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O Teatro do Mar e a espuma dos seus dias

O Teatro do Mar tem no nome o que lhe espelha a condição profunda.

E a origem também.

Nasceu em Sines.

À beira do mar que nos impõe o horizonte aberto. A imensidão. A lonjura.

Cresceu em Sines.

Numa terra tão violenta como as ondas,

que ora nos acolhe, ora nos recolhe.

O Teatro do Mar tem o nome que lhe é devido, porque transforma as lágrimas salgadas

em marés para navegar.

Porque se aventura sem pensar e porque nos inspira, que nem oceano.

Tem 32 anos o Teatro do Mar. A idade de mulher adulta, a vontade de crescer de uma menina.

Sines é a sua casa, o mundo é o seu palco.

Quis falar-vos da história de uma companhia de teatro que está a escrever a sua. E ninguém melhor que Julieta Aurora, fundadora, encenadora, diretora artística e mãe do projecto para nos falar do Teatro do Mar.

 

Mariana Machado – “A minha avó paterna fugiu com um palhaço de circo, o meu avô era encenador das marchas populares, a tia escrevia poesia e a mãe gostava de teatro.” Julieta, havia maneira de escapar às artes ou a genética falou mais alto?

Julieta Aurora – Quando nós somos pequeninos as paixões aparecem e nós não sabemos que são paixões. Estamos aqui dentro daquela que foi a minha sala de aula e eu lembro-me quando a professora se ausentava da sala eu era um bocadinho o “palhacinho” da turma e nem sou atriz! Criava histórias, inventava personagens e mostrava-as para toda a gente rir. Se calhar isto de alguma maneira já estava cá. E para além disso tinha um imaginário muito fértil que se manifestava sobretudo na escrita. Escrevia desde muito cedo. Eu tinha um diário onde escrevia regularmente e hoje quando o leio percebo que havia ali muita verdade mas muita ficção também. Por isso, acho que sim, que herdamos um determinado tipo de sensibilidade.

MM – Como é que se constroem 32 anos de Teatro do Mar?

JA – Com muita resiliência e com muita resistência. E com muita crença naquilo que se faz. Começou em ’86. Dirigido por profissionais, mas sem a intenção de se criar um teatro profissional. Nós só queríamos sensibilizar as pessoas para o teatro e o projeto começou como amador. Mas amador é sempre algo feito também por alguém que ama alguma coisa e ao longo do tempo houve pessoas que começaram muito novas nas nossas oficinas e saíam daqui para escolas profissionais de teatro e que voltaram. Voltaram e contribuíram para profissionalizar o projeto. A qualidade do trabalho foi crescendo, o grupo já ia fazendo espetáculos fora de Sines, e a exigência de tempo e rigor fez com que tomássemos a decisão de nos profissionalizarmos e pronto, acabou por acontecer e dura até hoje.

MM – A equipa é a mesma desde sempre. Qual é a fórmula para manter o núcleo unido?

JA – É um conjunto de factores. Como em todas as relações, o importante tem sido mantermos o diálogo e alguma transparência na maneira como nos relacionamos uns com os outros. Tenho tentado fazer, dentro do possível, uma previsão dos problemas para os evitar. A verdade é que não há fórmulas para isto mas temos tentado que haja alguma coerência entre aquilo que dizemos no nosso trabalho e que se manifeste nas nossas relações. Claro que o conflito existe mas não deixa de haver respeito e consideração pelo outro. E sobretudo respeito pelo espaço do outro. Isso, a par de uma grande amizade (a do núcleo permanente de trabalho). Eu penso que obviamente há amor entre nós. Sim, muito.

MM – Houve momentos em que o teatro do mar teve de se reinventar. Esta vontade de renascer, nasce de onde?

JA – Parte da equipa. É olhar para trás, olhar para tudo o que se fez, pensar no que se pode fazer e não parar perante a adversidade. Desde um incêndio que destruiu praticamente todo o nosso património, o risco de acabar por falta de apoios, a outras coisas que nos aconteceram…a imagem da fénix é uma imagem que nos acompanha. Passamos por adversidades medonhas e regressamos com mais força.

E depois temos com a cidade uma relação de amor. Temos uma forte ligação com as pessoas e com as comunidades locais e a cidade reconhece a companhia como sua. Enche-me de orgulho ouvir dizer “o nosso Teatro do Mar”. É isso que nos faz continuar.

MM – Na Alemanha, começou a chover torrencialmente durante um espetáculo e vocês correram o risco de, ainda assim, continuar o espetáculo. Se pudéssemos descrever o Teatro do Mar num momento…era este?

JA – Um pouco, sim. Estávamos numa tournée de 3 meses e andámos quilómetros e quilómetros para lá chegar. Esse espectáculo em particular envolvia muita acrobacia, dança, e era bastante perigoso fazê-lo à chuva. Mas nós tomámos a decisão de o fazer. Chovia mesmo muito e o público não arredou pé. Havia pessoas que estavam à frente com os guarda chuvas abertos e quem estava atrás pediu para que os fechassem. De repente, toda a gente começou a fechar os guarda chuvas e o publico partilhou a chuva connosco. Foi um momento muito bonito.

É uma vida dura e é preciso acreditar muito no que se faz, mas depois há momentos mágicos que fazem a coisa valer a pena.

MM – O Teatro do Mar seria diferente se viesse de uma cidade com outra dimensão?

