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Entre fronteiras: e se elas fossem para Moscou?

A escolha importa desde o início. Mesmo quando, porque mundana e trivial, não nos apercebemos dela. Escolher a fila da direita ou a da esquerda para entrar na “sala livre” do Teatro Nacional D. Maria II significaria ainda antes do espetáculo começar, sem que eu soubesse, separar os espectadores para os encaminhar para dois espaços distintos: enquanto metade assistiria à peça de teatro, os outros observariam a projeção do filme realizado em direto, a partir de gravações feitas em cena. Logo aí, uma de duas experiências foi irreversivelmente selecionada.

Perante esta sucessão de escolhas – voluntárias ou não – de que a vida se vai fazendo, “como é que a gente faz para mudar?” é a questão que se coloca. Do ser que se foi desenhando ao mundo onde tudo isto acontece. “É como se a gente estivesse na beira do trampolim de uma piscina e a água em baixo, azul, cristalina, brilhando e o passado em fila empurrando a gente para a frente e, ao mesmo tempo, segurando o salto”. Sabemos que a água – no seu estado líquido –, aqui entendida como futuro, é matéria que não se agarra e não se molda. Somos, no entanto, feitos dela.

Irina (Julia Bernat) faz 20 anos e traz com eles ainda a energia da convicção e a lucidez da limitação. Olga (Isabel Teixeira) é a estrutura da casa habitada. Maria (Stella Rabello) projeta na sua ideia de amor a própria salvação. São As Três Irmãs (1900) de Antón Tchékhov, reinterpretadas por Christiane Jatahy. No mesmo dia em que o pai morreu há um ano atrás, hoje é a festa de aniversário de Irina, e toda a gente está convidada. As câmaras de filmar são também protagonistas. Há sumo, champanhe, bolo, salgados. O peso da escolha volta a cair sobre mim: ter-me sentado no centro da plateia para ter uma perspetiva global comprometeu-me o acesso aos aperitivos.

E se elas fossem para Moscou? explora a fronteira como território livre para a criação do artista e para a interpretação pessoal do observador: entre teatro e cinema, ator e personagem, personagem e espectador, passado e futuro, presença e ausência, sonho e verdade, ficção e realidade, expectativa e desilusão. A membrana difusa que separa os dois lugares permite uma relação simultânea de quebra e continuidade. É nessa linha de espessura variável – corda bamba? – que Christiane Jatahy propõe que nos reinventemos. Porque, contrariamente ao sonho de Maria, não temos uma segunda vida para passar a limpo o rascunho da primeira.

Quando essa fronteira se revela visível e bidimensional, dá vontade de a ultrapassar, como no espelho de Alice. Como personagem, estava eu a dançar no palco da festa – na realidade, bloqueada no centro da plateia, mas a fazê-lo na minha imaginação e não com menos verdade por isso – e perguntava-me quem me estaria a ver na tela de cinema, do outro lado. Seria possível atravessar a tela e invadir o outro espaço? “Como é que a gente faz para mudar?” Lá, no cinema, o olhar era enquadrado e os momentos, que não conseguimos apanhar no teatro, imortalizados. Ali, no teatro, como na vida, não conseguíamos estar em toda a parte, e tudo era efémero.

Paradoxalmente ou não, quando Olga é solicitada a imaginar um mundo ideal, idealiza-o sem fronteiras. É a utopia. Ao contrário de na obra de Tchekov, em que ir para Moscovo surge como um regresso ao lugar de infância, aqui significa a promessa de um lugar novo, a expectativa de mudança. Mas e quando “não houver mais mistério?”.

E se elas fossem para Moscou? esteve em cena de 11 a 13 de maio como segunda peça de uma trilogia composta também por Julia, decorrida de 4 a 6 de maio, e por A Floresta que Anda, que irá acontecer de 18 a 20 de maio, no Teatro Nacional D. Maria II. Christiane Jatahy, reconhecida como uma das artistas mais relevantes do panorama teatral contemporâneo, é a Artista na Cidade de 2018 – iniciativa da CML/EGEAC. Todo o programa da sua estadia em Lisboa pode ser consultado aqui.

Zara Ferreira (n. 1988) é arquitecta e mora em Alfama. Foi investigadora do projecto EWV_Visões Cruzadas dos Mundos, colaborou com o atelier Tetractys Arquitectos e participou na representação portuguesa na 14ª Exposição Internacional de Arquitetura, Bienal de Veneza de 2014, também como copy-editor do Journal Homeland-News from Portugal. De 2014 a 2018, foi secretária-geral do Docomomo International (the International Committee for Documentation and Conservation of Buildings, Sites and Neighbourhoods of the Modern Movement) e co-editora do Docomomo Journal. Entre Lisboa (IST) e Lausanne (EPFL), está actualmente a fazer doutoramento sobre estratégias de preservação dos conjuntos habitacionais do pós-Segunda Guerra Mundial na Europa. Nas horas vagas dedica-se à viagem, ao teatro, à escrita, à fotografia e ao que mais o acaso lhe vai pondo na frente.

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