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Michael Biberstein não orienta o olhar do espetador na sua pintura

Não deixe de passar pela Culturgest para se deliciar com a exposição antológica do artista suíço-americano Michael Biberstein, que irá estar até ao mês de setembro, sob a curadoria de Delfim Sardo. O objetivo da mostra consiste em apresentar os trabalhos de décadas mais recuadas, mas também peças inéditas, raramente vistas, algumas surpreendentes, mesmo para os conhecedores da sua obra.

Do ponto de vista museográfico, a exposição está dividida em dois núcleos que correspondem a períodos diferentes embora não tenha sido organizada segundo um percurso linear e cronológico, mas sim explorada sobre os temas que mais motivaram o artista.

A primeira parte foi desenhada com obras dedicadas à espacialidade, com peças produzidas nos anos 70/80, incluindo o desenho, uma forma de expressão peculiar como no contorno de objetos traçados na parede. A segunda versa a pintura com toda a sua plenitude, permitindo a imersão na totalidade do espaço.

Num primeiro contacto, aquilo que nos chama mais a atenção é a imensidão dos céus, das paisagens únicas e etéreas. A montagem das peças de dimensões reduzidas respira livremente com momentos de revelação e rigorosa marcação no espaço.

Na transição das galerias, não deixem de olhar para cima, onde migram para a parede apontamentos ínfimos expressivos que falam por si e contrastam com as poderosas telas que Michael nos habituou.

Desacelerar a perceção, contra a voragem do tempo (Biberstein)

Surge uma série de quadros dípticos e trípticos com paisagens de céus interrompidas por uma faixa negra, um momento de rutura numa clara com alusão a um tempo musical. Por um lado, existe a profundidade falsa – a paisagem pintada – e por outro, a superfície negra, que não pretende falsear nada. É uma interrupção do fluxo do olhar na paisagem, que esbarra numa zona cega de pintura, como define Sardo.

Nos primeiros passos da sua carreira, o artista seguiu o conselho do professor norte-americano David Sylvester ao escolher uma profissão mais imbricada, a de tentar experimentar, fazer.

Começou a pintar em 1972, data da sua primeira pintura mais antiga (figurada nesta mostra), para mais tarde começar a compor telas de grande formato, apelando à contemplação do eterno e do sublime.

Michael dizia que as paisagens que pintava não existiam em mais lado algum, que aquilo que criava eram paisagens da pintura através de pintura de paisagem. Segundo Delfim Sardo, o artista estava, assim, a questionar a paisagem, não apenas como criação (mesmo quando é uma representação ilusionista) mas como conceito.

No início de 80, parece chegar a um limite do pensamento concetual sobre a pintura, na decomposição do processo e, a partir de 82, esse interesse pela espacialidade fá-lo iniciar um caminho pela teoria da paisagem.

Trabalhou a questão do espaço de uma forma aprofundada, numa constante preocupação com a marcação do lugar, que configura todo o seu universo, sendo o título da exposição com a letra X uma clara alusão ao sinal que se marca no chão para determinar o lugar de alguém ou de algo.

Debruçou-se na investigação da definição do lugar do espetador no espaço da sala captando-o no enredo do seu próprio campo visual numa interação fenomenológica com a obra de arte.

A particularidade na sua pintura sem narrativa foi fazer grandes planos tão amplos que se substituíam ao campo visual onde o nosso olhar navega junto dela, entre o intenso e o difuso.

Mais tarde, a sua pintura deixou de residir sobre o espaço, mas passou também a ser sobre a luz, não só através do olhar, mas também do plano físico.

Ausente da exposição está a grande obra de arte, que consiste no teto pintado para a Igreja de Santa Isabel, o curador optou por não fazer referência, afirmando que o melhor é ir vê-lo.

Bieberstein sabia manter as amizades feitas de cumplicidades artísticas que, entretanto, desenvolveu em Portugal ao longo de trinta anos, Sendo revelador esse ambiente no filme O meu amigo Mike ao trabalho de F. Lopes onde filmou a viagem interior de uma pintura, transparecendo o silêncio, o mistério e a magia.

Manuela Synek é colaboradora da revista Umbigo há mais de dez anos. À medida que os anos vão passando, identifica-se cada vez mais com este projeto consistente, em constante mudança, inovador, arrojado e coerente na sua linha editorial. É Historiadora e Crítica de Arte. Diplomada pelo Instituto Superior de Carreiras Artísticas de Paris em Crítica de Arte e Estética. Licenciada em Estética pela Universidade de Paris I - Panthéon – Sorbonne. Possui o "Curso de Pós-Graduação em História da Arte, vertente Arte Contemporânea", pela Universidade Nova de Lisboa. É autora de livros sobre autores na área das Artes Plásticas. Tem participado em Colóquios como Conferencista ligados ao Património Artístico; Pintura; Escultura e Desenho em Universidades; Escolas Superiores e Autarquias. Ultimamente especializou-se na temática da Arte Pública e Espaço Urbano, com a análise dos trabalhos artísticos onde tem feito Comunicações. Escreve para a revista Umbigo sobre a obra de artistas na área das artes visuais que figuram no campo expositivo fazendo também a divulgação de valores emergentes portugueses com novos suportes desde a instalação, à fotografia e ao vídeo, onde o corpo surge nas suas variadas vertentes, levantando questões pertinentes.