JA – Toda a gente sabe que os grupos que estão nas grandes cidades têm outras possibilidades. Estão perto dos órgãos de comunicação, perto dos opinion makers e tudo isso lhes dá visibilidade. Estarmos numa cidade pequena, o que tem de melhor é a relação com a comunidade. A dificuldade, é essa invisibilidade. O facto de estarmos numa cidade pequena também nos podia ter dado a ideia que por sermos os únicos, não precisaríamos de fazer esforços para garantir a nossa sobrevivência. Só que por sermos de uma terra de mar, temos o horizonte aberto e isso faz com que não fechemos o olhar e sobretudo não nos sintamos inferiores naquilo que fazemos porque trabalhamos para isso.

MM – Começaram como teatro de rua e na rua continuam. A rua é a vossa praia?

JA – A rua para nós começou porque o Teatro do Mar nasceu quando ainda não havia esta rede de auditórios a nível nacional e nós queríamos levar os nossos espetáculos ao maior número de pessoas e lugares. Começámos a fazer teatro na rua e munimo-nos dos equipamentos que precisávamos para garantir os espetáculos – luzes, estruturas, figurinos. Foi assim que adquirimos esse know-how de nos termos que adaptar a um tempo em que não havia tantas facilidades. E assim fomos crescendo.

Começamos como teatro na rua e hoje somos teatro de rua.

Fundimos o teatro mais físico com o circo contemporâneo com a dança, o vídeo, e por isso juntamos à nossa equipa outros artistas para colaborarem consoante o projeto.

MM – Qual o impacto que o teatro de rua tem nas pessoas que as salas não têm?

JA – Quando instalas um espetáculo num espaço público, isso interfere com o quotidiano das pessoas. Quando há um espectáculo em sala, as pessoas deslocam-se até lá sabem ao que vão. Na rua, não. A menos quem tenha planeado ver-nos, apanham-se as pessoas de surpresa e deparam-se com o nosso trabalho.

Para além disso, o objecto artístico transforma os espaços das cidades. Cria memórias e relações com os lugares e espaços públicos. E é um espaço de encontro, o espaço de rua proporciona o encontro – e tudo o que proporcione o encontro é urgente nos dias de hoje.

MM – Como surgiu o MAR – Mostra de Artes de Rua?

JA – Urgia que nascesse no sul do país um festival dedicado às artes de rua. Temos o Imaginarius em Santa Maria da Feira, mas o sul estava despido de algo que sensibilizasse para esta arte – sensibilizar para o crescimento das artes de rua. E foi nesse sentido que nasceu o MAR. Mas ainda é um bebé, com 2 edições apenas.

MM – Trabalham com pessoas dos 8 aos 80. Literalmente. Como é que se lida com 2 gerações tão distintas?

JA – O trabalho com as crianças é um trabalho regular e diário. Música para bebés, oficina de teatro.

Com os idosos são projetos esporádicos. O nosso último espetáculo foi sobre eles. “A idade do silêncio” e obrigou-nos a passar todos os dias no lar da Santa Casa para perceber como é viver ali. Eu sou particularmente sensível a este tema. A esta questão da 3ª idade e do envelhecimento, talvez porque os meus pais tinham uma casa com janelas viradas para um lar. E eu, de cada vez que as observava, via pessoas no mesmo sítio a olhar para o vazio. A solidão é por isso também um tema que atravessa muitos dos nossos trabalhos. É avassalador o afastamento e rejeição que quem envelhece sente hoje em dia. As pessoas deixaram de envelhecer em casa, os familiares cada vez se relacionam menos com eles. Há pessoas nos lares que tapam a cara com vergonha de ser velhos. Há gente lúcida nas camas a olhar para o teto – mas que lucidez é esta? Há casos graves de demência e são cada vez mais. Há muito a falar sobre este assunto da velhice, sobretudo aos mais novos.

MM – O processo criativo, como continua a dar frutos?

JA – Parte sempre de uma inquietação. Um livro, uma conversa, qualquer coisa que veja…

Às vezes preciso de falar sobre isto ou aquilo, e no meu caso eu tento fazer um trabalho que contribua para alguma coisa. Para uma sociedade mais justa, mais consciente, mais equilibrada. O meu trabalha e motivação passam bastante por isso. O que me motiva é esta responsabilidade e urgência de ter de falar do que é realmente necessário falar.

 

Atualmente a companhia anda em tournée com InSomnio e assim continuará até ao final do ano. A peça estreia em Sines este fim-de-semana (22 e 23 de Junho) e fala-nos do sono e do sonho, do equilíbrio entre o corpo e o espírito, o peso e a leveza, a escuridão e a luz, o esquecimento e a memória. Vai correr o país de norte a sul e abre caminho até Barcelona. Não faltarão oportunidades para ver a peça. Até lá, vale a pena conhecer um pouco mais sobre o Teatro do Mar.

Tem 24 anos mas acredita que a infância dura a vida inteira. Talvez seja por isso que sonha com filmes do Spielberg e é apaixonada por livros ilustrados e desenhos animados. Nasceu em Sines, mora em Lisboa mas tem um coração tropical que a leva constantemente ao outro lado do atlântico e à cultura latina. Trabalha como copywriter em publicidade e dedica-se à escrita nas horas vagas – e é aí que se vai perdendo, para se encontrar.

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