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Aqui – Ali, A Natureza e o Corpo Canadianos

“(…) Canadá como um estado de espírito, como um espaço que tu habitas não só com o teu corpo, mas com a tua cabeça. É aquele tipo de espaço no qual nos encontramos perdidos.”

Margaret Atwood, Sobrevivência (1972)

 

No coração da construção da identidade nacional de um país estão tanto as suas limitações como as suas delimitações. No caso do Canadá e da sua vastidão paisagista política, pré e pós-invasão europeia, mas também (e primordialmente como figura metafórica) ambiental, um núcleo de inquietação é ainda hoje sentido. Agora, 150 anos desde que as fronteiras foram removidas e a Confederação Canadiana desencadeou a expansão das quatro províncias que, juntas, constituem os limites das arestas do país, o Centro de Investigação Artística de Lisboa, Hangar, com o apoio da Embaixada Canadiana em Lisboa e sob a curadoria do escritor, programador e investigador Jesse Cumming, apresentou-nos uma exploração dinamizada dos conceitos turvos envoltos nas políticas de identidade e da narrativa do pós-colonialismo.

Exibido no passado mês de novembro, o programa audiovisual Uma Linha Desenhada: Fronteiras e Limites em Filmes e Vídeos Canadianos perpetuou o inaudível com uma coletânea de vídeos, instalações e curtas-metragens que procuraram unificar o passado e o presente, apelando aos sentidos do inquérito que permanece inerente ao conceito de ‘divisória’, das tensões dialéticas do imaginário colonial. Realçando o trabalho de Sofia Bohdanowicz, Michael Stecky, David Rimmer, Shelley Niro, Joyce Wieland, Scott Miller Berry e Dana Claxton, o programa prefigurou a emoção esperada no comunicar de uma mensagem sociopolítica que fala abertamente do multiculturalismo do Canadá, replicando na evolução do corpo do programa a memória do corpo do processo histórico e colonial que o país atravessou. E tal como num livro de recortes que procura contar a história de um indivíduo – mente, corpo e alma -, a geografia de um lugar é construído, difundido na apropriação do reino da imagem em movimento: a textura sensorial coletiva a metalinguagem da projeção, a divisória formatada em cada projeto individual o elemento factual que transparece o esqueleto de um país definido pela sua não-definição.

Debruçado sobre essa linha, literal ou não, espelhada no mapa emocional da antropologia canadiana, o discurso é iniciado com o trabalho de uma das realizadoras mais promissoras no Canadá presentemente. Modlitwa (A Prayer) (2013) de Sofia Bohdanowicz, a primeira parte de uma trilogia de curtas-metragens que olham para a avó da criadora, antes e após a sua morte, documenta a rotina diária da matriarca. Enquanto a senhora lê, come, fala ao telefone, Bohdanowicz leva-nos ao escavar da noção do conceito da ‘vida’, da sua efemeridade em contraste com a passagem para a morte, a fronteira da qual não é possível voltar. Na sua contemplação privada e familiar das sequências partilhadas, o filme observa de perto as perguntas às quais Chantal Akerman dedicou a sua carreira: Onde é verdadeiramente o nosso lar? E será uma meditação em tempo real aquilo que explora as limitações da vida ou, em vez disso, o único processo onde é possível testemunhar o heroísmo daquele que vive?

Da mesma forma, ainda que estilizada, transparece a claustrofobia e ansiedade que a jornada contada no A Stranger on the Land- A Ghost Story (2012) de Michael Stecky evidencia. O vento a sobrevoar a velocidades excessivas, o silêncio que ecoa na escuridão densa das ruas desertas transportam o espetador às temperaturas gélidas e ao desespero sentido de um homem perdido no Ártico durante uma tempestade de neve. Enquanto isso, as sequências de vídeo de superfícies iluminadas pela mota de neve trazem para primeiro plano o que Modlitwa cria analogicamente, o limbo. O sentimento de contenção, a permanência num estado que leva à exasperação, é aqui induzido e acrescentado ao filme anterior.

Seguindo a tonalidade e a absorção de um mundo entrecortado em dois encontra-se o sentimento na imagem da mulher que trabalha numa fábrica no estudo tridimensional de movimento Variations on a Cellophane Wrapper (1972) do distinguido David Rimmer. Na análise de cor e tom, do celuloide como a grande folha de celofane que a mulher desenrola e vira e re-vira incessantemente, o processo ao qual a película é submetida durante a projeção é replicado por Rimmer, e continuamente expandido e intensificado até a mulher ser representada como um objecto fotoquímico. Assim sendo, a silhueta que perdura relaciona a fantasmagoria da imagem com o comentário social que tal processo áureo provoca. No final, a abstração do movimento ondular reduz-se a manchas a flutuar no ecrã. A mulher é um meio de transporte, que levado à sua exacerbação por Rimmer, transcende a noção do limpar de fronteiras na linguagem social que as variações etnográficas proporcionam. A passagem do tempo e a memória que é evacuada do processo equivale a um alerta urgente à descolonização.

