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Bela Silva: entre a cerâmica, o desenho e a moda

Bela Silva é uma artista portuguesa a residir e a trabalhar na Bélgica, com uma obra notável normalmente associada ao trabalho com a cerâmica. Do currículo constam instituições e museus de sobeja importância nacional e internacional, com obra já no oriente, onde a cerâmica é tida como uma das mais respeitáveis artes, muito para lá – tal como o trabalho da artista – do adereço decorativo.

Uma das suas maiores encomendas é pública. Na Estação de Metro de Alvalade, panos de azulejos imensos trazem cor e vibração a um edifício de utilização fugidia e mecânica, que antes já tinha recebido os azulejos de Maria Keil. De facto, o azulejo é uma presença constante e particular na obra de Bela Silva, não apenas do ponto de vista profissional, mas também pessoal. Como nos lembra na entrevista que se segue, o Museu do Azulejo foi o primeiro espaço a receber uma exposição sua e Lisboa é a cidade natal, na qual se habituou, com certeza, a admirar o vasto património de azulejaria lisboeta.

No entanto, esta encomenda sublinha de igual modo a importância do desenho na sua obra, que ocupa igualmente parte substancial do seu portefólio artístico.

Dito isto, trabalhar com a indústria não lhe é algo estranho. E o convite proposto pela requintadíssima marca de moda Hermès para desenhar um lenço atesta essa capacidade, ao mesmo tempo que junta a arte ao design de moda.

Numa entrevista que antecede a inauguração da sua nova exposição Le Tango de Nos Amours, na galeria Alecrim 50 (em exibição até ao dia 17 de março), Bela Silva fala-nos agora desta aliança, do seu trabalho na Bélgica e, principalmente, da parceria com a Hermès.

José Pardal Pina – Antes de avançarmos com o tema central desta conversa – o convite da Hermès para uma colaboração – queremos saber como é viver e trabalhar na Bélgica e as vantagens deste país para a produção artística e cultural.

Bela Silva – Há muitas vantagens em trabalhar na Bélgica: a localização geográfica, com grande proximidade a muitos centros artísticos e culturais, a existência de muitos colecionadores e de muitas pessoas com interesse pela arte, o maior poder de compra e a disponibilidade para adquirir e investir em arte…

JPP – Ponderou regressar a Portugal e a Lisboa quando confrontada com este (aparente) boom cultural, com a abertura sucessiva de galerias e a crescente oferta de exposições e programação cultural?

BS – Pode parecer uma frase feita, mas é a verdade: pondero sempre voltar quando em Bruxelas estão muitos dias seguidos de céu cinzento e a luz de Lisboa começa a vir-me ao pensamento… O clima, a luz, o calor afetam-me bastante, confesso, mas com a minha idade a razão acaba sempre por prevalecer. Sei que, pelo menos por enquanto, seria um grande erro da minha parte regressar a Portugal.

JPP – Agora sim – Hermès. Nos últimos tempos tem havido uma série de parcerias entre grandes marcas de moda e artistas. De repente, saltam umas quantas à memória: Damien Hirst x Alexander Mcqueen; Yayoi Kusama x Louis Vuitton; Dinos and Jake Chapman x Louis Vuitton; e depois colaborações mais antigas e históricas como Andy Warhol x Yves Saint Laurent ou Salvador Dali x Elsa Schiaparelli. Considera estas aproximações naturais ou é um esgotamento de parte a parte que fomenta estas parcerias? Alguns consideram estas tendências perigosas no sentindo de um abastardamento da arte ao serviço da indústria da moda.

BS – Sempre existiram essas colaborações e parcerias. Penso que é positivo trabalhar com diferentes artistas que vêm trazer um olhar fresco e criativo aos produtos, assim como pode ser desafiante para os artistas experimentarem outro tipo de expressões e de apresentações públicas da sua obra. Nasci num meio de pessoas ligadas à moda. A Hermès e outras marcas de alta-costura não me eram estranhas e sempre tive algum fascínio e interesse por muitos dos seus produtos. Pode dizer-se que era um sonho antigo e naturalmente foi um prazer ter-se concretizado.

JPP – Como surgiu o convite?

BS – Há algum tempo fiz uma exposição na Galerie du Passage, em Paris, e houve pessoas da Hermès que viram o meu trabalho, contactaram-me para conhecer melhor o que andava a fazer e gostaram das cerâmicas e dos desenhos. Depois seguiram-se mais alguns encontros em Paris e estabeleceu-se uma relação fácil e agradável, que tornou também fácil discutir os pormenores da concretização deste projeto.

JPP – Pode parecer confusão, mas a primeira imagem que nos vem à cabeça quando vemos os lenços que a Bela concebeu para a Hermès, La Maison des Oiseaux Parleurs, é a imagem da azulejaria portuguesa. Isso parece muito evidente no lenço em tons de azul. Lembrou-se desta herança visual quando desenvolveu o projeto, ou o conceito partiu de algo totalmente distinto?

BS – Para este projeto quis trazer as minhas influências. Nasci em Lisboa e é claro que a azulejaria nas fachadas e nos interiores sempre me fascinaram, com os seus excessos de ornamento, arabescos e animais, o brilho dos vidrados, composições que muitas vezes lembram tapetes e tecidos estampados.
Recordo que a minha primeira exposição em Portugal foi no Museu do Azulejo, tenho boas recordações desse período e a inspiração para este trabalho também veio daí.

JPP – Como foi saltar de suporte artístico? Este trabalho parece aproximar-se mais de uma composição visual, bidimensional, e não tanto da cerâmica com que habitualmente trabalha.

BS – Mas é muito importante para mim desenhar! O desenho está na base do meu trabalho, de me expressar como artista. Quando desenho divirto-me imenso. Já quando faço cerâmicas são bastantes as dores de cabeça com a logística implicada, as questões técnicas, cozeduras, peso, o espaço físico que ocupa, etc. Por isso, não me foi nada estranho trabalhar mais a vertente de desenho.

JPP – Como avalia esta experiência e a recetividade da Hermès? Foi concedida liberdade total?

BS – Esta colaboração correu muito bem e foi muito agradável e importante para mim. Adorei trabalhar com eles. Gosto de trabalhar com pessoas profissionais, corretas, que procuraram sempre perceber as minhas ideias e intenções. E o saber e o gosto de fazer que eles têm, resultaram numa peça de grande qualidade. E naturalmente que, nessas condições, teria também todo o gosto em futuras colaborações com outras marcas que tivessem interesse no meu trabalho.

As várias tonalidades dos lenços podem ser consultadas aqui, com um valor de 360€ cada.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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