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A outra dimensão da arte, depois do espaço e do tempo. O cheiro.

O olfato é o sentido que mais memórias despoleta. O aroma é o catalisador preciso para uma torrente elétrica de sinapses que rememoram, algures entre a amígdala e o hipocampo, um passado, uma emoção, uma imagem mental subtraída ao quotidiano. O cheiro é uma viagem interior, pessoal, uma colisão de tempos passados e presentes.

Neste contexto, conduzir-se uma exposição através do olfato é abrir um campo de possibilidades e experiências na arte contemporânea, expandindo-a para lá das suas qualidades óticas e hápticas e confrontando-a com um património potencial de memórias. Para além da imersão visual e sonora, para além da tatilidade, o cheiro completa uma espécie de holismo que a arte contemporânea tem desenvolvido sobretudo através da instalação. A recorrente noção de Gesamtkunstwerk, de obra de arte total, torna-se efetivamente total ao convocar todos os órgãos sensoriais.

Nowhere Fast é uma exposição que nos dá essa outra dimensão possível da arte olfativa, num franco diálogo com o desenho e a cerâmica, a que não escapa a carga espiritual – religiosa, se quisermos – do lugar onde se instala – uma ermida. E pese embora a economia de obras selecionadas, de fundamentalmente cinco elementos, o certo é que esta é uma experiência imensa.

As obras de Teresa Gonçalves Lobo introduzem-nos na visualidade da arte. Três desenhos são o resultado de uma coreografia esforçada, fisicamente dura, de um corpo que se entrega ao papel para o riscar. O formalismo toca o expressionismo abstrato, que toca o espaço alargado do desenho ao atirá-lo para o chão da capela. São três desenhos que pulsam vitalidade, três chamas que se fundem numa fragrância também ela alusiva a fogos sagrados, de incensos queimados, cinzas e terra do perfume concebido por Sven Pritzkoleit, com direção artística – assim sublinha (na primeira pessoa) o texto curatorial – do curador Miguel Matos. No centro, a mediar a força irradiada pelos desenhos, uma peça em cerâmica de Thomas Mendonça sugere um organismo ardido, um órgão incendiado a exalar – um último suspiro – o perfume que preenche a atmosfera da nave.

O conceito, todavia, parte de uma música com o mesmo título da exposição, do filme Streets of Fire. Mas se o filme se presta à rapidez dos da ação, com motards e cenas fugidias de perseguição, esta é uma mostra que requer tempo, um tempo em nada compatível com o do filme. O fogo da arte é o da chama permanente. O tempo da arte é mais perene que caduco. O do cheiro, assim afirma a ciência, perdura durante meses. Longe de locais hollywoodescos, em que a vida aspira a um thriller como condição existencial, estamos, aqui, perante um lugar de meditação, de dignidade, de sacralidade.

Para ser visto até 20 de junho, na Ermida da Nossa Senhora da Conceição, em Belém, Lisboa.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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