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Alípio Padilha – O dia inicial inteiro e limpo*

*Sophia de Mello Breyner in O Nome das Coisas

 

A relação de Alípio Padilha com as manhãs não se limita às paisagens de Penacova (aldeia onde nasceu) ou da Madeira (onde viveu quatro anos) que parecem ainda mais arrebatadoras na primeira luz do dia. Estende-se também ao cenário urbano de Lisboa e de todas as cidades que visita. Diz que quando viaja sozinho tem que acordar muito cedo pelo menos uma vez para ver a cidade a espreguiçar-se. São os quiosques a abrir, as primeiras pessoas a ir para o trabalho, a ilusão do recomeçar e a vontade de não querer desistir das possibilidades. É neste momento que se entrega ao vício da solidão que faz companhia a outro vício, o das pessoas. Usa a fotografia para se apropriar destas e de outras coisas – que se passam em cima de um palco – e que continuam a encantá-lo. A ligação às artes começou na rádio, mas a fotografia e as pessoas aprendeu-as com a avó, que usava as imagens para reconquistar o seu amor.

“Eu tenho uma relação muito próxima com a minha avó e lembro-me de passarmos serões a ver caixas de fotografias, umas a cores, outras a preto-e-branco, de formatos diferentes. E lembro-me que olhava para ela e vi-a daquele tamanho e olhava para as fotografias e vi-a em criança. Pensava que conhecia a minha avó em criança, porque houve um fotógrafo que lhe tirou fotografias”, diz. “Ela tirava fotografias com o objetivo de recuperar o marido que a tinha abandonado e fugido para o Brasil. Mandava-lhe fotografias dela e da filha. Era assim uma cena de paixão, apesar de ter sido um homem que a abandonou grávida e que nunca lhe disse mais nada. Mas ela contava-me isto com um sorriso no rosto e eu achava aquilo bonito”, recorda.

A história continuou com o pai que, anos mais tarde, foi trabalhar um ano para África. Lá comprou uma polaroid – coisa que o Alípio de 7 ou 8 anos nem sabia que existia – e todas as cartas traziam 3 ou 4 fotografias que permitiam que a família partilhasse aquele dia-a-dia à distância. “Para mim, a fotografia sempre teve esta coisa da ligação às pessoas”, explica.

 

A rádio

Depois veio a adolescência e a insatisfação com o que estava a estudar. Apesar de todas as histórias de infância que envolvem máquinas fotográficas, nunca tinha pensado fazer disso vida. Um dia, estava num bar em Penacova e olhou para uma reprodução d’ O Beijo, de Robert Doisneau, e disse que ia ser fotógrafo. Foi a Coimbra e comprou uma máquina usada, mas continuou a estudar economia. Foi através da participação na rádio local e dos amigos que vinham de fora de Penacova com música “diferente” que começou a receber estímulos novos.

Mais tarde, fez a formação da Associação Portuguesa de Artes Fotográficas, mas a viragem decisiva deu-se no início da década de 90 quando Coimbra foi Capital do Teatro. Acompanhou o festival e a formação da companhia Escola da Noite, começou a ir a ensaios. Lembra-se de ter entrevistado Olga Roriz para a rádio, muito nervoso, mas fascinado pelo que tinha visto. Hoje em dia, trabalha com ela e está a desenvolver o cenário do próximo espetáculo de Roriz a partir de uma foto sua. E isso continua a parecer-lhe uma coisa incrível e improvável de acontecer a um rapaz nascido e criado em Penacova. É o mesmo encanto do primeiro grande trabalho que fez a acompanhar 5 noites de Sérgio Godinho no Teatro Maria Matos, cruzando-se no palco e nos bastidores com artistas que admirava, como Caetano Veloso. É o mesmo encanto que continua a sentir pelos muitos atores, músicos e bailarinos que fotografa e é isso que o faz continuar.

