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A construção da identidade pela arte

We are not ourselves não é uma exposição acabada. Tudo está por terminar, por colar, por limpar, por fixar. Plásticos por retirar, fita-cola por descolar, tinta por pintar, telas por posicionar. Os utensílios de montagem estão expostos, despudoradamente, como se alguma vez pudessem vir a constituir objetos de arte, de museu. Em perpétua montagem, os autores semeiam a dúvida e enunciam uma crítica à finitude pura das galerias e museus que esgotam as suas exposições assim que terminam as respetivas instalações.

Nesta perspetiva, em We are not ourselves, Elmgreen & Dragset compõem o que de mais original, mordaz e combativo existe na arte contemporânea, sem esquecer uma certa poesia que se vai estabelecendo paulatinamente, olhar após olhar, camada após camada, leitura após leitura. Os artistas concebem um hino à incompletude e, por esta via, uma crítica lúcida ao sistema e às instituições da arte, que fica a percolar por entre a memória neuronal durante dias. Porque não há fim para esta exposição. Porque não há fim na vida nem na morte, de nome gravado na sepultura marmórea para a eternidade – a legenda que atesta a materialidade e existência do que antes foi. E, se nada está terminado, se nada está acabado, muito está por viver. Ou seja, esta é uma mostra que transborda de vitalidade e estimula o pensamento.

Este texto é um descortinar de visões, na miríade de interpretações que esta exposição oferece, procurando não encerrar e limitar demasiado os conceitos que lhe são inerentes e pretendendo apenas desvelar o estritamente necessário para uma visita obrigatória.

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#1 O título. We are not ourselves remete para algo de autopsicográfico, de antológico. E, de facto, esta é a primeira retrospetiva em Portugal desta dupla dinamarquesa. Os artistas foram convidados a olhar para o seu percurso artístico para daí conceberem um diálogo mais ou menos franco, mais ou menos encenado, do que é a sua obra e a sua vida. Reconhecer que não somos nós próprios é lembrar as sábias e precoces palavras de Rimbaud: “Je est un autre”. Uma vida, uma obra de arte, é uma recursão de muitas outras, de múltiplas referências e inspirações que se consubstanciam numa individualidade ímpar, numa materialidade única. As várias legendas de obras expostas, intituladas Auto-retratos, remetem para artistas e peças determinantes na construção identitária e artística de Elmgreen & Dragset.

Na verdade, tudo nesta mostra pode ser visto como um autorretrato sem, contudo, enveredarmos na atual cultura egocêntrica da selfie. Uma lata de tinta sobre um jornal não pode ser entendida apenas na sua formalidade e objetualidade. O que diz o jornal; que data mostra; a lata de tinta branca aberta, com tampa de tinta preta? Lemos algo alusivo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo – a homonormatividade a preocupar os artistas (“nos últimos anos assistimos a um desaparecimento das subculturas”)? (Até RuPaul’s Drag Race se tornou mainstream…) A crise de refugiados na União Europeia – um comprometimento político por parte dos artistas? Duas almofadas usadas esculpidas em bronze e pintadas de branco remetem para outro artista, mas dão acesso a uma imagem íntima, de dois corpos lado a lado, duas velas brancas, em mármore, – outra obra, 47 minutos / 1 hora e 52 minutos – que sinalizam duas vidas, uma a queimar mais depressa que a outra, mas qualquer uma sem arderem até ao fim. Na parede, a sujidade de um quadro ausente. Um retângulo impercetivelmente desenhado, com guarda no chão a evitar uma aproximação, recebe o título de Portraits of the Artists. Não há imagem, apenas a ideia e uma conceção absolutamente essencial e económica, o necessário para ativar o cérebro e a imaginação. Ingar Dragset di-lo com franqueza: “nós gostamos de despoletar a imaginação das pessoas e ativar os processos cerebrais e emocionais [de cada um].”

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#2 O desfasamento ou a desvinculação entre texto e imagem, como já se percebeu, é outra das tónicas da exposição. De outra forma, o texto é imagem é obra de arte e vice-versa. Na ampliação das legendas de obras, os artistas consagram-nas e dão-lhes um estatuto que habitualmente lhes é interdito. Título, artista, dimensão e materialidade são tornados objetos de arte. O displacement duchampiano é aqui relembrado, para se jogar com os signos e os significados, com o que se mostra e o que se esconde.

