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Ensaio para uma Cartografia: um hino à resistência

As únicas palavras que se ouvem em Ensaio para uma Cartografia são palavras gravadas de Leonard Bernstein a ensaiar o Bolero de Ravel – “se vais ser músico é bom que queiras mesmo ser um músico. Porque isto é só o princípio e é muito difícil de fazer. E é muito fácil ser um músico medíocre. Exige dedicação, compromisso. Não há palavras para isso”.

E não há mesmo. Mónica Calle sabia-o.

20 mulheres entram numa sala sem cenário. Trazem violinos, violoncelos e contrabaixos. Despem-se. Centram-se no meio do espaço. Fitam a audiência. Os seus corpos movimentam-se, compassadamente, ao som de Ravel. São uma só massa. Juntas, parecem marchar. Não sabemos onde querem ir. Não importa. A vontade está-lhes na pele, nos órgãos, na alma. O suor escorre pelos corpos, molha o chão. Os músculos desenhados pelo contrate entre luz e escuro revelam o teste físico dos limites. Por vezes tocam os instrumentos de orquestra. Falham. Tentam de novo. Uma e outra vez. Com exigência e desejo de rigor. Um pouco mais. Resilientes, continuam. Sem condescendência. Superam-se. Com um equilíbrio permanente entre o todo e as partes, fazem-no em equipa, ainda que a singularidade de cada uma seja tão nítida: na fisionomia, na expressão, no nível de resistência, no modo de lidar com a dor e na forma de a revelar – ou de não a revelar. As diferenças de cada uma não comprometem o equilíbrio coletivo. Enaltecem a coragem na perseguição de um objetivo comum.

Enquanto isso o espectador está de garganta apertada e cabeça cada vez mais comprimida. Os olhos não pestanejam. A voz de Sérgio Godinho – “Que força é essa?” – assalta o pensamento. A audiência, solidária com o esforço real, nítido em “palco”, movimenta o corpo ao compasso do das atrizes. Quebrando as regras, aplaude o assombro em cada ato. O cheiro, a luz e ausência de cenário tornam claro que aquilo a que assistirmos é, como o título indica, um ensaio. De teatro, dança, música? Qualquer coisa mais do que isso que a minha ignorância não permite nomear. É um ensaio de coragem e luta, na perseguição dessa força maior que é o querer. O querer sempre mais e melhor. “Ser todo em cada coisa”, dizia Ricardo Reis.

“Depois vamos para casa e prosseguimos amanhã”, diz Bernstein. Caramba. Sabemos que é essa a verdade dos nossos dias, mas Mónica Calle transforma essa certeza num hino vivo à resistência.

Desarmante.

 

Ensaio para uma Cartografia baseia-se no texto Os sete pecados mortais dos pequeno-burgueses (1933) de Bertold Brecht. Com início em 2014, é um projeto que irá terminar em 2021, percorrendo uma “cartografia” que se irá definindo, por Portugal, ao longo do tempo. Tal como na viagem de Brecht, serão 7 anos de viagem na procura de uma nova casa, neste caso motivada pela saída da companhia de teatro Casa Conveniente, dirigida por Mónica Calle, do Cais do Sodré.

Por enquanto em Lisboa, estará em cena até 29 de abril, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II. Já com lotação esgotada, há lista de espera sujeita a eventuais desistências do próprio dia.

Esta edição de Ensaio para uma Cartografia, com encenação e cenografia de Mónica Calle, resulta de uma coprodução da Casa Conveniente/Zona Não Vigiada e do Teatro Nacional D. Maria II. Conta com a direção musical do maestro Rodrigo B. Camacho e a interpretação de Alexandra Viveiros, Ana Água, Brígida de Sousa, Carolina Varela, Cleo Tavares, Eufrosina Makengo, Inês Pereira, Inês Vaz, Joana Campelo, Joana de Verona, Lucília Raimundo, Mafalda Jara, Maria Inês Roque, Marta Félix, Míu Lapin, Mónica Calle, Mónica Garnel, Roxana Lugojan, Sílvia Barbeiro, Sofia Dinger e Sofia Vitória.

Zara Ferreira (n. 1988) é arquitecta e mora em Alfama. Foi investigadora do projecto EWV_Visões Cruzadas dos Mundos, colaborou com o atelier Tetractys Arquitectos e participou na representação portuguesa na 14ª Exposição Internacional de Arquitetura, Bienal de Veneza de 2014, também como copy-editor do Journal Homeland-News from Portugal. De 2014 a 2018, foi secretária-geral do Docomomo International (the International Committee for Documentation and Conservation of Buildings, Sites and Neighbourhoods of the Modern Movement) e co-editora do Docomomo Journal. Entre Lisboa (IST) e Lausanne (EPFL), está actualmente a fazer doutoramento sobre estratégias de preservação dos conjuntos habitacionais do pós-Segunda Guerra Mundial na Europa. Nas horas vagas dedica-se à viagem, ao teatro, à escrita, à fotografia e ao que mais o acaso lhe vai pondo na frente.

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