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Balanço do The New Art Fest 2017

O The New Art Fest é um festival de arte muito recente que já conseguiu mobilizar a arte contemporânea em Portugal e afirmar-se como um projeto legítimo, capaz de atender a um público interessado em ver de que modo arte e tecnologia cruzam caminhos.

A edição de 2017 teve como diretor artístico António Cerveira Pinto e alargou o seu espetro de exibição, com uma programação diversificada e descentralizou-se para Montemor-o-Novo. Lisboa Cidade Aberta foi a exposição principal, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) e sinalizou a interdisciplinaridade e os atos colaborativos como práticas da arte contemporânea.

2018 terá novos eventos, exposições e palestras, mas antes fica o balanço da edição passada através de Teresa Boieiro, uma das organizadoras que, ao lado de Luísa Moreira, dirige a Ocupart | Arte em espaços improváveis, e António Cerveira Pinto.

 

José Pardal Pina – Face às expectativas iniciais, que balanço faz do festival? Que momentos destaca?

Teresa Boieiro e António Cerveira Pinto – A edição de 2017 do The New Art Fest obteve uma resposta entusiástica dos artistas participantes e uma importante e diversificada afluência de público, que foi superior às nossas expectativas e que traduz o interesse suscitado pela programação apresentada. Saliento que o Festival foi produzido com drásticas limitações orçamentais e sem qualquer apoio público e institucional, o que é surpreendente quando comparamos a novidade deste evento com a inércia de outros sistematicamente apoiados. A marca, essa, conseguiu claramente afirmar-se em apenas duas edições, como prova a boa receção dos meios de comunicação social.

O Festival centrou-se na exposição Lisboa Cidade Aberta, realizada no Picadeiro do MUHNAC, que para além de uma exposição foi um espaço de reflexão sobre a profunda transformação tecnológica das cidades, estimulada pelo desenvolvimento e massificação das tecnologias de informação, representação e computação. Além da exibição de 39 obras de 34 artistas, contou com debates, conferências, workshops, performances e foi ainda dada uma especial atenção aos coletivos e plataformas de arte e tecnologia.

A apresentação de Bebot, robots pintores do Leonel Moura, junto ao palco Talk Robot na Web Summit, teve um enorme sucesso, contando com a visita de milhares de pessoas, interessadas em ver como a arte e tecnologia se podem cruzar. Alguns desses visitantes deslocaram-se posteriormente à exposição Lisboa Cidade Aberta, no Museu de História Natural e da Ciência. Na Web Summit, a participação da artista Maria Lopes no painel Culture, art and spirituality in a digital age, foi outro dos momentos altos de Festival.

JPP – Que números se contabilizaram entre as exposições, as atividades educativas e as várias conferências?

TB e ACP – Na exposição Lisboa Cidade Aberta, realizada no Picadeiro do MUHNAC, pensámos, à partida, que o facto de ter que se pagar o bilhete de entrada no Museu para aceder à exposição poderia ter um efeito dissuasor, numa cidade que atualmente “fervilha” com eventos culturais, muitos deles gratuitos. Os cerca de 2000 visitantes da exposição superaram as nossas expectativas.

Quanto aos eventos paralelos, contámos com cerca de 670 participantes, entre debates, conferências, workshops, performances e concertos, visita às Oficinas do Convento e passeio psicogeográfico.

Quanto à Web Summit, é difícil contabilizar, mas foram certamente vários milhares de pessoas que visitaram o espaço do Festival com os robots pintores do Leonel Moura e mais de duzentas pessoas sentadas a assistirem ao painel Culture, art and spirituality in a digital age.

JPP – Como surgiu a ideia de “ocuparem” o Museu Nacional de História Natural e da Ciência?

TB e ACP – O festival definiu desde o início o seu perímetro de ação a partir dum epicentro situado na zona do Chiado, daqui irradiando em direção a Sul (Cais Sodré, Rua de São Paulo), Norte (Príncipe Real, Escola Politécnica), Nascente (Rua Garret, Carmo), e Poente (Largo do Camões…). Uma vez eleito o território, todas as instituições culturais e artísticas, públicas e privadas nele situadas são nossos potenciais parceiros.

A colaboração com o MUHNAC foi a nossa primeira escolha, talvez pela sua história recente, de que há que destacar o papel que a extinta Sala do Veado teve na divulgação de tantos jovens e não-jovens artistas. Mas também pela vocação científica do museu, onde não apenas se expõe, mas fundamentalmente se investiga e cuida de tantos e tão extraordinários exemplares do mundo mineral, botânico e animal. Pretendendo o The New Art Fest estabelecer uma relação interdisciplinar ativa com as tecnologias e com o conhecimento científico, nada de mais natural do que pretendermos uma parceria profícua e prolongada com este museu.

