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A voz do silêncio

Quando visitamos a exposição antológica que o escultor Manuel Rosa apresenta na Sociedade Nacional de Belas Artes, somos, num primeiro instante, acometidos, impressionados, impregnados, pela diáfana cortina de silêncio que as 66 obras expostas emanam.

Apesar da profusão de materiais utilizados — calcário, barro, gesso, bronze, ferro, areia de fundição, vidro, etc. — e não obstante a sua diversidade temática e formal, estas esculturas convivem harmoniosamente no magnífico espaço onde foram instaladas e entretecem, na sua interioridade radical, um enredo com o sabor dos mitos, compelindo-nos a escutar a voz do silêncio, a melodia insonora deste artista silencioso, apreendendo, na longa espera expectante deste drama extático, o único sentido plausível que estas obras nos podem devolver e que consiste em se erguerem perante nós poeticamente, trespassando o tempo.

Claro que uma serena melancolia habita algumas destas obras, mormente as esculturas dos anos 80 do século passado; destroços de figuras ensimesmadas, canoas de pedra abalroadas pelo sentimento de exílio e abandono à voragem do destino, habitações primitivas, vazias, onde não encontramos vivalma, corpos totémicos sem gente dentro… mas, por outro lado, apresentam, também, uma nobreza hierática indelével; evidenciam um despojamento formal e uma depuração extremas, abolindo quaisquer elementos espúrios. As esculturas de Manuel Rosa só atentam ao essencial; convocam arquétipos facilmente reconhecíveis como a figura humana, a casa, o barco, buscando, através deles, alcançar a pura forma platónica; exalam uma energia simbólica poderosa que contrasta e intensifica a expressiva densidade dos materiais. Noutros casos, as obras assumem contornos imateriais, integrando as esculturas sombras recortadas de moldes em ferro fixados horizontalmente na parede. Uma outra peça/instalação de Arte Povera, datada de 1996, consta de um negro montículo de areia de fundição, em cujas faces estão moldados torsos humanos que o tempo se encarregará de fender e apagar, glosando, mais uma vez, a reflexão ontológica recorrente na obra de Manuel Rosa sobre a precariedade da existência.

Clareira é o título da exposição, uma antologia rigorosa, com curadoria de Manuel Costa Cabral e Nuno Faria, que cobre  todo o percurso artístico de Manuel Rosa, desde 1984 até ao presente.  À entrada da sala estão instaladas sete esculturas recentes em barro cozido e gesso, obras realizadas especificamente para esta exposição; esculturas de chão, grandes pratos brancos nos quais repousam cabeças decepadas, numa eventual alusão à decapitação de João Baptista, descrita por S. Mateus 14,11: “Trouxeram, num prato, a cabeça de João e deram-na à jovem, que a levou à sua mãe”. Num dos pratos a cabeça foi substituída por um aglomerado de bolas, assinalando a persistente tendência do artista para a simplificação e depuração formais.

No lado direito da galeria concentram-se maioritariamente as obras em ferro e bronze e no lado esquerdo as esculturas em pedra. Por vezes os arquétipos e formas primordiais a que acima nos referimos, prenhes de energia simbólica, são, inesperadamente, articulados com objetos anódinos, vulgares, coisas de uso corrente, como maçanetas de porta, baterias de automóveis ou cabaças e bolas. Este jogo de articulação de símbolos com diferentes gradações de sentido inscreve na exposição uma dimensão derisória, mas também acentua, pela descontextualização a que estes objetos foram sujeitos, a capacidade de Manuel Rosa para dar a ver o ainda imperceptível.

Quando o Profeta Elias se refugiou no Horeb, numa caverna escura, aguardando instruções de Deus, ouviu, subitamente, um vento impetuoso e violento que fendia as montanhas; mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, tremeu a terra e ateou-se um fogo; mas nem no fogo se encontrava o Senhor. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa suave; “ao ouvi-lo, cobriu o rosto com um manto e pôs-se à entrada da caverna” (1Rs 19, 9-14). É com idêntica discrição e subtileza que Manuel Rosa caminha em busca da beleza plena.

 

*Este título foi retirado do livro homónimo de Helena P. Blavatsky, traduzido por Fernando Pessoa para o português em 1912.

Manuel Rosa  – Clareira (Escultura 1984 -2004)
Curadoria: Manuel Costa Cabral Nuno Faria

Para ver na Sociedade Nacional de Belas Artes até 21 de julho

José Sousa machado. Nasceu em Luanda, em 1956. Estudou em Lisboa, no Liceu Francês Charles Lepierre, no Colégio S. João de Brito, no Liceu Normal de Pedro Nunes, onde conclui o ensino secundário e no Instituto Superior Técnico. Em 1975 mudou a residência para o Rio de Janeiro, tendo-se formado em Economia pela Faculdade de Ciências Políticas e Económicas do Rio de Janeiro e cursou até ao terceiro ano do curso de Letras, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Regressou a Lisboa em 1981, tendo sido jornalista, crítico de arte e coordenador cultural no Correio da Manhã, revista ABC, Semanário e colaborador na área da cultura no Jornal de Letras, Diário de Notícias, Diário popular, Diário de Lisboa, entre outros. Foi fundador e diretor das revistas Artes & Leilões, Arte Ibérica, Agenda Cultural de Lisboa, Aprender a Olhar. Responsável desde 2014 pelo projeto Livraria Sá da Costa.

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