É assim que a crítica ao museu surge. De acordo com Michael Elmgreen, “ainda hoje grandes instituições como MoMA ou Guggenheim expõem as obras de modo muito convencional. E nós sempre tentamos lutar contra isso porque não gostamos de legendas (labels) (…) ao lado dos trabalhos. Além disso gostamos de evidenciar as rotinas dos museus que os envergonha: tudo tem que estar perfeito, as legendas que são colocadas por motivos educacionais, mas que lhes desagrada, os guardas… Eles não gostam dos guardas! Uma vez fizemos uma performance na qual constavam apenas guardas. (…). Porque [os museus] tornaram-se um pouco preguiçosos e menos inovadores”.

De igual modo se pode perceber esta mostra, ou pelo menos parte dela, como uma peça de literatura. Se é texto (visual), é para ser lida, contada, falada: um poema feito de títulos de obras, de cadências, pausas, interjeições e entoações, uma composição de frases de outros tornada original. Afinal, não somos inteiramente nós próprios.

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#3 A vida; a morte da matéria, dos corpos, da arte; a memória do que já não existe; a imortalização. Uma aproximação à legendagem informa-nos que, na verdade, não estamos na presença de telas, mas de mármore. Cada uma é escrupulosamente gravada em mármore de uma brancura imaculada, semelhante àquele usado em monumentos fúnebres ou elegíacos. O mármore imortaliza.

Nesta perspetiva, é impossível dissociar esta visão da da crítica museológica: do museu como lugar de morte onde a arte e os objetos vão morrer, um pouco em linha com o que Adorno defendia ao associar os museus a mausoléus. O museu-monumento é inacessível à vida. A imortalização da arte retira-lhe proximidade, cristaliza-a num inerte incompatível com as dinâmicas da vida. E depois da morte, só resta a relembrança e a imaginação. A mente é obrigada – talvez por sobrevivência – a recriar, mais ou menos fielmente, a imagem que já não vê e apenas lê.

Também 47 minutos / 1 hora e 52 minutos prova esta realidade dicotómica da vida e da morte: duas velas em mármore, de tamanhos distintos, sugerem, como referem os artistas, uma vida a queimar mais depressa que a outra. A ausência de chama retoma à infinitude ou incompletude. À semelhança das velas de Gerhard Richter, estas velas não ardem até ao fim – duas vidas gravadas num perpétuo queimar imaginado sem desgaste, imutáveis: um testemunho.

Alternativamente, podíamos considerar antes a noção de ausência, de legendas sem imagem, de retratos sem retrato e nada mais que a marca de uma tela subtraída à parede, de velas sem chama, de calças vestidas, abandonadas no chão. Esta falta-de-qualquer-coisa é a manifestação de uma inquietação pulsante que conduz à busca de algo para completar, para preencher, para colmatar uma lacuna.

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A retrospetiva We are not ourselves não pode deixar de ser entendida como uma espécie de autopsicografia inacabada, ensaiada pela dupla de artistas Elmgreen & Dragset. A retrospeção, de resto, convida a isso mesmo: rever e dar sentido a uma ideia, um percurso, uma vida. Revemo-nos entre fragmentos (nossos e de outros) para nos (re)construirmos através deles.

Entre identidade, sexualidade, a crítica institucional, a duplicidade texto-imagem e as questões políticas da atualidade, a obra destes artistas é provavelmente das mais desafiantes na história da arte contemporânea. E ao contrário do que nos têm habituado, com grandes performances e instalações a ocuparem galerias de museus imensas, esta é uma mostra pequena, mas repleta.

Há também o humor, embora mais contido do que noutras obras do vasto repertório que detêm, e não se deixa de notar outra dimensão afetiva, de cumplicidade. Embora Untitled – as duas almofadas em bronze pintadas de branco – remeta para a obra de González-Torres, esta é uma peça cuja interpretação vale por si: dois corpos lado a lado a partilharem o sono. As duas velas também: duas presenças coniventes a testemunharem a vida a queimar o tempo.

Que We are not ourselves se faça numa galeria privada, diz muito sobre a pobreza do sistema da arte português – desde a inexistência de meios financeiros, à inexistência de crítica. Afinal, estas legendas são mais objeto de museu do que de galeria.

Até 30 de junho, em Cristina Guerra Contemporary Art.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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