JPP – Consideram que a arte digital tem tido uma representatividade regular na arte contemporânea portuguesa? Parece que só muito recentemente se despertou em Portugal para estas expressões que recorrem a temas complexos como software, hardware, programação, etc.

TB e ACP – As tendências artísticas experimentais são ‘antigas’, mesmo em Portugal. Basta recordar Amadeo de Sousa-Cardoso, Almada Negreiros, René Bértholo, Jorge Peixinho, Constança Capdeville, Ernesto de Melo e Castro, Pedro Andrade,  Silvestre Pestana, etc. No entanto, raramente foram consistentes e duradouras, em parte por causa do isolamento do país ao longo de tantas décadas do século 20. Mas também, há que dizê-lo, por falta de coragem ou esclarecimento das principais instituições culturais que temos, exceção feita, naturalmente, à Fundação Calouste Gulbenkian.

No que se refere aos últimos vinte e três anos (1994-2017), a época que viu nascer em todo o mundo uma autêntica revolução tecnológica computacional de massas, no domínio da informação, das comunicação e da cultura audiovisual, a verdade é que se tem registado entre nós uma assincronia algo preocupante entre a criação artística de base computacional (digital) e a inércia da chamada ‘arte contemporânea’, na qual predominam demasiados tiques de elitismo e especulação.

Neste sentido, o The New Art Fest vem abrir claramente uma brecha teórica e experimental. Teórica e crítica na reflexão sobre os novos meios; experimental no uso e abuso das novas linguagens, de que a utilização intensiva de ferramentas computacionais, e a aprendizagem/uso de linguagens de código binário, são óbvios paradigmas que não podem mais ser varridos para debaixo do tapete.

JPP – Comparando com a edição de 2016, que evoluções houve nesta edição que passou e que aprendizagem foi feita para o futuro deste festival? Podemos contar já com a edição de 2018?

TB e ACP – As duas primeiras edições (2016, 2017), e provavelmente ainda a deste ano, formam um caminho de aprendizagem. Não queremos fazer mais um festival, ou mais uma exposição, mas sim lançar as bases de um verdadeiro Festival de Arte Nova, pleno de ideias, diversidade, sagacidade e participação comunitária.

A experiência realizada este ano com uma escola básica e com uma instituição de apoio a doentes com Síndrome de Asperger na produção de uma obra de arte (O Campo da Consciência, de Maria Lopes) foi imensamente gratificante, para nós, para as crianças, e para as famílias que acompanharam a experiência.

Noutra extremidade das possibilidades cognitivas desejadas para este festival esteve a participação do The New Art Fest na Web Summit. Os robots do Leonel Moura foram um êxito, em particular, porque permitiram uma grande proximidade entre ‘techies’ e um artista inovador. Mas impressionante mesmo foi ver mais de duzentas pessoas sentadas ouvirem um painel (Culture and art in a digital age) dedicado às relações crescentes entre arte e tecnologia, ao mesmo tempo que as intervenções de Zoe Martin, Maria Lopes e Crimson Rose chegavam via ‘streaming’, e depois via YouTube, a muitos milhares de internautas.

JPP – Este ano o festival expandiu-se para Montemor-o-Novo. Como surgiu esta ideia e com que propósito?

TB e ACP – Entre as ideias novas lançadas na edição de 2017 contam-se: Maker Art (um Maker Fair dedicado à criação artística), o estabelecimento de uma mapa de supernovas, de coletivos de artistas que vivem e trabalham fora da cidade e com os quais são organizados eventos e plataformas de colaboração futura; e ainda a realização de passeios psicogeográficos em Lisboa.

A excursão às Oficinas do Convento foi uma experiência excitante que pretendemos naturalmente repetir e fazer transbordar em algo mais estruturado e duradouro.

JPP – Ponderam, no futuro, realizar uma exposição virtual, na internet, que vá ao encontro do título do festival?

TB e ACP – Parte substancial da edição de 2018 vai passar precisamente por uma exposição virtual, ou como preferimos dizer, por uma exposição que é, na sua essência, uma propriedade emergente das bases de dados onde hoje milhares de obras de arte se encontram.

Outra novidade do festival que inaugurará no dia 2 de novembro de 2018 chama-se House of Thoughts (Casa dos Pensamentos). A ideia nasceu das múltiplas tempestades mentais que tiveram lugar na edição de 2017! Trata-se, no essencial, de promover seminários de um, dois, ou três dias, sobre temas avançados de teoria e praxis artística pós-contemporânea. Uma espécie de banquete filosófico, onde se cozinha, come, bebe e discutem ideias seriamente preparadas para o efeito.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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