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16 Pounds of R&B, dos Wild Cherries, é a peça que faltava no puzzle do rock

Uma simples associação de palavras relacionadas com Chuck Berry (Buck Cherry – Black Cherries) resulta em The Wild Cherries. No final da década de 60, a Austrália testemunhava o surgimento desta banda que enrolava o rock dos Kinks e o garage dos Pretty Things, mas sem destoar as paisagens da R&B com que preenchiam as canções. 16 Pounds of R&B editado pela Groovie Records é, de facto, uma pérola indispensável para qualquer colecionador.

Naquela época, os Bee Gees erguiam-se como o produto musical mais mediático da Austrália. Apesar dos fortes relacionamentos diplomáticos com os restantes estados de língua inglesa, o isolamento geográfico não permitia uma justa visibilidade às bandas underground. A sonoridade dos Wild Cherries era considerada selvagem e pouco convencional para a comercialização, e, por isso, a edição de 16 Pounds Of R&B marca uma geração recôndita do garage, R&B e punk australiano.

A primeira formação surge entre alunos de arquitetura da Universidade de Melbourne, em 1964, com Jon Bastow na voz, Les Gilbert no baixo, Rob Lovett na guitarra ritmo, Malcolm McGee na guitarra solo e Geoff Halles na bateria. Depois de Les Gilbert abandonar e juntar-se aos Loved Ones, a banda reduz-se a quarteto, chegando a 1967 com a edição do conhecido tema That’s Life.

Embora se identifique a extravagância sonora, as faixas encarregam-se de proporcionar momentos frenéticos, elétricos, contudo, desprovido de acordes mais agressivos. São canções que deambulam por guitarras progressivas, onde o garage rock se alegra por harmonias dançantes, e coros arreguilados – como se ouve em Bye Bye Bird – e variações rítmicas ocupadas pela presença de um baixo corpulento. Without You introduz-se branda, de riffs orelhudos sempre em crescimento, marcando uma posição bem vincada do que está para chegar nos temas seguintes. Os Wild Cherries editaram também a sua versão de Tobacco Road (nesta compilação apresenta duas versões), canção original de John D. Loudermilk, interpretada por diversos compositores – sendo que ficou mais conhecida pela versão dos Nashville Teens – da década de 60.

Os Wild Cherries são o perfeito exemplo de que ainda existem tesouros bem escondidos na cronologia musical dos 60’s. 16 Pounds Of R&B é um pedaço de história que poderia ter ficado por contar, porém, esta edição revela-se uma peça essencial para o cancioneiro rock australiano. A descoberta deste disco é inevitavelmente, uma jornada de convergência rock, onde o espírito desenfreado do punk desemboca na eletricidade do garage e nas tonalidades melódicas do blues.

Estudou audiovisuais no liceu, dali partiu para as histórias contadas nos documentários, e para os universos criados pela ficção. Frequentou um curso de Cinema Documental no Ar.Co, e a licenciatura em Ciências da Comunicação na UAL. Apaixonou-se precocemente pela música e abraçou-a à escrita. Em casa, no lugar da televisão está um gira-discos, porque acredita que as histórias mais bonitas vêm nos discos. É, também, colaborador da página Comunidade Cultura e Arte.