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A normalidade de Giacometti

O Último Retrato

Realizado por Stanley Tucci

Com Geoffrey Rush, Armie Hammer e Clémence Poésy

 

Paris, 1964. Depois de o ter entrevistado várias vezes, o jornalista James Lord (Armie Hammer) torna-se amigo do pintor e escultor Alberto Giacometti (Geoffrey Rush) que o convida a posar para um retrato. O que deveria ser uma tarefa de apenas alguns dias, transforma-se num adiar de várias semanas do regresso de Lord a Nova Iorque. Giacometti está permanentemente preso entre a insatisfação com o quadro e a ideia de que um retrato nunca pode realmente estar terminado. Qualquer coisa de bom que seja feito é sempre o ponto de partida para algo que pode ser grandioso, mas nunca irão ter tempo de lá chegar.

O Último Retrato junta dois atores – Stanley Tucci atrás da câmara e Geoffrey Rush à frente – que compreendem bem as ferramentas de contar uma boa história. Também não serão estranhos às angústias criativas e este filme é precisamente sobre o processo de um artista já consagrado, mas que em vez de se encostar à sombra da bananeira, encontra no sucesso o campo perfeito para questionar a qualidade e a validade da sua arte. É no desconforto e na insatisfação que encontra a plenitude.

Geoffrey Rush é talvez o ator que mais personagens reais interpretou no ecrã na última década. Do pianista David Helfgott em Simplesmente Genial (que lhe valeu um Óscar de Melhor Actor) ao Marquês de Sade em As Penas do Desejo, passando por Peter Sellers, Leon Trotsky (um pequeno papel em Frida) e Philip Henslowe em A Paixão de Shakespeare, Rush parece saber sempre qual é a medida certa de extravagância e capricho. Mesmo em personagens que poderiam facilmente cair no exagero ou na caricatura, como o Marquês de Sade ou Helfgott, há sempre qualquer coisa de muito palpável que os prende à realidade e à humanidade.

O mesmo se passa com a sua interpretação de Alberto Giacometti. Até os ataques de fúria para com a tela do retrato são representados a meio tom, porque são mais fruto da frustração do que do ego. Giacometti não é uma diva, mas sim um homem em final de vida que se vê confrontado com as suas próprias limitações em mostrar ao mundo a sua visão. “Quando eu era novo, achava que conseguia fazer tudo. Depois envelheci e descobri que não sou capaz de fazer nada”, diz a dada altura.

Atrás da câmara, encontramos Stanley Tucci, um dos eternos atores secundários de Hollywood, mas daqueles bons e encantadores que, na maior parte das vezes, traz uma segurança sorridente e serena aos filmes. De Julie & Julia, passando pelo Caso Spotlight, os Jogos da Fome ou o Diabo Veste Prada, entre outros, Tucci já trabalhou com os melhores. Como realizador, traz para este O Último Retrato a experiência de quem já anda a contar histórias há muito tempo. O filme não tem rasgos nem faíscas, mas é elegantemente realizado, dando o protagonismo a quem é devido: aos atores e ao cenário do atelier, que é uma espécie de terceira personagem silenciosa que divide as cenas com Geoffrey Rush e Armie Hammer.

Se quisermos encontrar um ponto mais fraco no filme, talvez seja a personagem de Clémence Poésy. Na pele de uma prostituta amante de Giacometti, a interpretação exagera na leveza do charme francês levando-o para o campo da tontice. De qualquer forma, estas personagens secundárias – onde se incluem a mulher e o irmão – estão lá para caracterizar o dia-a-dia de Giacometti e para dar contexto às ações deste homem que não é o melhor dos seres humanos, mas também não é o pior. O grande trunfo da interpretação de Rush – e do filme – é precisamente não ter medo desta normalidade quando se trata de uma figura da dimensão de Giacometti. Seria fácil cair no exagero, porque é isso que se espera dos artistas. O Último Retrato, se peca por alguma coisa, é pelo excesso de contenção. Ainda assim, talvez seja um caminho mais interessante do que o histerismo.

 

Para quem quiser conhecer o trabalho de Giacometti sobre outra perspetiva, pode visitar, no final de 2018 (entre 3 e 6 de Dezembro) uma exposição na delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian. Nesta mostra, o escultor português Rui Chafes irá colocar obras suas em diálogo com obras do artista suíço.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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