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Repetição e Descoberta: Sabotagem

Texto de Sebnem Soher

Há duas semanas, no âmbito da exposição colectiva ECO (DA IDEIA À OBRA DE ARTE)[1] na Galeria Liminare, Diogo Bolota, um dos artistas participantes, repetiu uma performance da sua autoria. Há três anos, foi convidado a fazer o trabalho Sabotagem no Maus Hábitos, no Porto. A partir da sua formação em arte e arquitetura, conversámos um pouco sobre o seu trabalho, as suas próprias questões relativas à sua prática, o que significa repetir uma performance três anos depois e se é realmente possível repetir uma performance, exatamente da mesma maneira.

Há obras de arte mais fáceis de categorizar e definir com o uso de expressões ou termos comuns ou habituais. Apesar de, num caso como Sabotagem, muitas categorias serem válidas, nenhuma descreve o trabalho inteiramente. É com certeza uma instalação e uma performance. A performance incorpora duas configurações de uma escultura modular, as formas de transição e o ato de dois intervenientes. Requer o espaço circundante, mas não é uma peça site-specific, nem interativa. Apesar de não ser interativa, a transição de uma escultura que existe apenas por um par de horas, numa outra, que é exposta durante toda a exposição, acontece com a presença de uma assistência. Os intervenientes estão a interagir com a instalação e o espaço, mas, uma vez mais, isto não está propriamente a assinalar a relação do corpo humano quer com a instalação quer com o espaço. Eliminados estes possíveis aspectos do trabalho, este pode definir-se como uma escultura de duas fases, com origem num espaço, mas não dependente deste. É uma performance na qual o público se relaciona com o movimento, com o esforço dos intervenientes e a relação entre eles; mas não participa nem contribui para o fluxo da transformação. O que importa é a materialidade da instalação, os intervenientes são apenas agentes que possibilitam esta ideia de transformação. Depois de uma longa conversa e perguntas seguidas de mais perguntas, o trabalho parece-me semelhante a um apontamento de certos movimentos de jogo, um desenho tridimensional feito no espaço. E é muito relevante no conjunto da obra de Diogo Bolota.

A reunião dos seus trabalhos cria uma narrativa de conjunto. Estudos em arquitetura, como a maioria das áreas de design, é uma combinação de exigências estéticas e técnicas. É a constituição de uma solução para um problema, de uma forma muito mais pessoal que a engenharia, mas frequentemente menos independente do que é considerada. Tem muito a ver com controlo, organização e representação. Aliada a uma formação em artes e especificamente em desenho, é fácil desenvolver uma curiosidade em torno das questões da representação. Não necessariamente representar ideias em desenhos, mas tornar outros media em desenhos, tornar desenhos em espaços e experiências, como resposta a este percurso misto. As experiências de Bolota com matéria, forma e significados são momentos de uma pesquisa artística muito pessoal, que também procuram incorporar as suas próprias interpretações e os seus possíveis significados teóricos. Estas tentativas manifestam a oscilação constante entre controlo e soltura, transformação e estagnação, efemeridade e robustez. Ainda assim, a aparente dicotomia traduz-se num binómio intencional. Por vezes é detectado no título dado à exposição colectiva Canto Chanfrado na Avenida 211, em 2014, ou no trabalho Apaga a dor. Por vezes encontra-se no processo, como em Sabotagem. Outras vezes, é sua prática simplificar relações mais complexas, tornando-as em interpretações duplas, como em arquitetura, mas o resultado pode ser um loop, uma armadilha. Mas a vida é muito mais complicada que binários, e a arte também. Como um segundo olhar revela, o conjunto de trabalhos mencionado acima é com certeza muito mais que um circuito fechado de binários.

Um artista está a sabotar-se, ao possibilitar isso. Uma escultura emerge pela destruição de uma outra. Componentes de algo podem permanecer os mesmos mas criar algo completamente diferente. Mas esta nova disposição também não é para durar.

O momento em que uma possibilidade é estabilizada impossibilita todas as outras. Cada vez que há uma decisão, um trabalho surge e, ao mesmo tempo, perdem-se muitos outros. Para escapar a esta armadilha, ele teve de compreender. E para compreender, teve de repetir a performance. Ao descrever o seu trabalho, e referindo-se à sua prática como um todo, o artista diz que a única saída é recomeçar e repetir e começar de novo. Na segunda vez, mesmo com ligeiras alterações, muito difíceis de identificar pelo público, as várias implicações da performance tendem a desenvolver-se. Por essa razão, é possível olhar para Sabotagem como rastros invisíveis no espaço, uma instrução sobre “Como sabotar-se a si mesmo”. Mas, independentemente da forma como a materialidade e o design dos componentes seja definida ou controlada, há sempre uma parte em falta. E, depois de uma segunda vez, é ainda difícil definir que parte é, mas penso que é a parte intraduzível da sua estória em arte e, no final, é o que impede o pêndulo de repousar e mantém o artista a sabotar e também lhe dá novas possibilidades.

 

[1] Apesar da performance já ter sucedido, a exposição pode ser visitada até 8 de Setembro.

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