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D. Valentim, o Sereno

Assim que viramos para a estrada que nos leva ao Palácio da Ajuda, sente-se o cheiro das árvores e ouve-se o canto dos pássaros. Por instantes, parece que o movimento frenético de Belém ficou muito para trás e não apenas à distância da Calçada da Ajuda. Quando entramos no novo atelier de Valentim Quaresma, situado dentro do Palácio, é o silêncio que impera e nesse momento percebemos o porquê de ter trocado a azáfama do Chiado por uma residência artística aqui, durante a qual vai desenvolver um projeto de escultura inspirado pelos cognomes dos reis de Portugal.

A ideia surgiu há um ano e meio, mas foi preciso este tempo para a pôr em prática. Quando começou a desenhar o projeto, pensou logo que faria sentido trabalhar num espaço histórico onde posteriormente pudesse expor as esculturas. Daí chegou até ao Palácio da Ajuda, onde se instalou há cerca de um mês. O espaço está lentamente a tomar forma com os elementos que usa para construir as suas peças ordeiramente organizadas em mesas espalhadas ao longo de uma das paredes. Encontra estes objetos na Feira da Ladra, na rua, no lixo, em todo o lado. Anda sempre a olhar em volta. Confessa que tem tendência para acumular coisas e por isso aproveitou a mudança para fazer uma limpeza e só trazer para ali o que era essencial. Diz que precisa destes “reboots” de forma cíclica e que instintivamente acabam por acontecer de 5 em 5 anos na sua vida. A mudança para o Palácio da Ajuda coincidiu precisamente com uma dessas fases em que sentia que precisava de abrandar o ritmo para se concentrar na tarefa a que se propôs. Desenvolver este projeto na lufa-lufa do Chiado era impossível e estar no Palácio vai servir não só como “calmante, mas também como fonte de inspiração”.

O projeto vai ser desenvolvido ao longo de um ano e todo o processo criativo vai ser documentado. A ideia é incluir este material no catálogo da exposição que irá acontecer em 2019. Estão previstas 10 peças, mas até lá tudo pode mudar. Sabe apenas que quer aumentar a escala das suas esculturas e que todas as técnicas e materiais que usou ao longo dos anos vão direcionar-se para esse objetivo. Vai ser uma espécie de culminar de todo o conhecimento e experiência adquiridos.

Ao longo deste ano, vai continuar a desenvolver o seu trabalho de autor, a apresentar as coleções na ModaLisboa e a receber estagiários porque ensinar dá-lhe prazer. Quando terminar a residência, ainda não sabe nem quer saber o que vai fazer a seguir. Quer estar apenas completamente focado no trabalho que tem em mãos.

Pela nossa parte, ficou a promessa de uma nova visita daqui a 6 meses para fazer o ponto da situação e para levantar o véu ao trabalho feito até aí.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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