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Exposição Maré, na Galeria Filomena Soares

Inaugurou no dia 24 de março uma exposição coletiva na Galeria Filomena Soares. A exposição, com o título Maré, ocupa as três salas do edifício, e é comissariada por João Silvério.

Pretende-se, com esta exposição, partindo do grupo de artistas representados por esta galeria, encontrar ligações entre eles e recuperar obras exibidas com menos regularidade.

Num espaço amplo, e dotado de um pé direito alto, a galeria mostra várias gerações de artistas e expõe peças que revelam um período longo de criação compreendido entre 1980 e 2017.

As obras expostas pertencem a Rui Chafes, Helena Almeida, Dan Graham, João Penalva, Igor Jesus, Carlos Motta, Bruno Pacheco, Letícia Ramos, Rodrigo Oliveira, Andreia Almeida, Pilar Albarracín, Shirin Neshat, Pedro Barateiro, João Tabarra, Miguel Rio Branco, Kiluanji Kia Henda e Ângela Ferreira.

O curador toma partido da proximidade da galeria com o rio Tejo, e com isso explora a relação do mar com o rio. Evoca a poesia de Sophia de Mello e Breyner, especialmente o poema O Mar dos Meus Olhos, para desencadear uma ideia de fluxo ininterrupto presente no imaginário dos artistas. Como se cada movimento do mar, “cada vai e vem”, se manifestasse de forma “inexoravelmente diferente”. Assim se convoca a ligação entre as diferentes peças que vão surgindo ao longo do espaço, atendendo a uma prática artística que se desenrola problematizando o seu processo interno, bem como as transformações e diferenças culturais e sociais.

Nesta elucidação o trabalho ali exposto, dos diferentes artistas, parece unir-se no pressuposto de uma ideia de permanência “além do tempo”, como o diz o poema de Sophia.

No grupo dos artistas presente na galeria, que pertence à mais recente geração, a chamada geração da segunda década do novo século, encontra-se o artista Igor Jesus. Expõe as peças Franco Merli, 2017; Claudia Cardinali, 2017; e Peso Morto (2016).

A maioria das peças deste artista são compostas da junção de molduras de negativos em grande formato com malas, peles, ou fragmentos de vestuário, evocando o filme Saló ou Os 120 dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini,

A Igor Jesus sempre o intrigou o que teria acontecido aos atores depois de protagonizarem o papel de escravos sexuais no filme de Pasolini.

Começou, por isso, a árdua tarefa de construir um corpo de trabalho em torno dessa ideia, tendo ido inclusivamente a Itália e contactado com os próprios atores, nomeadamente Umberto Chessari.

O artista dispõe fragmentos de sapatos sobre o solo da galeria. Os mesmos encontram-se quebrados a meio, e abertos, como se de um fruto ou pedaço de pão se tratasse, enfatizando uma outrora presença do corpo. Permanecendo apenas a casca, depois de consumido. Ao artista interessa-lhe a colonização do corpo, relembrando a frase de Baudrillard, “o corpo é o mais desejável objeto de consumo”.

A perfeita ausência do corpo no sapato revela-o como elemento contendo profundidade e densidade. Segundo Cunha e Silva: “transportámos a profundidade desse corpo para a superfície, na tentativa de visualizarmos o interior, a espessura do corpo passou a ser a da película que suporta a sua imagem”. Ora, nas peças de Igor Jesus, vislumbramos, simultaneamente, essa presença do corpo, feito ausência, e a imagem superficial, representada pelos negativos em grande formato, com imagens invertidas de partes do corpo, retalhos de rostos, como bocas ou narizes, em close-up. Num corpo que, em “ruína” se reconfigura, como diria Foster, em autómato, ou máquina. Servindo os propósitos de uma estrutura bem mais exigente, e que se reveste na produção capitalista do consumo.

É entre este volume do corpo e o fragmento que parece gravitar o trabalho de Igor Jesus. Na ausência que, por mostrar o seu espaço interno, reforça a presença outrora do corpo, e simultaneamente o caráter fugidio do mesmo. Como diria Cunha e Silva, dando lugar a uma corporografia, ao invés de uma corporologia, tendo o mesmo corpo perdido o seu lugar.

A artista Andreia Santana, por sua vez, expõe Tratteggio. 2017 e Rigatino. 2017, cinco peças em latão, provenientes de uma produção em série de chapas recortadas usadas em túmulos. As peças encontram-se ainda unidas entre si, configurando um padrão dourado, e evocando o tema da reprodução mecânica.

Próximo das peças de Santana e Igor Jesus, encontram-se as fotografias de Rodrigo Oliveira, sob o título À procura da utopia, de 2014/2015. O artista persegue a herança do modernismo, nomeadamente usando como matéria a obra arquitetónica de Le Corbusier e Oscar Niemeyer. As fotografias expostas foram realizadas quando o artista recebeu uma bolsa da Fundação Botin, em Espanha. A bolsa permitiu-lhe assim: “fazer duas viagens para duas cidades que tinham sido projetadas de raíz”. Primeiro Brasília, desenhada por Niemeyer e Costa, depois a cidade de Chandigarh, na Índia, projetada por Le Corbusier e pelo seu primo Jeanneret. Ao artista não lhe interessa privilegiar um material sobre o outro, ou um meio sobre o outro. Também a fotografia funciona como um suporte, ou meio, mas para comunicar ou expressar ambientes e ideias do artista.

Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador. (fotografia: Eurico Lino Vale)

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