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Imagens capitais

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O homem neoliberal corre. O homem neoliberal faz jogging, crossfit, veste bem, estudou nas melhores universidades e estagiou nos melhores centros empresariais financeiros do mundo. De fato e gravata, linhas da moda, é servil com os grandes, rude com os pequenos. Aprendeu na alta finança a desprezar os fracos e a valorizar os inimputáveis de topo. Linhas de coca, dorme em pé, vive do café, entre aeroportos, lençóis de hotel e vaginas sem anel. Absoluta liberdade para si, absoluta abnegação para todos os outros.

O homem neoliberal gosta do dinheiro e dos que gostam do dinheiro. O dinheiro une os homens neoliberais numa irmandade inquebrantável – pudessem as mulheres aspirar a uma. O homem neoliberal tem um estilo bem definido. Vê-se ao longe, nas classes executivas: de pasta na mão esquerda e smartphone na direita a contar os algarismos das bolsas mundiais. Sabe manipular. Se os mercados são suscetíveis às emoções, então os que os fazem devem ser escrupulosamente analisados em benefício próprio. Sabe adular para depois caçar. Sabe chorar para depois ganhar. Triunfo, sucesso. E as massas adoram. As classes médias e baixas adoram o homem de sucesso, na esperança de eles próprios poderem suceder.

O homem neoliberal adora o planeta. Também adora as mulheres. Apregoa liberdade, igualdade e fraternidade (mas menos – e só para alguns). No entanto, o dinheiro diz que não ao primeiro, diz talvez às segundas (sempre depois – afinal o capitalismo é um sistema exclusivamente masculino, de cultura e vernáculo masculinos), e abençoa falaciosamente os terceiros – aos media – corrompendo-os em privado, a bordo de um jato, em frente a um bom prato, depois da transpiração de um bom club ou ginásio.

O homem que traz o dinheiro para casa ainda é valorizado. Quanto mais, melhor. Em todos os aspetos. O homem neoliberal é como o capital: ou cresce ou morre. E tem sempre que crescer. Sempre e para sempre. Em todos os lados, para todos os lados. Caso contrário entra em crise, em depressão.

É geograficamente absoluto, transnacional, internacional, universal. Fala várias línguas. Numa frase, três idiomas: o de nascença (se é português: coitado), o inglês do jargão académico e profissional – do statu quo – e o chinês porque é para lá que tudo vai.

O mecenato e filantropia são mascaramentos de pretensa humildade. Dá dinheiro, mas exige algo em troca. Reconhecimento, nome gravado em chapa metálica, um edifício em seu nome. E a arquitetura segue o seu modelo: da luz, da glória, do divino na terra que é ele. Torres em seu nome, arranha-céus em sua memória. Modelos fálicos que seguem essa vontade primeva de superação, de grandiosidade: quanto maior, melhor. O maior arranha-céus ainda não é chinês. A biologia… Esse urso indisciplinado e indisciplinável – ruge mais alto para atordoar a vontade apolínea das civilizações globais contemporâneas. Memento Mori.

Entretanto, os homens neoliberais viram políticos.

Trudeau e Macron, dois homens neoliberais: belos, ricos, educados e amantes de todas as liberdades; choram os gays assassinados, as mulheres espancadas, os bons homens perecidos, os refugiados perseguidos, a natureza destruída; limitam as entradas de estrangeiros, a emissão de vistos e promovem a exploração e uso de petróleo ao mesmo tempo que ratificam o Acordo de Paris. Sem esquecer a paulatina degradação dos direitos laborais que nenhum dos dois deseja pôr cobro. Afinal, é preciso correr, acelerar. Quando cansado, substituir.

A política neoliberal é o homem neoliberal e as suas contradições.

*

Bem-vindos à cidade do medo (sem exclamação) é o título da exposição de João Fonte Santa patente no MAAT, com curadoria de Sandra Vieira Jürgens. No início, saúdam-nos os rostos dos políticos acima nomeados de olhar determinado, mas distante. Abaixo, sob o antracite da grafite, duas palavras douradas: NeoLib Diet. Portanto, duas personagens que correspondem a uma dieta do neoliberalismo. Uma versão suave da implícita violência neoliberal que nos prepara para uma realidade que reconhecemos como presente e nossa, mas que nos habituámos a esquecer, em segundos, numa torrente sequencial de imagens, factos e pós-factos. Um refrigerante light, zero, soft, que promete não fazer mal antes de nos intoxicar.

