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Preservação da espécie em Olho Zoomórfico, de Mariana Silva

Para os mais distraídos, e dada a concentração de múltiplos eventos culturais, ainda vai a tempo de fazer uma visita à exposição individual de Mariana Silva Olho Zoomórfico, que estará presente até ao fim do mês de Fevereiro no Espaço Projeto da Fundação Gulbenkian, com curadoria de Leonor Nazaré. Trata-se de um trabalho de uma jovem artista, residente em Nova Iorque, feito exclusivamente para esta sala, sendo a primeira portuguesa a expor naquele espaço do Museu sob a nova Direção.

Após ter ganho em 2015 o Prémio EDP Novos Artistas, e de ter vencido o BES Revelação, Mariana Silva, a artista, prossegue o seu caminho com o suporte preferido, o ecrã.

As distinções que tem tido não alteraram o seu ritmo e a sua forma de trabalhar. Em 2015, a artista deu ênfase à necessidade de preservação de objetos artísticos do património cultural, colocando em causa o conceito de museu-obra. Para a Mariana a linguagem do consagrado, conceito esse que no atual panorama das artes visuais, não corresponde à atmosfera em que se trabalha.

Pelo contrário. Existe uma comunhão entre pessoas da mesma área com práticas diferentes, numa permanente continuidade. Afirmou não acreditar em obras-primas porque no universo contemporâneo, os artistas têm vindo a construir trabalhos que são mais propensos à avaliação de um caminho, num discurso pessoal a percorrer, onde diferentes obras fazem parte de um mapeamento a construir. Nesta perspetiva não deve ser centrado um único trabalho para a avaliação; razão pela qual não considera qualquer obra que assente num caráter definitivo, mas sim em sucessivas aproximações.

Os meus trabalhos constroem interrogações coerentes. Mariana Silva

Desde o curso que realiza vídeos. Dedica-se à arte, usando os seus trabalhos como suporte para as mensagens fortes, em torno das questões socioculturais que mais a preocupa. Contudo, optou pela formação em Pintura porque incentivava à área da experimentação em detrimento do campo da escultura, apesar desta última, ter tido avanços no campo da História da Arte nos últimos 70 anos.

Neste trabalho, Silva solidifica o seu posicionamento ao trazer interrogações oportunas em torno da uma reflexão sobre a extinção em massa de espécies animais e as práticas de captura em habitat natural. Simultaneamente, aborda a questão do olho humano e da realidade virtual.

O seu trabalho artístico é marcado por uma forte componente concetual que reflete a sua preocupação em questões culturais, museológicas e sociológicas. Do questionamento do espaço museológico entre cultura e natureza, a artista foi deslocando a sua investigação para os modos teóricos de pensar os públicos, acercando-se de casos de estudo científico e avaliando também os discursos reflexivos que os enquadram, já explorados pela autora noutras vertentes.

A instalação audiovisual é constituída por quatro momentos: duas peças concebidas num mesmo suporte, projeções em loop posicionadas em sentidos opostos Camera Trap e Olho Zoomórfico; e uma impressão digital sobre tela recortada Media Insecto e por último, surge Folha de Sala, de natureza puramente concetual formada por um texto, uma planta em folhas de acetato.

A obra fulcral é composta por duas projeções vídeo em ecrã circular, lado a lado, onde duas amigas Ngueve e Margot debatem o assunto da extinção das espécies, trocando impressões e fazendo perguntas sem encontrar respostas. O argumento expositivo conduz à relação humana com a natureza, nas diferentes formas de observação, com as imagens virtuais e a tecnologia como simulacros de vida já extinta ou em risco de se tornar.

A intervenção Media Insecto onde a pintura está presente numa composição de natureza plástica tem a função de cortar e dividir o espaço expositivo entre a entrada e o seu interior como se se tratasse de um biombo, onde convive com as projeções.

Ao longo da cortina recortada, observa-se planos de imagens digitais de pássaros e insectos onde a tela exibe duas imagens que representam massas migratórias de aves. O recorte da tela em configuração circular permite a sua ondulação, acompanhando o movimento das massas migratórias. A distribuição da luz atravessa as cortinas que semiobscurecem a sala, separando-a da entrada e desenhando através de linhas oblíquas de luz. Os focos de luz penetram no espaço, através da cortina pelo público que circula como se estivéssemos no meio da natureza.

Estamos, deste modo, perante uma obra de um artista/investigador que exerce um novo papel, recorrente dos criadores emergentes da produção artística contemporânea, utilizando técnicas avançadas com a prática experimental das artes visuais, para assim obter resultados inesperados e surpreendentes.

Manuela Synek é colaboradora da revista Umbigo há mais de dez anos. À medida que os anos vão passando, identifica-se cada vez mais com este projeto consistente, em constante mudança, inovador, arrojado e coerente na sua linha editorial. É Historiadora e Crítica de Arte. Diplomada pelo Instituto Superior de Carreiras Artísticas de Paris em Crítica de Arte e Estética. Licenciada em Estética pela Universidade de Paris I - Panthéon – Sorbonne. Possui o "Curso de Pós-Graduação em História da Arte, vertente Arte Contemporânea", pela Universidade Nova de Lisboa. É autora de livros sobre autores na área das Artes Plásticas. Tem participado em Colóquios como Conferencista ligados ao Património Artístico; Pintura; Escultura e Desenho em Universidades; Escolas Superiores e Autarquias. Ultimamente especializou-se na temática da Arte Pública e Espaço Urbano, com a análise dos trabalhos artísticos onde tem feito Comunicações. Escreve para a revista Umbigo sobre a obra de artistas na área das artes visuais que figuram no campo expositivo fazendo também a divulgação de valores emergentes portugueses com novos suportes desde a instalação, à fotografia e ao vídeo, onde o corpo surge nas suas variadas vertentes, levantando questões pertinentes.

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