 

O palco

Depois de muitos anos a fotografar concertos (onde se inclui uma colaboração de 6 anos com o Musicbox) percebeu que estava a deixar de gostar de ser público e, acima de tudo, Alípio considera-se um bom espectador. Descobriu então o tempo das artes performativas e encontrou ai um ritmo mais próximo do que lhe interessa explorar. “As artes performativas são mais ricas em termos de imagem e também pelo que te fazem ver e pensar. Até porque acompanhas processos criativos, acabam por te adotar e integrar nesse processo”, explica. Nos ensaios estão presentes todas as dúvidas, todas as incertezas de um espetáculo e dos protagonistas. Constrói-se uma relação de confiança, porque o fotógrafo tem nas mãos algo muito precioso – a fragilidade de quem está em cima do palco.

Lembra-se de fotografar um mestrado de encenação no Conservatório e ter sido convidado para “contracenar” com a atriz principal. Ela fazia de Natália Correia e quando o público entrava na sala, em cena estava a decorrer uma sessão fotográfica. Era suposto ser tudo a fingir, mas Alípio, de costas para o público, fotografava sem grandes preocupações a atriz com uma câmara médio formato. “Agarrava-me à máquina e à Fabíola para esquecer o nervosismo e esses retratos continuam a ser dos mais bonitos que eu já tirei em cena. Eu não apareço nas fotografias, mas organicamente estou lá, porque ela mais tarde contou-me que também se agarrava a mim para esquecer o nervosismo, a pouca experiência e o estar ali a ser avaliada. Era um momento só nosso e eu vinha para casa e sonhava com ela e tinha vergonha de lhe dizer. Demorei cinco anos a contar-lhe esta história (risos). E pensava que não podia tirar fotografias assim com esta intensidade. Nos 15 minutos em que estava ali no palco, era como se não existisse mais ninguém no mundo. E foi alguém com quem nunca tive nenhuma relação para além daquela no palco. Eu ligo-me mesmo às pessoas quando as fotografo”, explica.

 

Primeira Luz

Talvez para equilibrar esta intensidade, diz que cada vez mais troca a noite pelo dia e as pessoas pela solidão das paisagens. Muitas vezes, sai mais cedo de uma noite de copos, vai a casa, faz café e vai para uma das praias desertas que conhece perto de Lisboa para ficar a ver o dia nascer. Ou apanha o barco para Cacilhas e depois o autocarro para a Trafaria. “Dou por mim a fazer o que já fiz 50 vezes. Não tem a ver com não gostar das pessoas, tem a ver com já não estar a gostar de mim ali naquela noite”, explica. “Gosto do ritmo da manhã e da forma como me sinto ligado àquelas coisas. Vive aqui perto um casal do Norte e vou para ali vê-los abrir o quiosque. Só olhar para eles. Para mim, é todo um filme. Já me contaram que fazem aquilo há 30 anos todos os dias e olhas para aquelas duas pessoas que continuam a fazer o mesmo… isto das relações atrai-me, a forma como as pessoas vivem este tipo de coisas apoiando-se, suportando-se, sendo tolerantes. Coisas que já não são nada atuais”, diz.

Na exposição Primeira Luz, patente na Apaixonarte até 31 de Março, não há pessoas, mas há paisagens que parecem saídas de filmes. São imagens dos três locais onde viveu mais tempo – Penacova, Madeira e Lisboa – todas captadas ao nascer do dia. Sente-se a tal solidão nos azuis gélidos que nos engolem como nevoeiro, no silêncio dos tons pardos ou na nostalgia das luzes da noite refletidas no rio. Estamos a contemplar estas imagens de copo de vinho na mão, mas apetece ir buscar uma caneca de café forte e desligar o zunzum das conversas à nossa volta. A inauguração foi feita de amigos, (re)encontros e risos, mas é uma exposição que se presta muito a ser vista a solo. Só nós e as paisagens a perder de vista para além da esquadria da moldura e das paredes da galeria.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"