E eles prometem. E têm vontade de fazer. Pró-ativos, fingem que mexem para tudo ficar na mesma. Em 3ª aparição da Virgem a Friedrich von Hayek nas ruínas do Centro para Investigação do Desconhecido, prometem milagres sobre as ruínas desse mesmo centro; lutar “a coberto da nova lei anti-terrorismo (…) [para deter] os primeiros dirigentes sindicais”; sarar a guerra do pós-Brexit e a desvalorização da Libra; acabar com as “máquinas violadoras”, etc. Anedotas de um assustador futuro possível.

E então vem a luz azul. Já não são só estes políticos. É todo o sistema montado nas costas da indiferença e do cansaço coletivos. Um sistema acrítico e amoral que veneramos. A luz de um sistema mediático e mediatizado que injeta em nós a dopamina do clique, do deslizar do dedo para a direita (aceitar), a esquerda (rejeitar), do like, do adoro, da resposta imediata e irrefletida, do registo para sempre, da glória para sempre. Ação, vertigem, drama: chamas a lavrarem ruas e carros, gritos de rebelião, pedras de arremesso, balas e canhões aqui, ali, ao lado, na Alemanha, nos Estados Unidos. Dopamina. As imagens de destruição são sedutoras. Hipnotizam no seu espetáculo dantesco e ativam em nós a célula vibrante dionisíaca. Cativados pelos pixéis luminosos, na paradoxal estesia das imagens moventes que nos conduzem à anestesia, deixamos “os banqueiros escolher quem deve viver ou morrer”.

João Fonte Santa cria um ambiente que é muito familiar, entre a graça e a desgraça, entre o humor e o desastre apocalíptico ou pós-apocalíptico. Joga com a semelhança e o desvio, com texto e imagem. Como sublinha a curadora, o artista “recorre à utilização de imagens que circulam em jornais, na televisão e na Internet, e estabelece relações de associação com outros campos, nomeadamente o da cultura popular”. Dallas é um modelo de cidade capitalista exportado para outros pontos do globo. Mas é também uma série americana, hiperdramatizada, dos anos finais dos anos 70. Singapura é Dallas, Tóquio é Dallas, Shanghai é Dallas, Dubai é Dallas: centros económicos e palcos de melodramas e soap operas baratas nas quais as grandes políticas são tecidas direta ou indiretamente. Realidade e ficção confundem-se e a política deixa de ser sobre o de facto e passa a ser sobre o ficcionado ou o já mencionado pós-facto.

Mas, lembre-se, esta é uma exposição sobre o medo, o agenciamento do medo e de como este joga a favor e a desfavor de uns e de outros. E também uma exposição sobre o presente e sobre épocas passadas contemporâneas à nossa.

Na década de 70, divulgava a polícia de Nova Iorque um folheto sinistro a que esta exposição pediu emprestado o título. Nele, eram elencadas várias regras para os visitantes e habitantes da metrópole sobreviverem face à onda de criminalidade que desfilava nos bairros e ruas nova-iorquinos. Mas essa sobrevivência fazia-se com o medo. Um ataque que a polícia arranjou para desferir duros golpes à austeridade que se fez sentir neste período e que levou a cortes colossais (!) nas forças de segurança.

No fundo, este é um exercício de alerta sobre a forma de interpretar as imagens e de perceber o poder insidioso que comportam. As palavras da curadora traduzem liminarmente a exposição ao situar este projeto na “questão do uso, do poder e da eficácia das imagens e a capacidade crítica e política da representação visual” que se revelam “desafios sempre presentes na indagação e questionamento do medo e no apelo à resistência”. Uma resistência que chega de forma isolada e inesperada, de indivíduos que tentam dar luz ao medo, e que Fonte Santa junta em cartazes, não se sabe se de luto se de combate, curiosamente nas paredes do que outrora foi um cinzeiro imenso.

Bem-vindos à Cidade do Medo está patente no MAAT, até 30 de abril.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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