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A mão que cartografa. Hanns Schimansky em discurso direto.

Hanns Schimansky é um artista alemão cuja prática se baseia no desenho. A exposição The Sound of Drawing, patente na Galeria Jeanne Bucher Jaeger, é a síntese cabal de uma linguagem e expressão que o autor tem desenvolvido ao longo de décadas e que conferem ao desenho – uma prática frequentemente esquecida pela história da arte e que a curadoria e a arte contemporânea têm vindo a desenterrar – qualidades quase cartográficas e sonoras.

Numa troca de correspondência eletrónica, Schimansky fala-nos dos momentos mais marcantes da sua vida formativa, da história europeia recente, a construção e destruição do Muro, a Universidade, o campo alargado do desenho e a sua materialidade. Certamente um documento insuficiente para abordar uma carreira tão proficiente e original, mas talvez o suficiente para desvelar algumas das motivações e referências determinantes na sua obra.

The Sound of Drawing pode ser vista até 9 de junho, na Galeria Jeanne Bucher Jaeger, em Lisboa, e constitui uma excelente forma de observar – contemplar, se preferirmos – os portfólios individuais dos artistas representados por esta reputada galeria francesa, agora em Lisboa.

 

José Pardal Pina – Quando olho para os seus desenhos, há algo que salta imediatamente à memória: topografias, geografias, cartografias… Sei que teve a sua educação formal em engenharia de agronomia. Quão determinante ou importante foi este conhecimento para o seu trabalho artístico?

Hanns Schimansky – Eu cresci em Mecklenburg. O Mar Báltico fica exatamente à frente, enquanto planícies tingem a paisagem, num confronto permanente com o horizonte. Este foi o caminho, ao que me parece, que levou o formato horizontal a assumir-se como a força dominante na minha arte.

Com base na minha licenciatura em agronomia, uma longa experiência de cinco anos a trabalhar com uma grande debulhadora, tornei-me capaz de memorizar enormes experiências paisagísticas e aprendi a manter-me atento ao crescimento das plantas.

Durante os dez primeiros anos, desenhei paisagens e retratos, quase sempre de fronte para a natureza.

Desenvolveu-se assim uma vasta memória de diferentes formas. Mais tarde, a minha afinidade por desenhos a aparo e tinta desembocou num esforço de redução: minimizando os meios e permanecendo, ainda assim, numa zona produtiva. Existem fronteiras, energéticas zonas fronteiriças, equilíbrios instáveis, pesadas considerações de balanços energéticos entre a terra e a pintura – o imediatismo como um padrão de vida: transformando a surpreendente intensidade de um momento presente em algo que é preferencialmente longo e homogéneo. As minhas obras de grandes dimensões  foram todas concretizadas num dia. O momento importa, até mesmo as suas confusões e erros. Amanhã, a constelação será diferente.

Com o início da minha era como berlinense, o capítulo da agricultura chegou ao fim.

O ensino, enquanto mestre-estudante na academia de artes da RDA, representou um novo começo.  Berlim edificava-se como uma enorme cidade, mesmo no tempo da Berlim Ocidental e Oriental. Acredito que o anonimato e a energia de Berlim, e a sua proximidade física à competição, são peças importantes desta grande metrópole. E de facto é. Berlim, após a viragem, tornou-se um lugar repleto de energia, um excelente habitat para a arte.

JPP – Parece-me que o Hanns está sempre a explorar, a procurar e a construir novos territórios – como se trabalhasse permanentemente uma paisagem, cartografias imaginadas que se constroem e desconstroem elas mesmas numa superfície que não é um suporte passivo de linhas e manchas. Neste sentido, é seguro assumir que o desenho, no seu ponto de vista, não é um trabalho bidimensional? Parece que expande a prática e os limites deste suporte que é o papel. Como é isso veio a acontecer?

HS – A arte começa sempre com experiências emprestadas. As pinturas de Joseph Beuys tiveram um especial e duradouro impacto sobre mim. Também me impressiono com as obras de Paul Klee e Joan Miró. Mais tarde desenvolvi um gosto pelas obras de Louise Bourgeois, Cy Twombly, Phillip Guston, Brice Marden ou Terry Winters.

