço de contemplação e envolvimento. Branca, vertical, aparentemente reta, mas curvilínea, revela a luz do edifício, convida a girar em torno dela, a subir ao primeiro andar e a perceber a sua real relação com a arquitetura do museu. Quanto mais a observamos mais desvendamos o seu jogo de sombras e as suas sinuosidades. Monolítica, monocromática e monumental, não pela sua dimensão, mas pela infinitude a que nos leva.

Sectional Body Preparing for Monadic Singularity revela-se ao público junto ao auditório do Museu. Ousado e eficaz, este dar as mãos ao edifício. Não precisamos de a procurar, ela grita connosco quando entramos, apela a que cheguemos a ela, engole-nos se assim o permitirmos. Entre elipses inatingíveis a aberturas que nos provocam, reúnem-se ingredientes para a sedução. Anish Kapoor remete-nos ao expressionista abstrato Barnett Newman e ao episodio mitológico em que Marsias é esfolado vivo por Apolo, num vermelho que é carnal, atraente e inquietante. Dentro e fora ficamos sempre num limbo de sensações, não conseguindo abraçar todas as suas membranas e palpitando por mais uma surpresa.

Sky Mirror esculpe a própria paisagem. A simbologia terra-céu que Kapoor tem feito viajar por várias cidades encontra-se no cenário do Jardim do Relógio do Sol, numa escolha pouco evidente da sua localização em relação à Casa Arte Déco, evocando-nos a um novo olhar sobre a sua orientação. Através de uma grande superfície concava e espelhada o jardim, o edificado e o corpo do espectador vão sendo remetidos para um “terceiro espaço”, onde a mutabilidade desafia a perenidade.

Language of Birds cria uma relação próxima com a paisagem mais rural de Serralves. Num pedestal baseado na espiral arquimediana, também usada na construção do minarete em espiral da Grande Mesquita de Samarra, do século IX, no atual Iraque, uma vez por semana um chamador de aves introduz a componente sonora à obra. Tal como São Francisco a pregar aos animais, o chamador de aves não está isento de associações míticas. Encontramo-lo pelo som, respeitamos a envolvente, sentimo-nos a fazer parte de uma performance que tem uma aspiração mais transcendental. Ficamos na duvida se o momento também é nosso ou se apenas devemos assistir enquanto pequenos e imóveis.

Descent into Limbo pergunta: pode a arquitetura ser um não objeto? A dimensão de escultura habitada ou de uma arquitetura escultural chega-nos com o conflito finito-infinito na obra, porventura, mais inquietante da exposição. Na Clareira das Azinheiras avistamos um edifício branco que em nada nos perturba no contexto de Serralves, mas onde algo nos espera. Assinamos um termo de responsabilidade para ali entrar, gera-se desconfiança e curiosidade. O título, inspirado na obra de Andrea Mantegna que retrata Cristo a descer para o Limbo, também ajuda para a ânsia da descoberta. É num espaço que tão bem combina com a poética Álvaro Siza que nos sentimos a mergulhar no vazio, na escuridão. Uma tímida entrada de luz que nos faz lembrar as mesas invertidas deste arquiteto vai-nos fazendo ousar na proximidade ao precipício, onde afinal cabe o azul, onde não sabemos onde termina e ficamos na interrogação dos limites do nosso corpo com os limites do espaço.

Habitar a obra de Anish Kapoor em Serralves é uma experiência com muitos mistérios materiais e imateriais. Nos próximos meses será construída neste parque a obra In the Shadow of the Tree and the Knot of the Earth pensada pelo artista para uma nova leitura de esclarecimentos e ocultações deste território. Respirem fundo e deixem-se seduzir até janeiro de 2019 por um artista que nos tem habituado a momentos de suspensão.

Fabrícia Valente é formada em Arquitetura pela Universidade de Évora (pré-Bolonha) e tem formação em áreas complementares como o vídeo, a fotografia e a produção de exposições temporárias. Desenvolve a sua atividade entre a Curadoria (ex: Pavilhão KAIROS), a Crítica (é editora da secção online de Arquitetura da Umbigo Magazine e faz parte da redação do J-A) e a Mediação Cultural (Museu Coleção Berardo e MAAT), já tendo trabalhado em mais de 90 exposições. Colabora com diversas entidades na procura da multidisciplinariedade entre a Arquitetura, as Artes Plásticas e a Música, áreas onde está a desenvolver trabalhos de investigação.

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