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O olhar atento do Colecionador Pedro Cabrita Reis

Coloque na sua agenda, vai ver que não é tempo perdido: uma visita à exposição Germinal. Pertencente à Coleção de Arte Fundação EDP, adquirida ao artista Pedro Cabrita Reis (PCR), e com a curadoria de Pedro Gadanho e Ana Anacleto, a exposição encontra-se na Galeria Municipal do Porto até ao mês de Maio. Mais tarde, seguirá para o MAAT em Lisboa, com as devidas adaptações causadas pelo novo espaço de acolhimento. É a primeira apresentação pública do acervo das obras adquiridas a PCR em 2015, integrando cerca de seis dezenas de peças de trinta artistas plásticos.

A mostra propõe um programa temático em quatro partes que serve de auxiliar na condução do visitante: O sujeito em fratura; Ao encontro do outro; O predomínio da tecnologia e a Herança das imagens.

As diferentes formas de expressão artística estão contextualizadas quase sempre num ambiente irónico e de humor. Prevalecem as instalações escultóricas, concebidas em materiais precários e objetos do quotidiano com forte impacto visual, onde a imagem do vídeo, a luz e o som dominam quase por completo o espaço expositivo. Como nos diz Ana Anacleto: “Foi uma aventura mergulhar nesta coleção” com o desejo de dar uma nova vida a estas peças.

A primeira obra que nos surge é a instalação Barco Negro de João Pedro Vale, que colocou à partida um desafio difícil dado o problema e a sua complexidade de elementos, numa intensa cenografia repleta de objetos de formas escuras que conduzem à ideia de uma profunda fratura identitária. Aliás, constata-se que alguns destes trabalhos foram adquiridos enquanto conceito ou ideia e só neste momento foram concretizados ao ganharem forma física na sua plenitude e compleição.

Outros sofreram alterações de acordo com novas técnicas como na peça Entrada/Saída de Rui Calçada Bastos, onde foi introduzido um sistema sonoro e de sensores.

Verifica-se igualmente que grande parte das obras ali presentes já possui marcas e sinais da expressão plástica dos seus artistas, como a peça apelativa Pop Luz de Joana Vasconcelos.

 

“Uma coleção atinge a sua plenitude quando partilhada” (PCR)

 

PCR teve sempre o sonho de criar uma coleção de arte. Ei-la aqui parte dela, em grande pujança, que reflete o pensamento e o gosto estético do autor. A perspicácia do seu olhar visionário foi capaz de ver ao longe o que outros ainda nem imaginavam, confiando nos artistas quando era difícil confiar. “Escolhi estes artistas porque tinham um olhar assertivo sobre o mundo”, refere.

A Coleção foi realizada ao longo dos últimos trinta anos, com especial incidência nos jovens que então tentavam descobrir-se numa atitude de rebeldia e de libertação, um dos lemas do criador.

O facto de um artista criar uma coleção de arte de outros criadores não é uma problemática inédita e original, devido à proximidade que um artista tem face aos seus colegas do mesmo ofício de trabalho, onde proliferam as grandes amizades, os encontros, as cumplicidades e os afetos entre Cabrita Reis e os amigos representados. “Só faço o que gosto, só gosto de quem gosto, e só comprei aquilo de que gostava (…) Cada uma destas obras passaram a fazer parte de mim. Elas existem e crescerão com o olhar dos outros”. Decidiu, portanto, pôr em prática a máxima de que a arte não é para guardar, mas para ser vista.

PCR tinha um interesse particular pelas gerações mais novas que surgiam à sua volta a partir dos anos 90, com uma grande ligação às questões da atualidade e da experimentação. “O que me interessou foi a individualidade do olhar deles”, frisa. O próprio título da mostra, Germinal, de natureza simbólica, é revelador desse ambiente que vai crescendo a partir de uma proximidade entre as obras e o colecionador; como se verifica nas construções formais de João Ferro Martins, Hugo Canoilas e Vasco Costa em que as peças foram adquiridas quando trabalhavam como assistentes de PCR. É aliás nítida a influência dos diálogos e relações que se desenvolveram com esta personalidade.

Este núcleo específico pertencente ao MAAT é definidor de um período particular da geração de 90 e início dos anos 2000, numa ampla e sólida representação, tendo constituído por isso uma importância fulcral no seio da arte contemporânea e de vanguarda, ao mesmo tempo que completa e preenche uma lacuna na atual Coleção do MAAT.

Cabrita Reis deseja, por fim, que nos deixemos encantar pelo encantamento dos artistas através do discurso e linguagem que apresentam.

Manuela Synek é colaboradora da revista Umbigo há mais de dez anos. À medida que os anos vão passando, identifica-se cada vez mais com este projeto consistente, em constante mudança, inovador, arrojado e coerente na sua linha editorial. É Historiadora e Crítica de Arte. Diplomada pelo Instituto Superior de Carreiras Artísticas de Paris em Crítica de Arte e Estética. Licenciada em Estética pela Universidade de Paris I - Panthéon – Sorbonne. Possui o "Curso de Pós-Graduação em História da Arte, vertente Arte Contemporânea", pela Universidade Nova de Lisboa. É autora de livros sobre autores na área das Artes Plásticas. Tem participado em Colóquios como Conferencista ligados ao Património Artístico; Pintura; Escultura e Desenho em Universidades; Escolas Superiores e Autarquias. Ultimamente especializou-se na temática da Arte Pública e Espaço Urbano, com a análise dos trabalhos artísticos onde tem feito Comunicações. Escreve para a revista Umbigo sobre a obra de artistas na área das artes visuais que figuram no campo expositivo fazendo também a divulgação de valores emergentes portugueses com novos suportes desde a instalação, à fotografia e ao vídeo, onde o corpo surge nas suas variadas vertentes, levantando questões pertinentes.

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