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Um polvo chamado ateliermob – Tentáculo 1

O ateliermob nasceu em 2005 com o objetivo de permitir aos seus fundadores abraçar com autonomia os projetos nos quais o seu trabalho e conhecimento podiam ser mais úteis. Treze anos depois percebemos que esse desejo, mais do que uma vontade, era uma necessidade, porque tem encontrado inúmeras formas de se realizar. Há uma quantidade impressionante de trabalho feito e a ser feito em projetos que reforçam a ideia um pouco perdida de que a arquitetura deve servir as pessoas e não ser apenas um exercício de autor. Os projetos de arquitetura social assumem um lugar de destaque, mas toda a filosofia do ateliermob, seja qual for o trabalho, passa pela ideia de comunidade e de que a arquitetura é um elemento unificador e uma ferramenta para aumentar a qualidade de vida dessa mesma comunidade.

A habitação como um direito fundamental, a reconstrução depois dos incêndios que vai para além das quatro paredes de uma casa, a violência de género nas ruas de Lisboa e a intervenção (inspiradora para quem a vê e fundamental para quem lá habita) no bairro das Terras da Costa. O ateliermob e a cooperativa Trabalhar com os 99% (uma das ramificações da empresa) tem um trabalho ativo em todas estas áreas e muitas mais. Em conversa com Tiago Mota Saraiva, um dos sócios fundadores, a Umbigo tentou mapear o percurso deste polvo chamado ateliermob, cujos tentáculos partem da Rua dos Fanqueiros e se estendem um pouco por todo o país.

Nesta primeira parte, concentramo-nos na essência e estrutura da empresa e no trabalho feito em Pedrógão Grande depois dos incêndios de Junho de 2017.

 

ateliermob vs Trabalhar com os 99%

Como a maioria dos ateliers de arquitetura, o ateliermob sempre esteve muito vocacionado para o concursamento público. Com vários concursos ganhos, este percurso foi interrompido pela crise em 2010/11. Várias obras começaram a ser canceladas e isso deu origem a uma reflexão interna sobre o caminho a seguir. Foi nessa altura que começaram os projetos da Trabalhar com os 99%, embora o estatuto de cooperativa só tenha sido estabelecido em 2016. “Penso que é a única cooperativa de prestação de serviços de arquitetura e urbanismo. A ideia é que estes projetos não são pagos pelas pessoas para quem estamos a produzir a nossa arquitetura. Vamos buscar financiamento para os fazer acontecer”, explica Tiago Mota Saraiva. É o caso do projeto nas Terras da Costa ou em Pedrógão Grande, dos quais falaremos mais à frente.

Ficou também definido que querem participar politicamente com a cooperativa naquilo que diz respeito ao seu raio de ação. Isto implica não só estar no terreno, mas também fazer parte do processo de decisão – estar presente nas discussões da Lei Base da Habitação, serem recebidos na Assembleia da República, participar nas sessões dos vários partidos políticos. Os elementos da cooperativa querem preencher aí uma lacuna frequente: prestar conhecimento de causa de como se vive neste ou naquele bairro, do que é urgente resolver e apresentar sugestões nesse sentido.

Quanto ao ateliermob, continua a dedicar-se ao concursamento público e ao desenvolvimento de outros projetos, como o Salão Central Eborense (Évora) entre outros. No entanto, não perde a lógica de participação numa prática que assenta nos mesmos princípios e na mesma equipa da Trabalhar com os 99%. Embora a cooperativa tenha ganho uma entidade própria a equipa é comum à do ateliermob – arquitetos, arquitetos paisagistas e uma antropóloga, para além dos profissionais externos que se juntam a cada projeto. Tudo para uma abordagem compreensiva que vai para além de construir paredes.

 

Pedrógão Grande

Construir mais do que paredes é um dos principais objetivos da missão do ateliermob em Pedrógão Grande. Depois do incêndio de Junho de 2017 e a convite da Fundação Calouste Gulbenkian e da União das Misericórdias, uma equipa de 15 arquitetos, muitos engenheiros e uma antropóloga criaram um atelier em Figueiró dos Vinhos para acompanhar o projecto de reconstrução de sete habitações destruídas pelo fogo – três em Figueiró, outras três em Pedrógão Grande e uma na Pampilhosa da Serra. Para além do ateliermob e da Trabalhar com os 99%, juntou-se à missão o Colectivo Warehouse.

“São zonas do país que já tinham problemas há muitos anos e foram sendo ignorados. A habitação é um reflexo de um problema, mas nunca se esgota com a atribuição da casa”, diz Tiago Mota Saraiva. Mais do que fazer igual, a ideia é acrescentar qualidade ao que estava construído antes, nunca perdendo de vista as necessidades reais de quem vai habitar as casas. Sendo assim, os projetos foram desenvolvidos de raiz com a participação das pessoas afetadas, incorporando na arquitetura os seus hábitos, dinâmicas e rotinas, muitas delas ligadas à agricultura como atividade diária: espaço para galinheiros, forno a lenha ou fumeiro, por exemplo. Foram também incluídas outras comodidades ligadas à qualidade vida, como maior isolamento das casas ao frio ou adaptação à falta de mobilidade de alguns dos residentes.

A maior parte dos projetos vão começar a ser construídos em Janeiro, mas entretanto já foi concluído outro: transformar a antiga escola primária da Figueira na sede da Associação das Vítimas ao Incêndio de Pedrógão Grande (inaugurada no Natal de 2017 por Marcelo Rebelo de Sousa).

O atelier em Figueiró dos Vinhos iria fechar em Março mas, à partida, já não será assim. Para além de sentirem que o trabalho ali ainda não terminou, há também a expectativa de qual será a estratégia adotada pelo governo em relação aos incêndios de Outubro de 2017. O ateliermob gostaria de também estar presente nessa equipa de reconstrução.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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