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50 anos de Art Brussels ao sol

O ano de 1968 foi marcado por uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais – desde a guerra do Vietname, e consequentes protestos estudantis, até às imagens registadas pelo Apollo 8 da Terra vista a partir da Lua. Paralelamente, foi o ano que agitou o mercado da arte belga e viu nascer uma das mais antigas feiras de arte contemporânea da europa: a Art Brussels, na altura intitulada Foire d’Art Actuel.

Volvidos 50 anos, a Art Brussels celebrou de dia 19 a 22 de abril meio século, comprovando a sua relevância e centralidade no panorama da arte internacional, com vendas significativas e espaços para a descoberta de novos artistas, além de um claro envolvimento de uma base sólida e instruída de colecionadores, que alimentam o ecossistema tanto na feira como na cidade que a acolhe. Nesta edição, a programação artística foi variada combinando propostas arrojadas com artistas mais estabelecidos em diálogo, onde as diferentes secções (Dicovery, Rediscovery, Prime e Solo) permitiram às 147 galerias presentes maior visibilidade, e uma circulação mais dinâmica do público.

No entanto, é a seção Discovery que melhor espelha a vontade de manter a contemporaneidade, além de atrair um tipo de colecionadores mais jovem. Como afirma a diretora Anne Vierstraete, “a Art Brussels continua a ser uma plataforma empolgante para descobrir os talentos de amanhã”. Neste caso, as 33 galerias selecionadas incorporam essa ambição e apresentam trabalhos produzidos entre 2015 e 2018, com o intuito principal de obter reconhecimento no contexto alargado. A galeria SMAC (Cape Town, Johannesburg, Stellenbosch), vencedora do prémio Discovery pelos trabalhos da artista Georgina Gratrix, refere a escolha da feira como um reflexo da necessidade de “legitimação no contexto europeu, fora da África do Sul onde a artista já têm alguma visibilidade”. Também a galeria Barbara Seiler (Zurique) com o artista Bob Eikelboom, que apresenta uma série de pinturas feitas com ímanes onde é possível o observador intervir na composição, procura uma audiência internacional, mas sente na Art Brussels a confiança necessária para arriscar. Outros destaques desta seção é a galeria BANK (Xangai) com a instalação The Bearable da jovem artista chinesa, Chen Zhe, e as galerias Exile (Berlin) e Polansky (Praga) que coapresentaram os trabalhos de Martin Kohout e Christophe De Rohan Chabot.

Comparando com o ano anterior, e dado o contexto celebrativo, a percentagem de galerias belgas aumentou e foi possível denotar um número significativo de propostas performáticas como a loja de caligrafia do Kwok Mang Ho (mais conhecido como Frog King) que por 200€ oferecia caligrafia desenhada à mão, até à performance durante todo o tempo da feira de Alice Anderson. Também a exposição com curadoria de Elena Sorokina, e projeto artístico principal desta edição, Mystic Properties foi uma aposta segura, mas particularmente pertinente no contexto de uma feira. Esta exposição abordava questões em torno das noções de posse e exibição de arte, a partir da obra do século XV Retábulo de Ghent de Jan e Hubert Van Eyck, numa colaboração de longo prazo com o HISK (Instituto Superior de Belas Artes, em Ghent).

Por fim, os dias de sol e calor estenderam-se aos eventos paralelos que fizeram notar a crescente e por vezes discreta movida artística de Bruxelas, para exposições tanto independentes como institucionais. De salientar a feira satélite Poppositions, com galerias e projetos emergentes, e um notório desejo disruptivo ou transgressor. São os valores baixos articulados com uma seleção rigorosa, que trazem a esta feira no centro da cidade projetos como o de David Bernstein, Saunra, um Fiat Múltipla aberto a todos transformado numa sauna ao som de Sun Ra, ou o projecto Wellness Center Future Proof, uma tentativa de refletir a partir da suposição de uma ameaça apocalíptica num áudio imersivo. Também a Laagencia com o projeto de Santiago Pinyol invadiu vários espaços “além-stand” da Poppositions (e inclusive o armazém da Art Brussels no dia da inauguração) numa crítica perspicaz sobre a mercantilização da arte e a forma como a mesma pode ser apresentada.

Ainda no centro da cidade, o centro de arte WIELS apresentou a exposição Paroles de Saâdane Afif, uma retrospetiva cuidadosamente montada do trabalho do artista nos últimos 15 anos e forte influência e da palavra na sua prática. A poucos metros de distância na galeria C L E A R I N G (Brussels), está patente até dia 26 de Maio a exposição imperdível A workshop for peace: nowhere to go: let the song hold us: in a room filled with people with funny names 4 do artista Tailandês, Korakrit Arunanondchai. Voici des Fleurs no espaço alternativo La Loge com as artistas Anne Hardy, Hanne Lippard e Caroline Mesquita e a performance Le Bétyle d’ Ail do jovem artista Nils Alix-Tabeling, na sua própria casa, foram outros ingredientes para o fervilhar destes dias.

Assim, e apesar de a Art Brussels colidir com Art Cologne este ano, a cidade esteve cheia de artistas, curadores, colecionadores, diretores de museus e galeristas, indicando que não foi só uma semana de sol. Bruxelas está a aquecer e no caminho para ser um epicentro de produção e de pensamento artístico, em que o ano de 2018 ainda está por reivindicar.

Carolina Trigueiros vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Comunicação Cultural (2013) entre Lisboa e Barcelona e com uma pós-graduação em Curadoria de Arte na Universidade Nova de Lisboa, tem vindo a trabalhar na área da curadoria, produção e escrita.

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