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A vida e morte das coisas públicas

O respeito pela memória privada suplanta-se ao respeito pela memória pública. Entre a habitação, o lar, a casa e a praça, os objetos do passado asseguram uma sobrevivência distinta em cada um.

No domínio privado, as salas e os quartos são os lugares cimeiros de exposição e preservação da memória familiar. A mobília em pinho, mógono ou carvalho recebe peças de gerações passadas que atestam uma linhagem, uma história – todo o peso de uma existência sucedânea. A fotografia sobre a cómoda é monumento vivo adorado; o retrato na parede é um contar silencioso de outrora; a chinoiserie, um momento, um souvenir, uma conquista pessoal e familiar. O tempo privado, de facto, é diferente do tempo público.

Na rua, um monumento é de todos. Mas, paradoxalmente, se é de todos, é também de ninguém. As responsabilidades de rememoração, divididas por todos, resultam em quase desresponsabilização. A quantidade de passado em nós e o peso da história que determinado objeto comporta e as massas a que se reporta, são muitas vezes incomportáveis, impossíveis. Segue-se o abandono, o objeto entregue aos elementos e ao infatigável chronos, na esperança de um dia lembrarmos. O património comum ocupa, portanto, uma posição dúplice e ambígua na comunidade: entre lembrança e esquecimento, entre abandono e retorno, entre vida e morte.

O retorno à lembrança é um processo longo e um exercício penoso de articular tempos desconexos e sobrepostos. É, deste modo, um trabalho de arqueologia, de levantamento, de composição, de suposição e sugestão. Nos fragmentos desfeitos, há uma árdua tarefa de dar corpo à matéria quebrada. Disjeta membra. Membros desfeitos que carecem de ordem, nexo e contexto, dentro de uma narrativa esquecida.

A terceira margem e as ruínas circulares é uma exposição de João Seguro que faz precisamente esse trabalho de arqueologia, de investigação local das memórias e objetos de uma comunidade, neste caso, Vila Nova da Barquinha.

A par com a arqueologia dos objetos, a investigação tem sido uma prática corrente na arte contemporânea. A documentação, matéria de trabalho da investigação, é também medium possível para o artista que assume duplamente o papel de produtor de arte e de historiador ou jornalista na procura da essência das coisas. E esta mostra assume igualmente essa dualidade.

Mas essa vertente jornalística, se quisermos, faz-se dentro de um campo fenomenológico na busca pela verdade e essência das coisas. A imersão radical no campo de estudo é fundamental. Num antigo armazém do Instituto Nacional de Investigação e Garantia Agrícola (INIGA), Seguro regista e documenta artefactos que pertenceram ao domínio público e que ali repousam na melancolia do abandono e da obsolescência. O caderno de fotografias disjecta, publicado com o apoio do projeto Empty Cube, resulta dessa viagem que, não obstante poder-se tomar como elemento singular de produção, é apenas uma parte da totalidade.

O object trouvé é um desvio operado pelo artista num objeto corrente. Na sua ação respigadora, recolhe peças e transforma-as em obras de arte, por vezes com pequenas operações, outras vezes com alterações substanciais com tendências compositivas. O olhar do artista subverte o olhar comum e ensina a ver um caleidoscópio de signos e significados no que se julga trivial. Para a Galeria do Parque de Vila Nova da Barquinha, João Seguro recorre a objetos e materiais encontrados no armazém do INIGA e articula entre eles novos modos de entender as práticas da região, as tradições locais e a paisagem humana e histórica daquele local, sem esquecer, contudo, a própria plasticidade e linguagem da arte.

Omnipresente é a fotografia, mesmo nas instalações ou esculturas do artista. O retrato das coisas e das pessoas é simultaneamente monumento ao que já passou e lembrança de mortes por anunciar. Como Barthes estabeleceu em Câmara Clara, Morte e Fotografia são por vezes – quase sempre – indissociáveis, da mesma forma que Ruína e Deleite – como referiu Choay em Alegoria do Património – são faces da mesma moeda. E, aqui, entra novamente a melancolia, sublinhada – e rematada – pelo autor do texto da exposição João Pinharanda: “O passado imediato contido naquele depósito arqueológico é-nos devolvido através de objetos dispersos, sem necessidade de integrar uma ficção corrente o que acentua a tarefa melancólica deste inquérito subjetivo”.

A terceira margem e as ruínas circulares, de João Seguro, pode ser vista na Galeria do Parque em Vila Nova da Barquinha, até 27 de maio e a curadoria, como é habitual naquele espaço, foi elaborada por João Pinharanda.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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