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A curadoria como prática de afetos, segundo Jaime Welsh

O nosso comportamento e interação sociais desenvolvem-se segundo linguagens muito específicas e mediante as paisagens em que crescemos ou vivemos. Esta foi a maior descoberta dos estudos de género que por sua vez obrigou à releitura dos cânones de então e à dilatação das áreas de investigação de muitos estudos, incluindo os da História da Arte.

Em Gender Trouble, Butler frisou a importância do argumento social e das múltiplas linguagens que lhe são afetas na construção do Eu. Códigos, expressões, gestos, linguagens – termos que passaram a incluir o jargão académico nos estudos culturais e visuais e que, por esta via, forçaram à revisão da história da arte e da construção da mesma. Relembre-se o que então se concluiu: que esta disciplina, para além de masculinizada, era inicialmente homossexual, pois que o olhar do seu fundador, J. J. Winckelmann, era especialmente atento à beleza de jovens atletas gregos, com especial ênfase, segundo Whitney Davies, na androginia e no hermafrodita. E, inadvertidamente, A História da Arte na Antiguidade deixa entrever essa visão.

Significa, então, que a arte e a história não podem ser vistas sem o devido contexto em que foram construídas e, para tal, sexo, sexualidade, género, raça, corpo, cultura, sociedade, geografia e identidade são convocados para o debate das respetivas construções. Tanto no que isso tem de positivo como de negativo, de objetivo e subjetivo, do que é e do que se deseja que seja.

Para o que aqui importa, a cultura queer – vinculados à cultura gay, sendo que aqui cultura tem um sentido muito abrangente e indissociável de uma comunidade muito exclusiva – é, talvez por natureza, a mais interessante do ponto de vista visual e artístico. Também político, também comunitário. Mas esta é uma cultura repleta de códigos e linguagens visuais francamente ousados e que mais combateu a normatividade – a heteronormatividade – vigente, até, digamos, à década de 80 sobretudo. Os protestos de Stonewall, a descriminalização das relações entre pessoas do mesmo sexo e a propagação da SIDA, trouxeram para a praça, para os media, para as galerias e museus, uma série de clamores que dariam visibilidade a esta cultura/comunidade minoritária.

A exposição Coded Encounters, comissariada por Jaime Welsh, é um retrato intimista desta cultura, da linguagem que a enforma, dos códigos que a tornam tão peculiar e subversiva e, por esta via, é um contributo para os queer studies. Um olhar não é um simples olhar: é uma comunicação ou afirmação de desejo e poder. Um gesto não é um simples gesto: é um contar, um falar, uma vontade, um desafio. Uma conversa no Tinder, Grindr, Scruff, carrega todo um léxico específico de trocas, sexo fácil, rápido e, paralelamente, uma melancolia solitária.

Streams, de Abri de Swardt, é uma série de quatro fotografias que registam outras fotografias, numa meta-recursão típica de uma comunidade propensa para a visualidade das imagens, de fotografias que circulam abundantemente pela net e pelas plataformas digitais de encontro. É uma encenação de fotos deitadas ao chão, abandonadas entre folhas, ou a flutuar sobre a água, deixadas nas correntes da imprevisibilidade.

Mas são talvez as obras Sp1ra, de Kevin Brennan, e mise-en-scenes, de Welsh, que melhor expõem as hesitações e tensões da comunidade gay. O primeiro pelo vídeo de dois personagens que deambulam por entre ruínas e caminham no sentido de uma vasta paisagem inóspita entre cumplicidades, afetos e provocações; o segundo pelo uso da linguagem cinematográfica do mise-en-scène que se socorre do cenário, do décor, da posição precisa da câmara, para ampliar as cargas emocionais do encontro, do desencontro, do abandono.

Embora não seja expresso, em ambos os casos, como em Streams também, parte-se da encenação, da máscara performativa como agente de comunicação e expressão. Os comportamentos estão velados, o corpo finge para mostrar o que quer. Talvez uma angústia, um recalcamento; talvez uma pulsão incontrolável e arrebatadora.

O que esta mostra introduz de original é a franqueza de assumir que esta é uma curadoria de afetos, mais que afinidades. De encontros fortuitos que conduziram a um projeto artístico mais ou menos duradouro. Em jeito de síntese, “Friendship as a way of life” é uma expressão que o artista sabiamente empresta a Foucault para vincar esta necessidade de perpetuar um sentimento de comunidade no qual esta exposição assenta. E talvez isso, segundo muitos, possa parecer utopia numa época de total desintegração; mas tal não significa que não se deva continuar a tentar. Afinal, tudo é política.

Coded Encounters é uma exposição elegante, sugestiva sem ser gráfica, que mostra muitas das ambivalências da cultura queer. Não tem a combatividade garrida de muitas outras que tocam estas temáticas. É antes um sentimento sincero, expresso com calma e clareza.

Até 2 de junho, na Galeria Graça Brandão.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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