E aqui se debruçam os dois exercícios que se seguem. Na contribuição de Shelley Niro, Niagara (2015), um vídeo água a cair nas Cascatas de Niagara, Nova Iorque, que utiliza texto embutido na imagem para evidenciar uma memória do passado, a afetividade de um lugar quase sagrado para as seis Nações Haudenosaunee é denominado como “uma fronteira”, diz-nos a artista. Esta representação do espaço que conecta o passado indígena ao presente pós-colonial, do abrigo providenciado aos povos indígenas pelos Americanos, é um memorial, um casulo que invoca a descoberta do sentido de identidade. Da mesma forma, o ensaio de apropriação de um objeto como uma camisola branca em The Shirt (1994) de Dana Claxton, funciona como um veículo de expressão corporal que extrapola o físico no psicológico. A camisola que, no seu culminar, depois de lavada e re-lavada é, aos olhos de Claxton, transparente. Assim, através da fisicalidade da voz da memória indígena, o processo de descolonização é elevado ao estado permanente de descoberta das heranças que ambas artistas, Niro e Claxton, se encontram empenhadas em localizar. É na transparência da mensagem, do passado sofrido com a colonização, que a união pode vir a ser, parecem dizer.

A mesma tentativa de simbolismo é confortada no discurso articulado e carismático de Joyce Wieland com Rat Life and Diet in North America (1968). Identificado por Jonas Mekas como “um dos filmes mais originais” do final dos anos 60, Wieland estrutura a sua sátira política e o papel do Canadá usando animais – ratos e gatos – na sua parábola. Uma homenagem a Maya Deren, o experimentalismo do filme é uma amostra da projeção de subjetividade nos corpos dos sujeitos, neste caso animais, que no seu humanismo participam nos limiares da sociedade. E do Canadá como o lugar do reconhecimento da humanidade com toda a sua não-identidade, e todas as problemáticas de identificação da procura por uma.

Sim. Procura. Procura é a palavra indicada para o que nos é mostrado numa terceira e conclusiva parte do corpo do programa. Se Cumming começa por nos revelar as linhas temporais das fronteiras que são polos extremos, ele acaba o programa mergulhado em nostalgia, projetando a memória do passado como a experiência corporal do futuro, do que está prestes a vir. Em Untitled (eleven years) (2015), Scott Miller Berry escreve uma carta póstuma à mãe, na qual se começa por questionar se “será possível permanecer no interior e no exterior de nós mesmos ao mesmo tempo”, se “aquilo que partilhamos e escondemos” será, enquanto o nosso limbo, também a nossa libertação como seres que comungam na eternidade. O movimento de termos de sair, e assim ultrapassar uma barreira, para voltarmos a nós mesmos, onde a nossa intenção em viver e em decidir querer viver pode ser inferida. Explorando o género do filme-diário, onde um espaço de comemoração da vida na morte é originado, Berry posiciona o seu poder no falar do encontro no depois. Na noção de ‘lar’ com a qual só nos podemos vir a deparar assim que dela formos obrigados a sair.

E com o alcance deste ‘lar’, Cumming acaba o seu comentário. Em Dalsza Modlitwa (Another Prayer) (2013), agora após o falecimento da sua avó, Bohdanowicz projeta as imagens do filme, com que este programa é iniciado, nas paredes da agora casa vazia da matriarca. Como um testemunho de amor e de devoção, e como um pedido de retrocesso do tempo, a realizadora explicita a presença eterna da alma da sua avó na casa onde esta viveu. Não há mais paredes, não há mais linhas que possam ser desenhadas e delineadas entre laços criados. Este lar realizado é um de gratidão, e aquela casa a metáfora para a nossa criação. Não há um aqui e um ali. E Jesse Cumming sabe isto melhor do que ninguém. Há o Canadá. E sim, na descolonização, podemos começar a entender-nos como um todo, tão transparente como água que cai e bate nas rochas. Afinal, não é o permanece que brilha sempre com mais intensidade?

Susana Bessa

Escritora e investigadora, Susana Bessa completou o seu Mestrado de Artes em Estudos Fílmicos na Goldsmiths College e King’s College recentemente, com uma dissertação que encontra no processo do cinema como um acto de memória a definição do conceito social da ‘saudade’. Os seus temas de pesquisa são a memória, o arquivo, a saudade, o pós-colonialismo e o tempo. Também estuda a intersecção entre as redes sociais e a crítica de cinema. Já escreveu para The Rumpus, Photogénie, Mubi Notebook, theFanzine, Inner City Prophet Magazine, Take Cinema Magazine, Nisimazine e muitas outras publicações. Vive entre Londres e o Porto, e encontra-se presentemente a preparar o seu primeiro programa audiovisual.

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