O meu crescimento pessoal nasceu nalgum lugar entre os desenhos clássicos e a vontade de experimentar com um modelo que considero ser cimeiro para mim: o movimento Bauhaus. A partir desse espetro, nasce a ação sinistra. (Pina Bausch)

Tem tudo a ver sobre como manter os sistemas abertos. Ignorando acordos. O meu trabalho inclui aspetos intuitivos e conceituais. A minha ação vem daquilo para que se olha. É importante encontrar um terreno que proporciona uma perspetiva para o jogo. Momentos surpreendentes surgirão na sua jornada. A experiência passa por estabelecer um código de pintores, carregado e encurtado, e dar um novo fôlego a um enquadramento de associações.

JPP – Como classifica o desenho para lá da sua habitual associação a coisa meramente técnica, inacabada, um meio para atingir um fim?

HS – Só posso falar sobre a minha tentativa, o meu esboço: colocando o processo de abrandamento, uma desaceleração, em frente do nosso mundo veloz e astutamente comunicacional.

JPP – Falemos sobre o papel. Como escolhe a gramagem, a textura, a tez. Suponho que trabalha com muitos tipos de papel. Usa o que está ao seu alcance, ou é todo um processo calibrado e pensado com cuidado?

HS – O meu trabalho procura estabelecer bastante com pouco. Mas o inverso é igualmente valioso. O material traz novas ideias e soluções. Como se comporta um lápis ou uma caneta de desenho nesta superfície suave ou naquele cartão rugoso, ou sobre fino papel feito à mão? Como posso arrastar, empurrar ou rodar a caneta? Alguns materiais colocam-nos numa rota que não esperávamos. Precisamos de estar prontos e conscientes.  Coincidências controladas poderão ocorrer, as quais nos desafiam a repensar e a reclassificar tudo. Tratam-se de golpes de sorte. Teremos de mobilizar todas as nossas capacidades para chegar a uma conclusão. E, muitas vezes, isso é o mais surpreendente.

Tenho uma grande coleção de papéis.

JPP – Voltando atrás, há outras qualidades na obra do Hanns que não mencionei há pouco e que gostaria que elaborasse: a viagem e a música. Parece que cada linha corresponde a uma viagem coreografada pela sua mão. E depois a música – cada risco, linha, ponto, parece fazer parte de uma composição de diferentes compassos, ritmos, tempos.

Costuma abandonar-se em cada desenho, como a maior parte das pessoas quando viajam? E quão importante é a música na sua vida e trabalho?

HS – Durante a vigência da RDA, o free jazz parecia ser particularmente subversivo – o que me atraía muito. Admiro a intensidade dos músicos. Estimula-me. São amigos próximos.  Esta música cria uma espécie de situação propícia no atelier, dá  motivação e leva a outras referências – muitas analogias.

Muitas vezes, abrem-se quartos amplos que permitem uma liberdade inimaginável. Esta música é uma arte importante na minha vida.

JPP – Uma pergunta rebuscada e talvez inapropriada, mas a arte contemporânea bebe muito das atuais situações políticas. A Alemanha passou por um longo e difícil período negocial entre partidos políticos depois das últimas eleições. Qual é o seu ponto de vista no que respeita às grandes questões políticas dos nossos tempos: a EU, a crise de refugiados, o instável equilíbrio económico e a globalização?

HS – A imensa complexidade desta questão quase não pode ser respondida neste formato. Só nesta dimensão:

– A edificação e a queda do muro de Berlim foram acontecimentos importantes na minha vida que determinaram o nosso modo de viver e pensar. O tempo, sem uma parede, é agora um tempo mais longo do que aquele com uma parede. Uma declaração relativista. Mas não sem emoção.

– A arte pode ser política de muitas formas. Aqui ficam nomes importantes na história da arte alemã em relação a isto: Kollwitz, Dix, Grosz, Meidner, Grundig, Heartfield, etc. O artista sueco Curt Asker disse-me uma vez: “Penso que há Klees alemães e Wagners alemães. Você é um Klee alemão”.

Mas o que retenho fundamentalmente é isto – independentes entre si, as pessoas dizem-me sempre: “Eu vivo com a sua arte. Todas as manhãs quando acordo, quando vejo o seu desenho, ele faz-me feliz e confiante, fortalece-me para o dia e endireita-me”.

 

 

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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